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09 abril 2010

92 anos da Batalha de La Lys (1918)

Caeiro morto
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

19 março 2010

77 anos do “plebiscito” à Constituição de 1933 (Estado Novo)

Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim:
Art. 1. António de Oliveira Salazar é Deus.
Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia.

Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo — a Teocracia pessoal.

[...]

Miserrimam servitutem pacem appelant.*


(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 223, p. 367)


* Pedem uma paz misérrima de servidão.

06 março 2010

89 anos do Partido Comunista Português (1921)

O bolchevismo (entendendo por bolchevismo o sindicalismo revolucionário e o comunismo, e não só este último) é um fenómeno reaccionário e religioso. Nada tem de propriamente social, nem podia ter, porque, se o tivesse, não o poderiam adoptar as plebes, incapazes de outra coisa que não de religião.
E fácil provar o carácter reaccionário do bolchevismo, como é fácil provar o seu carácter religioso — mais fácil ainda.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 62, p. 85)

04 março 2010

616 anos do nascimento do Infante D. Henrique (1394)

O INFANTE


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, I, p. 127)

03 fevereiro 2010

522 anos do desembarque de Bartolomeu Dias na Aguada de São Brás (Mossel Bay) após dobrar o Cabo das Tormentas, ou da Boa Esperança (1488)

O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IV, pp. 133–135)

01 fevereiro 2010

102 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, pp. 83–84)



O Regicídio, e, depois, a Revolução, foram os dois fenómenos que chamaram sobre nós, embora imperfeitamente, a atenção do estrangeiro. Quer dizer: em vez de desconhecidos, passámos a ser mal conhecidos. Antes, nada se sabia de nós; passaram a saber-se de nós coisas inteiramente falsas. O conhecimento que o estrangeiro tem de nós oscila entre o nada e o erro.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 175, p. 309)

07 janeiro 2010

685 anos da morte de D. Dinis (1325)

D. DINIS


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 93)

20 dezembro 2009

10 anos do regresso de Macau à soberania chinesa (1999)

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

06 dezembro 2009

824 anos da morte do primeiro Rei de Portugal (1185)

D. AFONSO HENRIQUES


Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 91)

05 dezembro 2009

513 anos do decreto de expulsão dos “hereges” de Portugal (1496)

Que abjecção esta regularidade!

(Álvaro de Campos, “Dactilografia”, Poesia, 181, p. 485)

01 dezembro 2009

369 anos da Restauração da Independência (1640)

A restauração de 1640 fez-se por uma revolução aristocrática, que o povo apoiou, mas em que não colaborou activamente.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, p. 112)

05 outubro 2009

99 anos da implantação da República (1910)

Propriamente falando, eu não combato a monarquia; combato a monarquia portuguesa. [...] A monarquia portuguesa aí está! Basta olhar para ela. Não há melhor argumento.

(Pantaleão, Pessoa por Conhecer, vol. II, 160, p. 211)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

30 setembro 2009

73 anos da criação da Legião Portuguesa (1936)

Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias;

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)

16 setembro 2009

Iconografia pessoana

Monumento ao Infante D. Henrique em Lagos (Algarve)


(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

09 setembro 2009

36 anos da primeira reunião do Movimento dos Capitães (1973), embrião do Movimento das Forças Armadas e do 25 de Abril

Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. [...] Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 66, p. 87)

14 agosto 2009

624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)

NUN’ÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)

04 agosto 2009

431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)

03 agosto 2009

03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)

27 julho 2009

39 anos da morte de Salazar (1970)

Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)

12 junho 2009

24 anos do Tratado de Adesão de Portugal à CEE (1985)

Temos vivido por empréstimo a vida europeia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 178, p. 311)