(Fernando Pessoa, “O Conde D. Henrique”, Mensagem, Primeira Parte, II, Terceiro, p. 87)
28 junho 2009
95 anos do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (1914)
Todo começo é involuntário.
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26 junho 2009
Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura
We torture our brother men with hate, spite, evil, and then say “the world is bad”.
[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]
[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 20; em inglês no original)
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Tortura
25 junho 2009
Irmã Lúcia, 25 de Junho de 2000
Tenho um segredo que nem eu própri[a] conheço...
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 350)
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24 junho 2009
Dia de “São” João
No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
(Fernando Pessoa, Quadras, II, 200, p. 104)
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22 junho 2009
68 anos do início da Operação Barbarossa (1941)
[...] onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual.
(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 83, pp. 195–196)
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21 junho 2009
20 junho 2009
Dia Mundial do Refugiado
Como que nu me sinto e exilado
Entre coisas estranhas, [...]
Entre coisas estranhas, [...]
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, Quadro X, p. 84)
19 junho 2009
386 anos do nascimento de Blaise Pascal (1623)
Pascal era um teólogo em verso, que escreveu em prosa.
(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)
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Religião
18 junho 2009
194 anos da Batalha de Waterloo (1815)
Napoleão disse que não conhecia a palavra impossível, mas deve tê-la encontrado em Moscovo e Waterloo, se a não tinha visto antes.
(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 272)
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16 junho 2009
Iconografia pessoana
Painel de azulejos no “Martinho da Arcada”
(fotografia: Emma’s House in Portugal)
(fotografia: Emma’s House in Portugal)
15 junho 2009
311 DC: Licínio ordena o fim da perseguição aos cristãos no Império Romano do Oriente
Sabe-se hoje que grande parte das perseguições feitas aos cristãos [...] são puramente míticas, sendo das variadíssimas invenções dos propagandistas primitivos do Cristianismo.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 49, pp. 260–261)
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13 junho 2009
121 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(Álvaro de Campos, “Aniversário”, Poesia, 126, p. 403)
Heteronímia
Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 47)
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Iconografia pessoana

Fernando Pessoa, com poucas semanas de idade, ao colo da mãe.
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 26)
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Mãe/Pai
Pessoa: grande demais para o país onde viveu
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 322)
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Portugal
12 junho 2009
24 anos do Tratado de Adesão de Portugal à CEE (1985)
Temos vivido por empréstimo a vida europeia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos.
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 178, p. 311)
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História de Portugal,
Portugal
11 junho 2009
Iconografia pessoana
«Ilustração sobre Tabacaria»
de Nádia
de Nádia
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Iconografia
10 junho 2009
Dia de Portugal...
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)
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... de Camões...
Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. [...] A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.
(Fernando Pessoa, Crítica, p. 216)
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... e das Comunidades Portuguesas
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
(Álvaro de Campos, “Os Emigrados”, Poesia, 35, p. 256)
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08 junho 2009
Dia Mundial dos Oceanos
Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 112–113)
06 junho 2009
65 anos do início do Desembarque na Normandia (Dia D, Operação Overlord)
Tudo é incerto e derradeiro.
[...]
É a Hora!
Valete, Fratres.
[...]
É a Hora!
Valete, Fratres.
(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)
04 junho 2009
20 anos do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen (1989)
Sê lanterna, dá luz com vidro à roda.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 103, pp. 113–114)
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01 junho 2009
Dia Internacional da Criança
Pintura de João Luiz Roth
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)
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31 maio 2009
Dia Mundial sem Tabaco
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Álvaro de Campos, Poesia, 75, p. 326)
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28 maio 2009
83 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926
Se a República Portuguesa falhou, não é como República, é como portuguesa.
(Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, p. 299)
24 maio 2009
672 anos do início da Guerra dos Cem Anos (1337)
Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23c, pp. 152–153)
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22 maio 2009
196 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)
É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23a, p. 147)
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20 maio 2009
511 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia (1498)
Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.

Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.
(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 63)

(autor nosso desconhecido; agradecemos qualquer informação)
Dia da Marinha
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
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19 maio 2009
Dia Mundial da Hepatite
o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 258, p. 254)
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18 maio 2009
Dia Internacional dos Museus
Atribuo a este estado de alma a minha repugnância pelos museus. O museu, para mim, é a vida inteira, em que a pintura é sempre exacta, e só pode haver inexactidão na imperfeição do contemplador.
(Bernardo Soares, “O Amante Visual”, Livro do Desassossego, p. 466)
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17 maio 2009
Dia Internacional contra a Homofobia
Bolas para a gente ter que aturar isto! [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.
(Álvaro de Campos, “Aviso por Causa da Moral”, Crítica, p. 200)
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16 maio 2009
15 maio 2009
Dia Internacional do Objector de Consciência
A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 160, p. 174)
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13 maio 2009
Fátima, Futebol e Fado
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
(Álvaro de Campos, Poesia, 45, p.267)
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Fé e virtudes dos reaccionários portugueses
Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 201–202)
12 maio 2009
Dia Internacional dos Enfermeiros
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
(Fernando Pessoa, Quadras, I, 159, p. 50)
10 maio 2009
Egocentrismo
Há qualquer coisa de vil, de degradante, nesta transposição das nossas mágoas para o universo inteiro;
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 31)
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Tristeza
Astrologia
[...] o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros,
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 56)
Carta astral de Fernando Pessoa, feita pelo próprio
08 maio 2009
O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC, “Novas Oportunidades”) explicado às criancinhas
[...] conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 320)
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06 maio 2009
Saiu hoje: relatório da Aliança Europeia de Segurança Infantil
Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
(Álvaro de Campos, Poesia, 114, pp. 385–387)
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Morte
Acordo Ortográfico (I)
O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.
(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 119, p. 248)
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Política
Acordo Ortográfico (II)
Depois de trabalho vário
Ando triste como vê.
Não entendo o dicionário,
Não conheço o abecedário,
Caturra! O que fez você!
[...]
Escreve lá à tua moda
Na minha eu hei-de ficar;
Não m’importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!
Ando triste como vê.
Não entendo o dicionário,
Não conheço o abecedário,
Caturra! O que fez você!
[...]
Escreve lá à tua moda
Na minha eu hei-de ficar;
Não m’importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!
(Dr. Pancrácio, “Falar e Escrever”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 110, pp. 152–153)
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Língua Portuguesa
04 maio 2009
Dia Internacional dos Bombeiros
Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.

Mas o incêndio não é preciso.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 342)

Arte digital de Celito Medeiros
03 maio 2009
Dia Mundial da Liberdade de Imprensa
Sucede, porém, uma coisa — sucedeu há cinco minutos — que me confirma em uma decisão que estava incerta, e que me inibe de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro.
Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer aquilo ou isto». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie.
Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer aquilo ou isto». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie.
(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 168, p. 358)
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União Soviética
02 maio 2009
41 anos do Maio de 68
Toda a revolução é essencialmente inútil. [...] Uma revolução pode pois definir-se «um modo violento de deixar tudo na mesma».
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 45, pp. 71–72)
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É mais fácil assim...
First be free; then ask for freedom.
[ Primeiro sê livre; depois pede a liberdade. ]
[ Primeiro sê livre; depois pede a liberdade. ]
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 59; em inglês no original)
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Revolução/Revolta
01 maio 2009
Dia do Trabalhador
Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 36)
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30 abril 2009
64 anos da morte de Adolf Hitler (1945)
E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.
(Álvaro de Campos, Poesia, 119, p. 394)
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28 abril 2009
120 anos do nascimento de Salazar (1889)
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 379–380)
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Dia Mundial da Segurança no Trabalho
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 86)
27 abril 2009
Mal sabes tu o que o dia de amanhã te reserva...
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24a, p. 164)
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25 abril 2009
25 Abr 1974: Dia da Liberdade
Tardava o dia como a felicidade e àquela hora parecia que também indefinidamente.
(Bernardo Soares, “Paisagem de Chuva”, Livro do Desassossego, 240, p. 237)
24 abril 2009
Movimento das Forças Armadas, 24 de Abril de 1974
Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.
Na véspera do fim.
(Fernando Pessoa, “Presságio”, Poesia (1918–1930), p. 264)
23 abril 2009
Dia Internacional do Livro
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
[...]
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
+andregarrido.com.jpg)
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
[...]
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)
+andregarrido.com.jpg)
Estátua na Praça do Teatro Nacional de São Carlos
Foto de André Garrido (blogue Dia a Dia por Fotografia)
Foto de André Garrido (blogue Dia a Dia por Fotografia)
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“Literatura” light
Nunca faz mal o que escrevas
Desde que não escrevas nada
Desde que não escrevas nada
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 363)
22 abril 2009
Dia da Terra
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXI”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 71)
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 71)
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Gaia
Só a Natureza é divina, e ela não é divina...
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXVII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 77)
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 77)
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21 abril 2009
Entrevista de José Sócrates à RTP
Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 275, p. 267)
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Política
20 abril 2009
120 anos do nascimento de Adolf Hitler (1889)
Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 237, p. 235)
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19 abril 2009
18 abril 2009
Ainda (infelizmente) o “eduquês”
Como todas as coisas com ar de certas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado.
(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 372, p. 415)
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Os problemas da Educação (entre outros) também passam por aqui...
Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem alteração nem crítica, são ou velhas ou superficiais.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)
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Povo
O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)
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16 abril 2009
120 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)
À LA MANIÈRE DE A. CAEIRO
A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.
Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 47, p. 79;
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)
Nota: Este poema foi publicado duas vezes na colecção Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim, com diferente atribuição de autoria. Ao contrário de vários outros exemplos, onde a divergência na atribuição é assumida pelos especialistas na obra de Fernando Pessoa, neste caso as notas são omissas, pelo que cremos que a repetição não foi detectada pelas organizadoras. De facto, na nota que acompanha a publicação (em 2005) deste poema no segundo volume da poesia de Pessoa ortónimo há a indicação de «Inédito», quando o volume da poesia de Ricardo Reis, onde ele também aparece, é de 2000 — situação duplamente estranha, tendo em consideração que a responsável pela edição deste último (Manuela Parreira da Silva) foi também corresponsável pela edição da poesia ortónima. Como “atenuante”, claro, e que certamente explica muito, há a vastidão da obra e o caos do espólio do poeta.
15 abril 2009
97 anos do naufrágio do Titanic (1912)
It's a nice and glorious thing to have been at a shipwreck or at a battle; the worst is that you must be there to have been there.
[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]
* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG
[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]
(Dr. Gaudêncio Nabos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 127, p. 172; em inglês no original)*
* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG
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Guerra,
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Tragédia
13 abril 2009
Violência: mediação televisiva
Nada nos faça dor,
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 359)
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Televisão
Crise do sistema financeiro, Ano I (take 2)
Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
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Economia/Finanças,
Heterónimos e afins,
Iconografia
12 abril 2009
Páscoa
Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.
No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.
Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,
E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.
No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.
Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.
Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,
E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.
Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.
Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.
Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.
Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.
A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.
Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.
Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.
(Ricardo Reis, Poesia, Anexo B, 37a & 37b, pp. 178–180)
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11 abril 2009
Sr.ª Ministra
Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!
(Fernando Pessoa, “Juliano em Antioquia”, Poesia (1918–1930), p. 35)
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Construção selvagem
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)
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09 abril 2009
91 anos da Batalha de La Lys (1918)
O MENINO DA SUA MÃE
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)

Caricatura de João Abel Manta (1974)
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08 abril 2009
Testemunhas de Jeová à porta
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.
(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 299)
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07 abril 2009
110 anos do ingresso de Fernando Pessoa na Durban High School (1899)
Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, em Durban
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 42)
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05 abril 2009
Professor Marcelo
Ter todas as opiniões,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,
(Álvaro de Campos, “A Passagem das Horas”, Poesia, 26a, p. 191)
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01 abril 2009
“Eduquês”
Preciso de verdade e de aspirina.
(Álvaro de Campos, Poesia, 147, p. 439)
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Teólogos e Ideólogos
Se têm a verdade, guardem-na!
(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1923), Poesia, 47, p. 271)
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31 março 2009
Crise do sistema financeiro, Ano I
Sinto uma súbita falta de corrimões
(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6a, p. 68)
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25 março 2009
21 março 2009
Dia Mundial da Poesia... e do Sono
A FERNANDO PESSOA
DEPOIS DE LER O SEU DRAMA ESTÁTICO
«O MARINHEIRO» EM «ORPHEU I»
«O MARINHEIRO» EM «ORPHEU I»
Depois de doze minutos
Do seu drama O Marinheiro,
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:
Do seu drama O Marinheiro,
Em que os mais ágeis e astutos
Se sentem com sono e brutos,
E de sentido nem cheiro,
Diz uma das veladoras
Com langorosa magia:
De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos nós falando ainda?
Ora isso mesmo é que eu ia
Perguntar a essas senhoras...
Perguntar a essas senhoras...
(Álvaro de Campos, Poesia, 19, p. 143)
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12 março 2009
4 anos de “Governo Sócrates”
O governo assenta em duas coisas: refrear e enganar.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 161, p. 176)
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10 março 2009
08 março 2009
Dia Internacional da Mulher
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.
(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 459)
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07 março 2009
E Pessoa não viveu para conhecer a televisão...
Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
de beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
de beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.
(Álvaro de Campos, Poesia, 22, p. 146)
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04 março 2009
Dia Mundial da Matemática
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
O que há é pouca gente para dar por isso.
(Álvaro de Campos, Poesia, 243, p. 587)
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24 fevereiro 2009
Político reformado
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Estava pegada à cara.
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 324)
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21 fevereiro 2009
161 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)
Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas!
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 127, p. 149)
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20 fevereiro 2009
16 anos de TVI (1993)
Há martírios mais subtis que aqueles que se registam dos santos e dos eremitas.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 128, p. 149)
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18 fevereiro 2009
Iconografia pessoana
«El guardador de rebaños»*
Pintura de Juan Soler
Pintura de Juan Soler
* (Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 41–100)
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