31 maio 2009

Dia Mundial sem Tabaco

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Álvaro de Campos, Poesia, 75, p. 326)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 maio 2009

83 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926

Se a República Portuguesa falhou, não é como República, é como portuguesa.

(Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, p. 299)

24 maio 2009

672 anos do início da Guerra dos Cem Anos (1337)

Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23c, pp. 152–153)

22 maio 2009

196 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)

É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23a, p. 147)

20 maio 2009

511 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia (1498)

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 63)


(autor nosso desconhecido; agradecemos qualquer informação)

Dia da Marinha

MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

19 maio 2009

Dia Mundial da Hepatite

o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 258, p. 254)

18 maio 2009

Dia Internacional dos Museus

Atribuo a este estado de alma a minha repugnância pelos museus. O museu, para mim, é a vida inteira, em que a pintura é sempre exacta, e só pode haver inexactidão na imperfeição do contemplador.

(Bernardo Soares, “O Amante Visual”, Livro do Desassossego, p. 466)

17 maio 2009

Dia Internacional contra a Homofobia

Bolas para a gente ter que aturar isto! [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

(Álvaro de Campos, “Aviso por Causa da Moral”, Crítica, p. 200)

16 maio 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Fábio

15 maio 2009

Dia Internacional do Objector de Consciência

A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 160, p. 174)

13 maio 2009

Fátima, Futebol e Fado

Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 45, p.267)

Fé e virtudes dos reaccionários portugueses

Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 201–202)

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa por Júlio Pomar
Pintura de Júlio Pomar (1985)

12 maio 2009

Dia Internacional dos Enfermeiros

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

(Fernando Pessoa, Quadras, I, 159, p. 50)

10 maio 2009

Egocentrismo

Há qualquer coisa de vil, de degradante, nesta transposição das nossas mágoas para o universo inteiro;

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 31)

Astrologia

[...] o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros,

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 56)



Carta astral de Fernando Pessoa, feita pelo próprio

08 maio 2009

O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC, “Novas Oportunidades”) explicado às criancinhas

[...] conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 320)

06 maio 2009

Saiu hoje: relatório da Aliança Europeia de Segurança Infantil

Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar

Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.

Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)

O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.

(Álvaro de Campos, Poesia, 114, pp. 385–387)

Iconografia pessoana

Caricatura de Vasco Gargalo

Acordo Ortográfico (I)

O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.

No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.

(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 119, p. 248)

Acordo Ortográfico (II)

Depois de trabalho vário
Ando triste como vê.
Não entendo o dicionário,
Não conheço o abecedário,
Caturra! O que fez você!

[...]

Escreve lá à tua moda
Na minha eu hei-de ficar;
Não m’importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!

(Dr. Pancrácio, “Falar e Escrever”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 110, pp. 152–153)

04 maio 2009

Dia Internacional dos Bombeiros

Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 342)


Arte digital de Celito Medeiros

03 maio 2009

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Sucede, porém, uma coisa — sucedeu há cinco minutos — que me confirma em uma decisão que estava incerta, e que me inibe de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro.
Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer aquilo ou isto». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 168, p. 358)

02 maio 2009

41 anos do Maio de 68

Toda a revolução é essencialmente inútil. [...] Uma revolução pode pois definir-se «um modo violento de deixar tudo na mesma».

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 45, pp. 71–72)

É mais fácil assim...

First be free; then ask for freedom.

[ Primeiro sê livre; depois pede a liberdade. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 59; em inglês no original)

01 maio 2009

Dia do Trabalhador

Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 36)

Iconografia pessoana

Cartoon de Rui Pimentel (1997)

30 abril 2009

64 anos da morte de Adolf Hitler (1945)

E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.

(Álvaro de Campos, Poesia, 119, p. 394)

28 abril 2009

120 anos do nascimento de Salazar (1889)

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 379–380)

Dia Mundial da Segurança no Trabalho

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 86)

27 abril 2009

Mal sabes tu o que o dia de amanhã te reserva...

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24a, p. 164)

25 abril 2009

25 Abr 1974: Dia da Liberdade

Tardava o dia como a felicidade e àquela hora parecia que também indefinidamente.

(Bernardo Soares, “Paisagem de Chuva”, Livro do Desassossego, 240, p. 237)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

24 abril 2009

Movimento das Forças Armadas, 24 de Abril de 1974

Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.

(Fernando Pessoa, “Presságio”, Poesia (1918–1930), p. 264)

23 abril 2009

Dia Internacional do Livro

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
[...]

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


Estátua na Praça do Teatro Nacional de São Carlos
Foto de André Garrido (blogue Dia a Dia por Fotografia)

“Literatura” light

Nunca faz mal o que escrevas
Desde que não escrevas nada

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 363)

22 abril 2009

Dia da Terra

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXI”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 71)

Gaia

Só a Natureza é divina, e ela não é divina...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXVII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 77)

Iconografia pessoana

Caricatura de Rodríguez Castañé (21 Set 1912)

21 abril 2009

Entrevista de José Sócrates à RTP

Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 275, p. 267)

20 abril 2009

120 anos do nascimento de Adolf Hitler (1889)

Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 237, p. 235)

19 abril 2009

Iconografia pessoana

Caricatura de J. Bosco

18 abril 2009

Ainda (infelizmente) o “eduquês”

Como todas as coisas com ar de certas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado.

(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 372, p. 415)

Os problemas da Educação (entre outros) também passam por aqui...

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem alteração nem crítica, são ou velhas ou superficiais.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)

Povo

O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

16 abril 2009

Iconografia pessoana

«Fernando Pessoa, telhados de Lisboa»
Pintura de João Beja

120 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)

À LA MANIÈRE DE A. CAEIRO


A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 47, p. 79;
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)


Nota: Este poema foi publicado duas vezes na colecção Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim, com diferente atribuição de autoria. Ao contrário de vários outros exemplos, onde a divergência na atribuição é assumida pelos especialistas na obra de Fernando Pessoa, neste caso as notas são omissas, pelo que cremos que a repetição não foi detectada pelas organizadoras. De facto, na nota que acompanha a publicação (em 2005) deste poema no segundo volume da poesia de Pessoa ortónimo há a indicação de «Inédito», quando o volume da poesia de Ricardo Reis, onde ele também aparece, é de 2000 — situação duplamente estranha, tendo em consideração que a responsável pela edição deste último (Manuela Parreira da Silva) foi também corresponsável pela edição da poesia ortónima. Como “atenuante”, claro, e que certamente explica muito, há a vastidão da obra e o caos do espólio do poeta.

15 abril 2009

97 anos do naufrágio do Titanic (1912)

It's a nice and glorious thing to have been at a shipwreck or at a battle; the worst is that you must be there to have been there.

[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]

(Dr. Gaudêncio Nabos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 127, p. 172; em inglês no original)*



* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG

13 abril 2009

Violência: mediação televisiva

Nada nos faça dor,
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 359)

Crise do sistema financeiro, Ano I (take 2)

Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)


Stencil de Jef Aerosol
Foto de Sofia (blogue Dias Assim)

12 abril 2009

Páscoa

Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.



Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.

(Ricardo Reis, Poesia, Anexo B, 37a & 37b, pp. 178–180)

11 abril 2009

Iconografia pessoana

Caricatura de Toni D'Agostinho

Sr.ª Ministra

Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!

(Fernando Pessoa, “Juliano em Antioquia”, Poesia (1918–1930), p. 35)

Construção selvagem

Deixem ver o Portugal que não deixam ver!

(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)

09 abril 2009

91 anos da Batalha de La Lys (1918)

O MENINO DA SUA MÃE


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)


Caricatura de João Abel Manta (1974)

08 abril 2009

Testemunhas de Jeová à porta

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.

(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 299)

07 abril 2009

110 anos do ingresso de Fernando Pessoa na Durban High School (1899)

Fernando Pessoa vestido de cavaleiro
Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, em Durban


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 42)

05 abril 2009

Professor Marcelo

Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,

(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas”, Poesia, 26a, p. 191)

01 abril 2009

Dia das Mentiras

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

“Eduquês”

Preciso de verdade e de aspirina.

(Álvaro de Campos, Poesia, 147, p. 439)

Teólogos e Ideólogos

Se têm a verdade, guardem-na!

(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1923), Poesia, 47, p. 271)

31 março 2009

Crise do sistema financeiro, Ano I

Sinto uma súbita falta de corrimões

(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6a, p. 68)

25 março 2009

Iconografia pessoana

Pintura de João Luiz Roth

21 março 2009

Dia Mundial da Poesia... e do Sono

A FERNANDO PESSOA


DEPOIS DE LER O SEU DRAMA ESTÁTICO
«O MARINHEIRO» EM «ORPHEU I»

Depois de doze minutos
Do seu drama O Marinheiro,
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:

De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos nós falando ainda?

Ora isso mesmo é que eu ia
Perguntar a essas senhoras...

(Álvaro de Campos, Poesia, 19, p. 143)

12 março 2009

4 anos de “Governo Sócrates”

O governo assenta em duas coisas: refrear e enganar.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 161, p. 176)

10 março 2009

Iconografia pessoana

José de Guimarães
série Pessoas em papel

08 março 2009

Dia Internacional da Mulher

E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.

(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 459)

07 março 2009

E Pessoa não viveu para conhecer a televisão...

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
de beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 22, p. 146)

04 março 2009

Dia Mundial da Matemática

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

(Álvaro de Campos, Poesia, 243, p. 587)

24 fevereiro 2009

Carnaval

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

Político reformado

Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 324)

21 fevereiro 2009

161 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 127, p. 149)

20 fevereiro 2009

16 anos de TVI (1993)

Há martírios mais subtis que aqueles que se registam dos santos e dos eremitas.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 128, p. 149)

18 fevereiro 2009

Iconografia pessoana

«El guardador de rebaños»*
Pintura de Juan Soler


* (Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 41–100)

17 fevereiro 2009

Ser professor(a), hoje

Não tirei bilhete para [esta] vida,

(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 427)

Ciências da Educação e Política Educativa

E romantismo, sim, mas devagar...

(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 297)

14 fevereiro 2009

Dia de “São” Valentim

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

(Álvaro de Campos, Poesia, 225, p. 550)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)


Não o amor, mas os arredores é que vale a pena...

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 271, p. 265)

27 janeiro 2009

Pessoa, sempre!

A ideia deste blogue nasceu no Dia Mundial do Teatro de 2009, enquanto à nossa frente Vítor Norte e João Lagarto faziam o seu “Recital”: Pessoa e heterónimos surgiam amiúde; por acaso ou talvez não, uma boa parte dessas mesmas leituras tínhamo-las partilhado nas semanas anteriores. Comentámos então a evidência já notada por outros (e por nós, ainda que até aí sem frutos): o “Universo Pessoa” é tão vasto, que seria possível citá-lo a propósito de quase tudo. Não demorou muito a que surgisse uma expressão — «Pessoa para todas as ocasiões» — e uma ideia: fazer um blogue exclusivamente com citações da obra de Fernando Pessoa, escolhidas a propósito de acontecimentos, efemérides, evocações, associações de ideias, estados de espírito... Quatro dias depois surgia o esqueleto deste blogue, com a publicação dos primeiros posts de teste.

Por esta altura os mais atentos estarão a pensar: Espera aí, mas o Dia Mundial do Teatro é a 27 de Março, e este texto está datado de 27 de Janeiro! — e têm toda a razão: este blogue começou de facto na véspera do Dia das Mentiras e, talvez em forma de antecipação, a sua cronologia é falsa. É certamente falsa até esse dia, e sê-lo-á seguramente mais vezes depois disso. Tudo em nome da evocação mais significativa, quando esta for possível — e esta nem sempre nos ocorre em tempo útil. Pedimos, por isso, que nos desculpem o pecadilho: mestre do fingimento, Fernando Pessoa seria o primeiro a compreender os nossos motivos e a assinar por baixo. (Quem nunca forjou uma cronologia que atire a primeira pedra...)

Tentaremos ser o mais rigorosos possível nas citações que fizermos e nas referências bibliográficas. (Em geral recorreremos à colecção Obras de Fernando Pessoa publicada pela Assírio & Alvim; nos casos em que nos basearmos em edições críticas ou facsimiladas, actualizaremos a grafia.) A procura do rigor e da “rastreabilidade” não nos coibirá, no entanto, de citar Pessoa a pretexto de situações que nada tenham a ver com a ideia original do autor; uma vez (ou muitas) por outra iremos mesmo ao ponto de suprimir a palavra incómoda ou acrescentar aquele petit rien que desbrave o caminho até aos nossos intentos.

Em contexto ou fora dele — Pessoa, sempre!


Maria Filomena + Fernando Gouveia
(Dia Internacional de Recordação do Holocausto) + 72