(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)
30 setembro 2009
73 anos da criação da Legião Portuguesa (1936)
Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias;
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28 setembro 2009
Iconografia pessoana
Fernando Pessoa após regressar da África do Sul
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 76)
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27 setembro 2009
Resultados eleitorais
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença[?]
Que um perca e outro vença[?]
(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)
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Agora que campanha eleitoral passou...
Volta amanhã, realidade!
(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 428)
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26 setembro 2009
Dia de reflexão?
O voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 55, p. 269)
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Para o meu irmão... :o)
É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
(Álvaro de Campos, “Oxfordshire”, Poesia, 148, p. 440)
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25 setembro 2009
24 setembro 2009
Para a classe política que temos, com amor
[...] Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, pp. 280/281)
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22 setembro 2009
À atenção de todos os candidatos a cargos políticos
Espera o melhor e prepara-te para o pior.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 357)
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20 setembro 2009
490 anos do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519)
FERNÃO DE MAGALHÃES
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VIII, p. 143)
17 setembro 2009
159 anos do nascimento de Guerra Junqueiro (1850)
G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, AP17, p. 499)
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16 setembro 2009
Iconografia pessoana
Monumento ao Infante D. Henrique em Lagos (Algarve)
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
15 setembro 2009
Dia Internacional da Democracia
O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário. O liberalismo é um conceito aristocrático, e portanto inteiramente oposto à democracia.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)
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12 setembro 2009
Promessas eleitorais
Ficções do Interlúdio
(ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim,
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)
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09 setembro 2009
36 anos da primeira reunião do Movimento dos Capitães (1973), embrião do Movimento das Forças Armadas e do 25 de Abril
Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. [...] Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 66, p. 87)
07 setembro 2009
04 setembro 2009
Festa do Avante!
Uma árvore não vai a comícios. [...]
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 373)
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01 setembro 2009
70 anos da invasão nazi da Polónia e do início da II Guerra Mundial (1939)
A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. [...] Um desses princípios é representado pela Alemanha; [...]
O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.
É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.
O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.
É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, pp. 227–228)
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29 agosto 2009
112 anos do Primeiro Congresso Sionista (1897)
[...] Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. [...]
Onde quer que moremos. [...]
(Ricardo Reis, Poesia, II, 127, p. 125)
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27 agosto 2009
26 agosto 2009
(I)moralidade e intelecto
Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)
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23 agosto 2009
Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)
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19 agosto 2009
Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte
Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)
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18 agosto 2009
Atravessando a Mazóvia de comboio
Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)
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16 agosto 2009
15 agosto 2009
Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*
Faz as malas para Parte Nenhuma!
* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)
(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)
* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)
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14 agosto 2009
624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)
NUN’ÁLVARES PEREIRA
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)
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10 agosto 2009
Opinion makers portugueses
É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)
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06 agosto 2009
64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)
Poesia (1918–1930), p. 331)
04 agosto 2009
431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)
Pintura de Júlio Pomar (1985)
03 agosto 2009
03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira
Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)
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31 julho 2009
50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)
Vou atirar uma bomba ao destino.
(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)
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30 julho 2009
Crítica literária
A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]
[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)
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Crítica literária “bulldozer”
Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.
[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]
[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]
(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)
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29 julho 2009
28 julho 2009
95 anos do início da I Guerra Mundial (1914)
Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?
Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23b, pp. 148–149)
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27 julho 2009
39 anos da morte de Salazar (1970)
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)
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24 julho 2009
Superioridade da Arte e da Ciência sobre a Política
GAZETILHA
Dos Lloyd Georges da BabilóniaNão reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.
Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.
Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!
(Álvaro de Campos, Poesia, 77, p. 328)
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Política
22 julho 2009
Iconografia pessoana
«Alberto Caeiro»
Pintura de Lívio de Morais (1998)
Pintura de Lívio de Morais (1998)
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Iconografia
21 julho 2009
2364 anos da destruição do Templo de Ártemis em Éfeso (356 AC)
Contudo, é admissível pensar que existe uma espécie de grandeza em Heróstrato — uma grandeza que ele não partilha com arrivistas menores que irromperam na fama inopinadamente. Sendo grego, pode conceber-se que possuía a percepção refinada e o calmo delírio da beleza que ainda distinguem a memória do seu clã de gigantes. É, pois, concebível que tenha incendiado o templo de Diana num êxtase de dor, queimando parte de si mesmo na fúria da sua malvada façanha. Podemos legitimamente conceber que tivesse superado os apertos de um remorso futuro, e enfrentado um horror íntimo para alcançar uma fama duradoura.
(Fernando Pessoa, “Heróstrato ou o futuro da celebridade”,
Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 362; em inglês no original)
Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 362; em inglês no original)
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Loucura
18 julho 2009
312 anos da morte de Padre António Vieira (1697)
Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro [...]
(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)
17 julho 2009
Dia Mundial para a Justiça Internacional
[...] A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. [...]
(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, p. 91)
16 julho 2009
15 julho 2009
Início da época de saldos
É um universo barato.
(Álvaro de Campos, Poesia, 143, p. 433)
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14 julho 2009
220 anos da tomada da Bastilha (1789)
Visando o estabelecimento da liberdade, a Revolução Francesa suprimiu-a toda; inverteu os termos da opressão, nada mais.
A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)
A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.
(Ricardo Reis, Prosa, 5, p. 61)
11 julho 2009
11 Jul 1947: o Exodus zarpava para a Terra Santa
Estou liberto e decidido
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 18)
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Holocausto,
Israel,
Judaísmo,
Liberdade
10 julho 2009
09 julho 2009
Criacionismo
[...] saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
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Ciência,
Heterónimos e afins,
Religião
07 julho 2009
Reunião dos Ministros da Economia e das Finanças (Ecofin) da União Europeia
Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
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Europa,
Governo,
Heterónimos e afins
04 julho 2009
233 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776)
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)
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Revolução/Revolta
02 julho 2009
01 julho 2009
As incertezas dos tempos que correm
Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos...
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos...
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.
(Fernando Pessoa, “Diferença de Pessoa”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 486)
28 junho 2009
95 anos do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (1914)
Todo começo é involuntário.
(Fernando Pessoa, “O Conde D. Henrique”, Mensagem, Primeira Parte, II, Terceiro, p. 87)
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26 junho 2009
Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura
We torture our brother men with hate, spite, evil, and then say “the world is bad”.
[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]
[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 20; em inglês no original)
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Tortura
25 junho 2009
Irmã Lúcia, 25 de Junho de 2000
Tenho um segredo que nem eu própri[a] conheço...
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 350)
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24 junho 2009
Dia de “São” João
No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.
(Fernando Pessoa, Quadras, II, 200, p. 104)
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22 junho 2009
68 anos do início da Operação Barbarossa (1941)
[...] onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual.
(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 83, pp. 195–196)
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21 junho 2009
20 junho 2009
Dia Mundial do Refugiado
Como que nu me sinto e exilado
Entre coisas estranhas, [...]
Entre coisas estranhas, [...]
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, Quadro X, p. 84)
19 junho 2009
386 anos do nascimento de Blaise Pascal (1623)
Pascal era um teólogo em verso, que escreveu em prosa.
(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)
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18 junho 2009
194 anos da Batalha de Waterloo (1815)
Napoleão disse que não conhecia a palavra impossível, mas deve tê-la encontrado em Moscovo e Waterloo, se a não tinha visto antes.
(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 272)
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16 junho 2009
Iconografia pessoana
Painel de azulejos no “Martinho da Arcada”
(fotografia: Emma’s House in Portugal)
(fotografia: Emma’s House in Portugal)
15 junho 2009
311 DC: Licínio ordena o fim da perseguição aos cristãos no Império Romano do Oriente
Sabe-se hoje que grande parte das perseguições feitas aos cristãos [...] são puramente míticas, sendo das variadíssimas invenções dos propagandistas primitivos do Cristianismo.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 49, pp. 260–261)
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13 junho 2009
121 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Eu era feliz e ninguém estava morto.
(Álvaro de Campos, “Aniversário”, Poesia, 126, p. 403)
Heteronímia
Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 47)
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Iconografia pessoana

Fernando Pessoa, com poucas semanas de idade, ao colo da mãe.
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 26)
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Mãe/Pai
Pessoa: grande demais para o país onde viveu
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 322)
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Portugal
12 junho 2009
24 anos do Tratado de Adesão de Portugal à CEE (1985)
Temos vivido por empréstimo a vida europeia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos.
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 178, p. 311)
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Portugal
11 junho 2009
Iconografia pessoana
«Ilustração sobre Tabacaria»
de Nádia
de Nádia
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10 junho 2009
Dia de Portugal...
Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)
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... de Camões...
Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. [...] A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.
(Fernando Pessoa, Crítica, p. 216)
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... e das Comunidades Portuguesas
Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
(Álvaro de Campos, “Os Emigrados”, Poesia, 35, p. 256)
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08 junho 2009
Dia Mundial dos Oceanos
Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 112–113)
06 junho 2009
65 anos do início do Desembarque na Normandia (Dia D, Operação Overlord)
Tudo é incerto e derradeiro.
[...]
É a Hora!
Valete, Fratres.
[...]
É a Hora!
Valete, Fratres.
(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)
04 junho 2009
20 anos do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen (1989)
Sê lanterna, dá luz com vidro à roda.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 103, pp. 113–114)
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01 junho 2009
Dia Internacional da Criança
Pintura de João Luiz Roth
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)
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31 maio 2009
Dia Mundial sem Tabaco
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Álvaro de Campos, Poesia, 75, p. 326)
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28 maio 2009
83 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926
Se a República Portuguesa falhou, não é como República, é como portuguesa.
(Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, p. 299)
24 maio 2009
672 anos do início da Guerra dos Cem Anos (1337)
Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23c, pp. 152–153)
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22 maio 2009
196 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)
É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.
Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23a, p. 147)
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20 maio 2009
511 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia (1498)
Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.

Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.
(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 63)

(autor nosso desconhecido; agradecemos qualquer informação)
Dia da Marinha
MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
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19 maio 2009
Dia Mundial da Hepatite
o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 258, p. 254)
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18 maio 2009
Dia Internacional dos Museus
Atribuo a este estado de alma a minha repugnância pelos museus. O museu, para mim, é a vida inteira, em que a pintura é sempre exacta, e só pode haver inexactidão na imperfeição do contemplador.
(Bernardo Soares, “O Amante Visual”, Livro do Desassossego, p. 466)
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17 maio 2009
Dia Internacional contra a Homofobia
Bolas para a gente ter que aturar isto! [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.
(Álvaro de Campos, “Aviso por Causa da Moral”, Crítica, p. 200)
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16 maio 2009
15 maio 2009
Dia Internacional do Objector de Consciência
A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 160, p. 174)
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13 maio 2009
Fátima, Futebol e Fado
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
(Álvaro de Campos, Poesia, 45, p.267)
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Fé e virtudes dos reaccionários portugueses
Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 201–202)
12 maio 2009
Dia Internacional dos Enfermeiros
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.
(Fernando Pessoa, Quadras, I, 159, p. 50)
10 maio 2009
Egocentrismo
Há qualquer coisa de vil, de degradante, nesta transposição das nossas mágoas para o universo inteiro;
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 31)
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Astrologia
[...] o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros,
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 56)
Carta astral de Fernando Pessoa, feita pelo próprio
08 maio 2009
O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC, “Novas Oportunidades”) explicado às criancinhas
[...] conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 320)
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06 maio 2009
Saiu hoje: relatório da Aliança Europeia de Segurança Infantil
Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)
Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar
Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.
Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)
O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.
(Álvaro de Campos, Poesia, 114, pp. 385–387)
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Morte
Acordo Ortográfico (I)
O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.
No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.
(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 119, p. 248)
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