13 abril 2009

Crise do sistema financeiro, Ano I (take 2)

Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)


Stencil de Jef Aerosol
Foto de Sofia (blogue Dias Assim)

12 abril 2009

Páscoa

Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.



Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.

(Ricardo Reis, Poesia, Anexo B, 37a & 37b, pp. 178–180)

11 abril 2009

Iconografia pessoana

Caricatura de Toni D'Agostinho

Sr.ª Ministra

Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!

(Fernando Pessoa, “Juliano em Antioquia”, Poesia (1918–1930), p. 35)

Construção selvagem

Deixem ver o Portugal que não deixam ver!

(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)

09 abril 2009

91 anos da Batalha de La Lys (1918)

O MENINO DA SUA MÃE


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)


Caricatura de João Abel Manta (1974)

08 abril 2009

Testemunhas de Jeová à porta

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.

(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 299)

07 abril 2009

110 anos do ingresso de Fernando Pessoa na Durban High School (1899)

Fernando Pessoa vestido de cavaleiro
Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, em Durban


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 42)

05 abril 2009

Professor Marcelo

Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,

(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas”, Poesia, 26a, p. 191)

01 abril 2009

Dia das Mentiras

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

“Eduquês”

Preciso de verdade e de aspirina.

(Álvaro de Campos, Poesia, 147, p. 439)

Teólogos e Ideólogos

Se têm a verdade, guardem-na!

(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1923), Poesia, 47, p. 271)

31 março 2009

Crise do sistema financeiro, Ano I

Sinto uma súbita falta de corrimões

(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6a, p. 68)

25 março 2009

Iconografia pessoana

Pintura de João Luiz Roth

21 março 2009

Dia Mundial da Poesia... e do Sono

A FERNANDO PESSOA


DEPOIS DE LER O SEU DRAMA ESTÁTICO
«O MARINHEIRO» EM «ORPHEU I»

Depois de doze minutos
Do seu drama O Marinheiro,
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos nós falando ainda?

Ora isso mesmo é que eu ia
Perguntar a essas senhoras...

(Álvaro de Campos, Poesia, 19, p. 143)

12 março 2009

4 anos de “Governo Sócrates”

O governo assenta em duas coisas: refrear e enganar.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 161, p. 176)

10 março 2009

Iconografia pessoana

José de Guimarães
série Pessoas em papel

08 março 2009

Dia Internacional da Mulher

E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.

(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 459)

07 março 2009

E Pessoa não viveu para conhecer a televisão...

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
de beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 22, p. 146)

04 março 2009

Dia Mundial da Matemática

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

(Álvaro de Campos, Poesia, 243, p. 587)