Caricatura de J. Bosco
19 abril 2009
18 abril 2009
Ainda (infelizmente) o “eduquês”
Como todas as coisas com ar de certas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado.
(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 372, p. 415)
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Os problemas da Educação (entre outros) também passam por aqui...
Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem alteração nem crítica, são ou velhas ou superficiais.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)
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Povo
O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)
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16 abril 2009
120 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)
À LA MANIÈRE DE A. CAEIRO
A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.
Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 47, p. 79;
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)
Nota: Este poema foi publicado duas vezes na colecção Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim, com diferente atribuição de autoria. Ao contrário de vários outros exemplos, onde a divergência na atribuição é assumida pelos especialistas na obra de Fernando Pessoa, neste caso as notas são omissas, pelo que cremos que a repetição não foi detectada pelas organizadoras. De facto, na nota que acompanha a publicação (em 2005) deste poema no segundo volume da poesia de Pessoa ortónimo há a indicação de «Inédito», quando o volume da poesia de Ricardo Reis, onde ele também aparece, é de 2000 — situação duplamente estranha, tendo em consideração que a responsável pela edição deste último (Manuela Parreira da Silva) foi também corresponsável pela edição da poesia ortónima. Como “atenuante”, claro, e que certamente explica muito, há a vastidão da obra e o caos do espólio do poeta.
15 abril 2009
97 anos do naufrágio do Titanic (1912)
It's a nice and glorious thing to have been at a shipwreck or at a battle; the worst is that you must be there to have been there.
[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]
* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG
[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]
(Dr. Gaudêncio Nabos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 127, p. 172; em inglês no original)*
* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG
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13 abril 2009
Violência: mediação televisiva
Nada nos faça dor,
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 359)
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Crise do sistema financeiro, Ano I (take 2)
Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
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12 abril 2009
Páscoa
Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.
No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.
Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,
E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.
No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.
Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,
E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
(Ricardo Reis, Poesia, Anexo B, 37a & 37b, pp. 178–180)
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11 abril 2009
Sr.ª Ministra
Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!
(Fernando Pessoa, “Juliano em Antioquia”, Poesia (1918–1930), p. 35)
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Construção selvagem
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)
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09 abril 2009
91 anos da Batalha de La Lys (1918)
O MENINO DA SUA MÃE
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)

Caricatura de João Abel Manta (1974)
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08 abril 2009
Testemunhas de Jeová à porta
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.
(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 299)
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07 abril 2009
110 anos do ingresso de Fernando Pessoa na Durban High School (1899)
Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, em Durban
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 42)
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05 abril 2009
Professor Marcelo
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas”, Poesia, 26a, p. 191)
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Comentadores,
Fingimento,
Heterónimos e afins,
Televisão
01 abril 2009
“Eduquês”
Preciso de verdade e de aspirina.
(Álvaro de Campos, Poesia, 147, p. 439)
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Verdade
Teólogos e Ideólogos
Se têm a verdade, guardem-na!
(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1923), Poesia, 47, p. 271)
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