26 agosto 2009

(I)moralidade e intelecto

Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)

23 agosto 2009

Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários

Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!

Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.

(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)

19 agosto 2009

Iconografia pessoana

fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos
«Ode Marítima VI»
Fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos (1988)

Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)

18 agosto 2009

Atravessando a Mazóvia de comboio

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)

16 agosto 2009

Iconografia pessoana

«Acordar na cidade de Lisboa...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Álvaro de Campos, Poesia, 10, p. 97)

15 agosto 2009

Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*

Faz as malas para Parte Nenhuma!

(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)




* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)

14 agosto 2009

624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)

NUN’ÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)

10 agosto 2009

Opinion makers portugueses

É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)

06 agosto 2009

64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)

04 agosto 2009

431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)

03 agosto 2009

03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)

31 julho 2009

50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)

Vou atirar uma bomba ao destino.

(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)

30 julho 2009

Crítica literária

A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]

[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

Crítica literária “bulldozer”

Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.

[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

29 julho 2009

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 julho 2009

95 anos do início da I Guerra Mundial (1914)

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23b, pp. 148–149)

27 julho 2009

39 anos da morte de Salazar (1970)

Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)

24 julho 2009

Superioridade da Arte e da Ciência sobre a Política

GAZETILHA

Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

(Álvaro de Campos, Poesia, 77, p. 328)

22 julho 2009

Iconografia pessoana

«Alberto Caeiro»
Pintura de Lívio de Morais (1998)