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15 março 2013

52 anos dos Massacres de Nambuangongo (Angola), início da Guerra Colonial (1961)

(Malhas que o Império tece!)

(Fernando Pessoa, “O menino da sua mãe”, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)

04 março 2013

619 anos do nascimento do Infante D. Henrique (1394)

AO INFANTE


Senhor, a obra fica e o homem passa.
Mas a obra é o homem. Só estas canções
No fundo incerto e oceânico da raça
E anónimos, longes corações.
Em torno de mim, se de mim mesmo corro
O som ruído da onda e as praias toco
Do Largo no abismo do meu ser,
Pairam as naus perdidas que encontraram
O por-achar e em mares se abismaram
Para além do Regresso e do Esquecer.

Parte quem fica quando a Alma manda.
Em mil naus a Vossa alma reviveu
E no universo, de uma a outra banda
Do que se achou e que se conheceu,
Vossa Presença Eterna violou
As portas de ouro com que Deus fechou
O oriente de luz e o ocaso morto...
Vosso espírito ainda nos consuma
E obre as novas naus em nós a suma
Vitória de não quererem nunca o porto.

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 172)

13 fevereiro 2013

94 anos do fim da “Monarquia do Norte”, com a entrada das forças republicanas no Porto (1919)

[...] [Ricardo Reis] vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. [...]

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, p. 345)

03 fevereiro 2013

525 anos do desembarque de Bartolomeu Dias na Aguada de São Brás (Mossel Bay) após dobrar o Cabo das Tormentas, ou da Boa Esperança (1488)

Ilustração de Pedro Sousa Pereira
para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)


19 janeiro 2013

94 anos do início da “Monarquia do Norte” (1919)

[...] Fixemos isto: ser monárquico é, hoje, em Portugal, ser traidor à alma nacional e ao futuro da Pátria Portuguesa. [...]

(Fernando Pessoa, “Reincidindo...”, Crítica, p. 34)

13 janeiro 2013

254 anos da execução dos condenados no Processo dos Távoras (1759)

[...] Oh, how I dream of that Marquis of Tavora who should come and redeem the nation — a saviour, a true man, great and hold that would put us right. But no suffering can equal that when I bring myself to understand that this is no more than a dream.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 49, p. 76; em inglês no original)




[ [...] Oh, como eu sonho com aquele Marquês de Távora que poderia vir redimir a nação — um salvador, um verdadeiro homem, grande e dominador que nos endireitaria. Mas nenhum sofrimento pode igualar aquele que me leva a perceber que isto não é mais do que um sonho. ]

(idem, p. 77)

07 janeiro 2013

688 anos da morte de D. Dinis (1325)

Conhece-se a poesia lírica pelo facto de ser quase desprezível a ideação ou o sentimento para existir uma boa poesia lírica. Assim o «Ai flores, ai flores do verde pino» ou o «Levantou-se a velida» de D. Dinis, rei de Portugal, são poesias líricas maravilhosas, conquanto contenham uma insignificante base ideativa ou mesmo emocional. É o lirismo puro. Claro está que, dentro deste lirismo, a poesia será tanto maior quanto mais ideia e emoção contém. [...]

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 237, p. 383)

17 dezembro 2012

38 anos da extinção da Comissão de Censura em Portugal (1974)

FADO DA CENSURA


Neste campo da Política
Onde a Guarda nos mantém,
Falo, responde a Censura,
Olho, mas não vejo bem.


Há um campo lamacento
Onde se dá bem o gado;
Mas, no ar mais elevado,
Na altura do pensamento,
Paira um certo pó cinzento,
Um pó que se chama Crítica.
A Ideia fica raquítica
Só de sempre o respirar.
Por isso é tão mau o ar
Neste campo da Política.

Às vezes, nesta planura,
Só o vento sopra do Norte,
O pó torna-se mais forte,
E chama-se então Censura.
É um pó de mais grossura,
Sente-se já muito bem,
E a Ideia, batida, tem
Uma impressão de pancada,
Como a que dão numa esquadra
Onde a Guarda nos mantém.

O pó parece que chove,
Paira em todos os sentidos,
Enche bocas e ouvidos,
Já ninguém fala nem ouve.
Se a minha boca se move,
Logo à primeira abertura
A enche esta areia escura.
Só trago e me oiço tragar.
É uma conversa a calar.
Falo, responde a Censura.

Vem então qualquer vizinho,
Dos que podem abrir boca;
No braço, irado, me toca,
E diz, «Não vê o caminho?
O seu dever comezinho
De patriota aí tem.
Vê o caminho e não vem?!»
Para isso, boas aos molhos!
Se este pó me entrou pròs olhos,
Olho, mas não vejo bem.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 470–471)

16 dezembro 2012

497 anos da morte de Afonso de Albuquerque (1515)

[...] O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. [...]

(Fernando Pessoa, “Entrevista sobre a Arte e a Literatura Portuguesas”, Crítica, p. 198)

14 dezembro 2012

94 anos do assassinato de Sidónio Pais (1918)

Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!

Não é com fé que nós não cremos
Que ele não morra inteiramente.
Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.

[...]

Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir.

Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!

Não era extinta a antiga chama
Se tu e o amor puderam ser.
Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!

E, porque foste, confiando
Em QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,

Até que Deus o laço solte
Que prende à terra a asa que somos,
E a curva novamente volte
Ao que já fomos,

E no ar de bruma que estremece
(Clarim longínquo matinal!)
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!

(Fernando Pessoa, “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, Poesia (1918–1930), pp. 117 e 123–124)

04 dezembro 2012

32 anos da morte de Francisco Sá Carneiro (1980)

Morreu pela Pátria, sem saber como nem porquê. [...]
[...]
[...] Não pensou que ia morrer pela Pátria; morreu por ela. [...]
O seu lugar não é ao pé dos criadores de Portugal, cuja estatura é outra, e outra a consciência. [...]

(Bernardo Soares, “Cenotáfio”, Livro do Desassossego, pp. 424–425)

11 novembro 2012

151 anos da morte de D. Pedro V (1861)

D. PEDRO V


Quando Deus viu que o rei D. Pedro Quinto
Longe de má pessoa, com acinto
Ao bem e à verdade se cingia
Assobiou e resmungou «errei
Lá vai este destoar, por ser bom rei,
Daquela estuporada dinastia
Que eu destinara a exemplificar
Perante o mundo o mal da monarquia
Nada, volva a infâmia ao seu lugar
Se não com este era a obra desfeita
Da infâmia completa de governar
Que nos Bragança ia tão perfeita.»
Matou-o novo pois para não destoar.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 203, p. 341)

22 outubro 2012

67 anos da criação da PIDE, sucedendo à PVDE (1945)

Ah, a opressão de tudo isto!

(Álvaro de Campos, “Vilegiatura”, Poesia, 199, p. 511)

05 outubro 2012

102 anos da Implantação da República (1910)

O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!

Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos — porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos — de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 47, p. 149)


O nosso Presidente é que deve saber:
Cavaco Silva hasteia a bandeira nacional invertida durante as comemorações do 5 de Outubro
Fotografia de de Natacha Cardoso (Global Imagens)
Por isso, refazemos aqui o calendário de Outubro:
Calendário pessoano: Outubro de 2012 (agora com feriado de pernas para o ar)
5 de Outubro: um feriado marcado para morrer... (agora de pernas para o ar)

06 setembro 2012

51 anos da concessão da plena cidadania portuguesa a todos os habitantes das colónias, com a abolição do Estatuto dos Indígenas Portugueses (1961)

Há três imperialismos: de domínio, de expansão e de cultura.
[...]

IMPERIALISMO DE CULTURA
[...]
(3) O que procura dominar ou colonizar para civilizar ou modificar as raças indígenas, sejam inferiores, decadentes ou apenas menos civilizadas.
[...]

(Fernando Pessoa, “Império”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 74, pp. 221–222)

03 setembro 2012

253 anos da ordem de expulsão dos Jesuítas de Portugal (1759)

Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

04 agosto 2012

434 anos Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

«Pessoa e o Quinto Império»
Desenho de H. Mourato


O DESEJADO


Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Terceira Parte, I, p. 165)

08 julho 2012

515 anos da partida de Vasco da Gama para a Índia (1497)

cidade-barco
Ilustração de Pedro Sousa Pereira
para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)

05 julho 2012

05 de Julho de 1932: Salazar, o “Ditador da Finanças”, assume a chefia do Governo

O prestígio de Salazar não se deriva da sua obra financeira, tanto porque, sendo essa obra uma obra de especialidade, o público não tem competência, nem pretende ter competência, para a compreender, como porque o acolhimento calorosamente favorável, que essa obra teve, denotava já um prestígio anterior. O prestígio de Salazar nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras frases como ministro, e as suas primeiras acções como administrador, por um fenómeno psíquico simples de compreender.

Todo prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se sente incapaz de ter. O povo português é essencialmente descontínuo na vontade e retórico na expressão: não há coisa portuguesa que seja levada avante com firmeza e persistência; não há texto genuinamente português que não diga em vinte palavras o que se pode dizer em cinco, nem deixe de incoerir e romantizar a frase. Logo desde o princípio, Salazar marcou, e depois acentuou, uma firmeza de propósito e uma continuidade de execução de um plano; logo desde o princípio falou claro, sóbrio, rígido, sem retórica nem vago. O seu prestígio reside nessa formidável impressão de diferença do vulgo português.

No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, de maledicentes por impotência e espirituosos por falta de assunto intelectual, o lente de Coimbra (Santo Deus!, de Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral. Depois dos Afonsos Costas, dos Cunhas Leais, de toda a eloquência parlamentar sem ontem nem amanhã na inteligência nem na vontade, a sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de brônzeo e de fundamental. Se o é deveras, e se a obra completa o que a intenção formou, são já assuntos de especialidade, e sobre os quais nem o público, que deles nada sabe, nem eu, que sei tanto como o público, poderemos falar com razão ou proveito.

De este prestígio resulta o contraste com Afonso Costa. Quando este apresentou, em 1912 (?), o seu superavit, foi recebido à gargalhada pelo público, e os seus próprios partidários tiveram de fazer esforços sobre si mesmos para ter fé na obra, como a tinham no homem. Quando Salazar apresentou o superavit, todo o grande público imediatamente o aceitou. Não foi pois o superavit, comum aos dois que provocou o prestígio: o prestígio de um, o não prestígio de outro, eram anteriores ao espectáculo financeiro.

(Fernando Pessoa, “Interregno”, Da República (1910–1935), 129, pp. 384–385)

05 junho 2012

569 anos da morte do “Infante Santo” (1443)

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL


Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, III, p. 103)