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17 dezembro 2012

38 anos da extinção da Comissão de Censura em Portugal (1974)

FADO DA CENSURA


Neste campo da Política
Onde a Guarda nos mantém,
Falo, responde a Censura,
Olho, mas não vejo bem.


Há um campo lamacento
Onde se dá bem o gado;
Mas, no ar mais elevado,
Na altura do pensamento,
Paira um certo pó cinzento,
Um pó que se chama Crítica.
A Ideia fica raquítica
Só de sempre o respirar.
Por isso é tão mau o ar
Neste campo da Política.

Às vezes, nesta planura,
Só o vento sopra do Norte,
O pó torna-se mais forte,
E chama-se então Censura.
É um pó de mais grossura,
Sente-se já muito bem,
E a Ideia, batida, tem
Uma impressão de pancada,
Como a que dão numa esquadra
Onde a Guarda nos mantém.

O pó parece que chove,
Paira em todos os sentidos,
Enche bocas e ouvidos,
Já ninguém fala nem ouve.
Se a minha boca se move,
Logo à primeira abertura
A enche esta areia escura.
Só trago e me oiço tragar.
É uma conversa a calar.
Falo, responde a Censura.

Vem então qualquer vizinho,
Dos que podem abrir boca;
No braço, irado, me toca,
E diz, «Não vê o caminho?
O seu dever comezinho
De patriota aí tem.
Vê o caminho e não vem?!»
Para isso, boas aos molhos!
Se este pó me entrou pròs olhos,
Olho, mas não vejo bem.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 470–471)

15 dezembro 2012

221 anos da aprovação da “Bill of Rights” (Carta dos Direitos), conjunto das 10 primeiras Emendas à Constituição dos Estados Unidos (1791)

Por liberalismo legitimamente se entende aquele critério das relações sociais pelo qual cada homem é considerado como livre para pensar o que quiser e para o exprimir como quiser ou pôr em acção como entender, com o único limite de que essa acção não tolha directamente os iguais direitos dos outros à mesma liberdade.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 118, p. 363)

25 abril 2012

Dia da Liberdade

Fernando Pessoa com asas
Graffiti de Charquipunk

07 novembro 2011

94 anos da Revolução Bolchevique (1917)*

Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)


* 25 de Outubro, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.

23 setembro 2011

72 anos da morte de Sigmund Freud (1939)

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

(Álvaro de Campos, Poesia, 139, p. 425)

17 setembro 2011

72 anos da anexação soviética do leste da Polónia (1939)

Caiam cidades, sofram povos, cesse
A liberdade e a vida,

(Ricardo Reis, “Os jogadores de xadrez”, Poesia, II, 31, p. 62)

31 maio 2011

109 anos do fim da Segunda Guerra Boer (1902)

Ill scorn beseems us, men of war and trick,
Whose groaning nation poured her fullest might
To take the freedom of a farmer race.


(Alexander Search, “To England, II”, Poesia, 24, p. 54; em inglês no original)


[ O desdém fica-nos mal, homens da guerra e do embuste,
Cuja queixosa nação pôs todo o seu poder
Para tirar a liberdade de uma raça de agricultores. ]


(“À Inglaterra, II”; tradução nossa)

25 abril 2011

Dia da Liberdade

[...] O amor cobarde que todos temos à liberdade — que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a — é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 167, p. 180)

06 janeiro 2011

82 anos da chegada de Madre Teresa a Calcutá (1929)

Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade»...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...

(Álvaro de Campos, Poesia, 211, p. 531)



— É curioso, não é?... E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa! Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.

(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, pp. 41–42)

24 novembro 2010

378 anos do nascimento de Baruch Espinosa (1632)

Spinoza. Here at last the genius appears, true genius, having that which Descartes had not, the fearlessness and the lack of respect for the established. Honours to the master-thinker who, prosecuted, hated, accurst, stood by truth, lived for truth, suffered for (the sake of) truth!

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. II, p. 203; em inglês no original)


[ Espinosa. Aqui finalmente surge o génio, verdadeiro génio, tendo aquilo que Descartes não tinha, a temeridade e a falta de respeito pelo estabelecido. Honras ao mestre-pensador que, perseguido, odiado, maldito, manteve-se com a verdade, viveu para a verdade, sofreu em prol da verdade! ]

05 novembro 2010

13 anos da morte de Isaiah Berlin (1997)

[...] Meu filho: tenho visto muita coisa neste mundo, mas não vi ainda a liberdade.

(Fernando Pessoa, “5 Diálogos sobre a Tirania”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 72, p. 329)

14 setembro 2010

143 anos da publicação do volume I de O Capital, de Karl Marx (1867)

A liberdade individual não pode existir senão depois de conquistada a liberdade social, e, principalmente, a económica. [...]
Ora a liberdade económica existe pela existência do capital. É impossível universalmente; e o socialismo, em vez de ser uma libertação económica, é uma ausência completa de liberdade. O socialismo torna extensivo a toda a gente o servismo da maioria. Não são os escravos que querem libertar-se: são os escravos que querem escravizar tudo. Se eu sou corcunda, sejam todos corcundas.

(Fernando Pessoa, “Diálogos sobre a Tirania”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 77, p. 333)

27 agosto 2010

Liberdade e solidão

A liberdade é a possibilidade do isolamento. [...] Se te é impossível viver só, nasceste escravo.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 283, pp. 272–273)

13 maio 2010

93 anos da primeira “aparição” de Fátima (1917)

Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes... eu bebia aguardente.

Um momento... Não é nada disso... Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento, e é com o pensamento que desejo escrever.

Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa. Nesse lugar — em um ou no outro — ou perto de qualquer deles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda a gente sabe, um dos privilégios infinitos a que se não parte a corda. Assim diz a voz do povo da província e A Voz sem povo de Lisboa. Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e A Voz da cidade de há muito substituíram aquelas velharias democráticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado. Depois de terem passado os últimos rastros do a que o sr. Léon Daudet chamou «o estúpido século dezanove» — embora seu pai houvesse florescido e o mesmo Léon nascido em plena estupidez —, as normas do pensamento e da verificação voltaram à sua normalidade medieval; e assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara — e no estúpido etc! — a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século ante-estúpido (o dezoito), dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.

Seja como for, o facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços mais em conta; há peregrinações que dispensam o comboio (criação do estúpido etc!), e quando, de vez em quando essa reminiscência da Idade Média — a camionete — se volta e alguém morre, há sempre o Diabo a quem acusar — diabolis ex machina —, quando se não queira, por um critério mais objectivo e científico (vide Alfredo Pimenta) reconhecer verdadeiros culpados a magos e bruxos que, como toda a gente sabe, formam o grosso da Maçonaria e da Associação do Registo Civil.

O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto êxtase místico da parte de hotéis, estalagens e outro comércio desses jeitos — o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo — não vão eles lembrar-se de o seguir! Com efeito diz-se no Evangelho [de Mateus 6:31–33], cuidando-se de bens materiais, «Buscai-vos o Reino de Deus e todas essas coisas vos serão acrescentadas».

É certo que quem vai a Fátima não vai lá buscar o Reino de Deus, mas o da Nossa Senhora da região — aquela em que está aberto vinho novo. Deus, como se sabe, foi já substituído, sendo o Céu agora governado em regime soviético. Nossa Senhora — a de Lourdes e (ou) a de Fátima — é (place aux femmes!) Comissária do Povo da Saúde Pública. Daí as curas na policlínica da Cova da Iria.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, pp. 274–277)

21 fevereiro 2010

162 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.

O comunismo não é uma doutrina porque é uma anti-doutrina, ou uma contra-doutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 50, pp. 141–142)

30 janeiro 2010

Educação: «competências», não «competência»

[...] assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)

17 janeiro 2010

17 Jan 1945: O Exército Vermelho “liberta” Varsóvia do domínio Nazi

E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...

(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)

05 dezembro 2009

513 anos do decreto de expulsão dos “hereges” de Portugal (1496)

Que abjecção esta regularidade!

(Álvaro de Campos, “Dactilografia”, Poesia, 181, p. 485)

24 novembro 2009

Dia Nacional da Cultura Científica*

Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo! Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta!

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)



* Nascimento de Rómulo de Carvalho (1906).

07 novembro 2009

92 anos da Revolução Bolchevique

Visando a liberdade, a libertação dos operários e dos fracos, o bolchevismo oprimiu outros fracos e não aos que disse servir desoprimiu.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)