29 agosto 2009

112 anos do Primeiro Congresso Sionista (1897)

[...] Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. [...]

(Ricardo Reis, Poesia, II, 127, p. 125)

27 agosto 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa aos 20 anos (1908)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 60)

26 agosto 2009

(I)moralidade e intelecto

Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)

23 agosto 2009

Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários

Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!

Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.

(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)

19 agosto 2009

Iconografia pessoana

fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos
«Ode Marítima VI»
Fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos (1988)

Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)

18 agosto 2009

Atravessando a Mazóvia de comboio

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)

16 agosto 2009

Iconografia pessoana

«Acordar na cidade de Lisboa...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Álvaro de Campos, Poesia, 10, p. 97)

15 agosto 2009

Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*

Faz as malas para Parte Nenhuma!

(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)




* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)

14 agosto 2009

624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)

NUN’ÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)

10 agosto 2009

Opinion makers portugueses

É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)

06 agosto 2009

64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)

04 agosto 2009

431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)

03 agosto 2009

03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)

31 julho 2009

50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)

Vou atirar uma bomba ao destino.

(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)

30 julho 2009

Crítica literária

A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]

[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

Crítica literária “bulldozer”

Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.

[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

29 julho 2009

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 julho 2009

95 anos do início da I Guerra Mundial (1914)

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23b, pp. 148–149)

27 julho 2009

39 anos da morte de Salazar (1970)

Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)

24 julho 2009

Superioridade da Arte e da Ciência sobre a Política

GAZETILHA

Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

(Álvaro de Campos, Poesia, 77, p. 328)

22 julho 2009

Iconografia pessoana

«Alberto Caeiro»
Pintura de Lívio de Morais (1998)

21 julho 2009

2364 anos da destruição do Templo de Ártemis em Éfeso (356 AC)

Contudo, é admissível pensar que existe uma espécie de grandeza em Heróstrato — uma grandeza que ele não partilha com arrivistas menores que irromperam na fama inopinadamente. Sendo grego, pode conceber-se que possuía a percepção refinada e o calmo delírio da beleza que ainda distinguem a memória do seu clã de gigantes. É, pois, concebível que tenha incendiado o templo de Diana num êxtase de dor, queimando parte de si mesmo na fúria da sua malvada façanha. Podemos legitimamente conceber que tivesse superado os apertos de um remorso futuro, e enfrentado um horror íntimo para alcançar uma fama duradoura.

(Fernando Pessoa, “Heróstrato ou o futuro da celebridade”,
Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 362; em inglês no original)

18 julho 2009

312 anos da morte de Padre António Vieira (1697)

Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro [...]

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

17 julho 2009

Dia Mundial para a Justiça Internacional

[...] A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, p. 91)

16 julho 2009

Iconografia pessoana

«O Poeta Fernando Pessoa e uma Janela»
Pintura de Costa Pinheiro (1985)

15 julho 2009

Início da época de saldos

É um universo barato.

(Álvaro de Campos, Poesia, 143, p. 433)

14 julho 2009

220 anos da tomada da Bastilha (1789)

Visando o estabelecimento da liberdade, a Revolução Francesa suprimiu-a toda; inverteu os termos da opressão, nada mais.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)




A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.

(Ricardo Reis, Prosa, 5, p. 61)

11 julho 2009

11 Jul 1947: o Exodus zarpava para a Terra Santa

Estou liberto e decidido

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 18)

10 julho 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Alberto Cutileiro (Jan 1935)

09 julho 2009

Criacionismo

[...] saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

07 julho 2009

Reunião dos Ministros da Economia e das Finanças (Ecofin) da União Europeia

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

04 julho 2009

233 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776)

Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)

02 julho 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa aos 10 anos, em Durban (1898)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 34)

01 julho 2009

As incertezas dos tempos que correm

Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos...
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.

(Fernando Pessoa, “Diferença de Pessoa”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 486)

28 junho 2009

95 anos do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (1914)

Todo começo é involuntário.

(Fernando Pessoa, “O Conde D. Henrique”, Mensagem, Primeira Parte, II, Terceiro, p. 87)

26 junho 2009

Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura

We torture our brother men with hate, spite, evil, and then say “the world is bad”.

[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 20; em inglês no original)

25 junho 2009

Irmã Lúcia, 25 de Junho de 2000

Tenho um segredo que nem eu própri[a] conheço...

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 350)

Iconografia pessoana

Stencil em Exmouth Market (Londres)
Foto de Duncan Cumming

24 junho 2009

Dia de “São” João

No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.

(Fernando Pessoa, Quadras, II, 200, p. 104)

22 junho 2009

68 anos do início da Operação Barbarossa (1941)

[...] onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual.

(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 83, pp. 195–196)

21 junho 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Liberati

20 junho 2009

Dia Mundial do Refugiado

Como que nu me sinto e exilado
Entre coisas estranhas, [...]

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, Quadro X, p. 84)

19 junho 2009

386 anos do nascimento de Blaise Pascal (1623)

Pascal era um teólogo em verso, que escreveu em prosa.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)

18 junho 2009

194 anos da Batalha de Waterloo (1815)

Napoleão disse que não conhecia a palavra impossível, mas deve tê-la encontrado em Moscovo e Waterloo, se a não tinha visto antes.

(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 272)

16 junho 2009

Iconografia pessoana

Painel de azulejos no “Martinho da Arcada”
(fotografia: Emma’s House in Portugal)

15 junho 2009

311 DC: Licínio ordena o fim da perseguição aos cristãos no Império Romano do Oriente

Sabe-se hoje que grande parte das perseguições feitas aos cristãos [...] são puramente míticas, sendo das variadíssimas invenções dos propagandistas primitivos do Cristianismo.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 49, pp. 260–261)

13 junho 2009

121 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.

(Álvaro de Campos, “Aniversário”, Poesia, 126, p. 403)

Heteronímia

Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 47)

Iconografia pessoana

foto
Fernando Pessoa, com poucas semanas de idade, ao colo da mãe.


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 26)

Pessoa: grande demais para o país onde viveu

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 322)

12 junho 2009

24 anos do Tratado de Adesão de Portugal à CEE (1985)

Temos vivido por empréstimo a vida europeia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 178, p. 311)

11 junho 2009

Iconografia pessoana

«Ilustração sobre Tabacaria»
de Nádia

10 junho 2009

Dia de Portugal...

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!

(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)

... de Camões...

Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. [...] A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.

(Fernando Pessoa, Crítica, p. 216)

... e das Comunidades Portuguesas

Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.

(Álvaro de Campos, “Os Emigrados”, Poesia, 35, p. 256)

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

08 junho 2009

Dia Mundial dos Oceanos

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 112–113)

06 junho 2009

65 anos do início do Desembarque na Normandia (Dia D, Operação Overlord)

Tudo é incerto e derradeiro.
[...]
É a Hora!

Valete, Fratres.

(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)

04 junho 2009

20 anos do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen (1989)

Sê lanterna, dá luz com vidro à roda.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 103, pp. 113–114)

01 junho 2009

Dia Internacional da Criança

Pintura de João Luiz Roth


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

31 maio 2009

Dia Mundial sem Tabaco

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Álvaro de Campos, Poesia, 75, p. 326)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 maio 2009

83 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926

Se a República Portuguesa falhou, não é como República, é como portuguesa.

(Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, p. 299)

24 maio 2009

672 anos do início da Guerra dos Cem Anos (1337)

Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23c, pp. 152–153)

22 maio 2009

196 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)

É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23a, p. 147)

20 maio 2009

511 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia (1498)

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 63)


(autor nosso desconhecido; agradecemos qualquer informação)

Dia da Marinha

MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

19 maio 2009

Dia Mundial da Hepatite

o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 258, p. 254)

18 maio 2009

Dia Internacional dos Museus

Atribuo a este estado de alma a minha repugnância pelos museus. O museu, para mim, é a vida inteira, em que a pintura é sempre exacta, e só pode haver inexactidão na imperfeição do contemplador.

(Bernardo Soares, “O Amante Visual”, Livro do Desassossego, p. 466)

17 maio 2009

Dia Internacional contra a Homofobia

Bolas para a gente ter que aturar isto! [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

(Álvaro de Campos, “Aviso por Causa da Moral”, Crítica, p. 200)

16 maio 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Fábio

15 maio 2009

Dia Internacional do Objector de Consciência

A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 160, p. 174)

13 maio 2009

Fátima, Futebol e Fado

Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 45, p.267)

Fé e virtudes dos reaccionários portugueses

Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 201–202)

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa por Júlio Pomar
Pintura de Júlio Pomar (1985)

12 maio 2009

Dia Internacional dos Enfermeiros

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

(Fernando Pessoa, Quadras, I, 159, p. 50)

10 maio 2009

Egocentrismo

Há qualquer coisa de vil, de degradante, nesta transposição das nossas mágoas para o universo inteiro;

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 31)

Astrologia

[...] o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros,

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 56)



Carta astral de Fernando Pessoa, feita pelo próprio

08 maio 2009

O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC, “Novas Oportunidades”) explicado às criancinhas

[...] conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 320)

06 maio 2009

Saiu hoje: relatório da Aliança Europeia de Segurança Infantil

Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar

Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.

Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)

O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.

(Álvaro de Campos, Poesia, 114, pp. 385–387)

Iconografia pessoana

Caricatura de Vasco Gargalo

Acordo Ortográfico (I)

O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.

No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.

(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 119, p. 248)

Acordo Ortográfico (II)

Depois de trabalho vário
Ando triste como vê.
Não entendo o dicionário,
Não conheço o abecedário,
Caturra! O que fez você!

[...]

Escreve lá à tua moda
Na minha eu hei-de ficar;
Não m’importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!

(Dr. Pancrácio, “Falar e Escrever”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 110, pp. 152–153)

04 maio 2009

Dia Internacional dos Bombeiros

Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 342)


Arte digital de Celito Medeiros

03 maio 2009

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Sucede, porém, uma coisa — sucedeu há cinco minutos — que me confirma em uma decisão que estava incerta, e que me inibe de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro.
Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer aquilo ou isto». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 168, p. 358)

02 maio 2009

41 anos do Maio de 68

Toda a revolução é essencialmente inútil. [...] Uma revolução pode pois definir-se «um modo violento de deixar tudo na mesma».

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 45, pp. 71–72)

É mais fácil assim...

First be free; then ask for freedom.

[ Primeiro sê livre; depois pede a liberdade. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 59; em inglês no original)

01 maio 2009

Dia do Trabalhador

Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 36)

Iconografia pessoana

Cartoon de Rui Pimentel (1997)

30 abril 2009

64 anos da morte de Adolf Hitler (1945)

E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.

(Álvaro de Campos, Poesia, 119, p. 394)

28 abril 2009

120 anos do nascimento de Salazar (1889)

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 379–380)

Dia Mundial da Segurança no Trabalho

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 86)

27 abril 2009

Mal sabes tu o que o dia de amanhã te reserva...

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24a, p. 164)

25 abril 2009

25 Abr 1974: Dia da Liberdade

Tardava o dia como a felicidade e àquela hora parecia que também indefinidamente.

(Bernardo Soares, “Paisagem de Chuva”, Livro do Desassossego, 240, p. 237)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

24 abril 2009

Movimento das Forças Armadas, 24 de Abril de 1974

Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.

(Fernando Pessoa, “Presságio”, Poesia (1918–1930), p. 264)

23 abril 2009

Dia Internacional do Livro

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
[...]

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


Estátua na Praça do Teatro Nacional de São Carlos
Foto de André Garrido (blogue Dia a Dia por Fotografia)

“Literatura” light

Nunca faz mal o que escrevas
Desde que não escrevas nada

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 363)

22 abril 2009

Dia da Terra

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXI”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 71)

Gaia

Só a Natureza é divina, e ela não é divina...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXVII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 77)

Iconografia pessoana

Caricatura de Rodríguez Castañé (21 Set 1912)