30 dezembro 2009

144 anos do nascimento de Rudyard Kipling (1865)

Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

25 dezembro 2009

Natal

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

(Fernando Pessoa, “Natal”, Poesia (1918–1930), p. 184)

24 dezembro 2009

485 anos da morte de Vasco da Gama (1524)

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA


Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IX, p. 145)

20 dezembro 2009

10 anos do regresso de Macau à soberania chinesa (1999)

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

18 dezembro 2009

15 dezembro 2009

“Second Life”? Como assim, “second”?

Avatar de Fernando Pessoa no Second Life
Avatar de Fernando Pessoa no Second Life
Criado por Clara Ferreira a.k.a. Latynina

13 dezembro 2009

464 anos do início do Concílio de Trento (1545)

Deus é um conceito económico. À sua sombra fazem a sua burocracia metafísica os padres das religiões todas.

(Álvaro de Campos, Aforismos e afins, p. 29)

12 dezembro 2009

101 anos do nascimento de Manoel de Oliveira (1908)

Terá Manoel de Oliveira filmado Fernando Pessoa?

Citando o blogue Um Fernando Pessoa:
São apenas cerca de 20 segundos, mas estas são, supostamente, as únicas imagens em filme de Fernando Pessoa, filmadas circa 1926 pelo cineasta Manoel de Oliveira, no Porto. Pessoa estaria em companhia de José Régio.

Aqui no Pessoa para todas as ocasiões somos da opinião de que o sujeito em causa não é Fernando Pessoa.


É um heterónimo.

11 dezembro 2009

Votação do Orçamento de Estado Rectificativo

Eh-lá-hô [...]
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 85)

09 dezembro 2009

Sexo?

O tamanho, a duração não têm importância nenhuma...
São apenas tamanho e duração...

(Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”, 25, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 128)

06 dezembro 2009

824 anos da morte do primeiro Rei de Portugal (1185)

D. AFONSO HENRIQUES


Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 91)

05 dezembro 2009

513 anos do decreto de expulsão dos “hereges” de Portugal (1496)

Que abjecção esta regularidade!

(Álvaro de Campos, “Dactilografia”, Poesia, 181, p. 485)

03 dezembro 2009

Eugenia

Eugenics is the great enemy of will-power.

[ A eugenia é o grande inimigo da força de vontade. ]

(Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 415; em inglês no original)

01 dezembro 2009

369 anos da Restauração da Independência (1640)

A restauração de 1640 fez-se por uma revolução aristocrática, que o povo apoiou, mas em que não colaborou activamente.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, p. 112)

30 novembro 2009

74 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)

Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 163)


foto
Última foto de Fernando Pessoa (1935)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 171)

29 novembro 2009

Astrologia

Placa evocativa das últimas palavras de Fernando Pessoa
I know not what tomorrow will bring.

[ Não sei o que o amanhã trará. ]

(últimas palavras escritas por Fernando Pessoa, na véspera da sua morte,
Fernando Pessoa – Fotobiografia, p. 161; em inglês no original)

26 novembro 2009

Bom Povo

O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”,
Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

24 novembro 2009

Dia Nacional da Cultura Científica*

Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo! Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta!

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)



* Nascimento de Rómulo de Carvalho (1906).

21 novembro 2009

Dia Mundial da Televisão

Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 42)

19 novembro 2009

Dia Mundial da Filosofia

Contra a maioria das doutrinas filosóficas tenho a queixa de que são simples; o facto de quererem explicar é prova bastante de tal, pois explicar é simplificar.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 33)



Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.

(Bernardo Soares, Aforismos e afins, p. 67)

16 novembro 2009

Dia Internacional para a Tolerância

Toda a sinceridade é uma intolerância.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 276, p. 267)

14 novembro 2009

Dia Mundial da Diabetes

Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
[...]
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 323)

11 novembro 2009

91 anos do fim da I Guerra Mundial (1918)

Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [.], com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23i, pp. 158–159)

Dia de “São” Martinho

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

09 novembro 2009

09 Nov 1989: O Comunismo caía de podre

Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 306, p. 289)

07 novembro 2009

92 anos da Revolução Bolchevique

Visando a liberdade, a libertação dos operários e dos fracos, o bolchevismo oprimiu outros fracos e não aos que disse servir desoprimiu.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)

07 Nov 1917*: Nascia a Ditadura do Proletariado

Não me capem com ideais!

(Álvaro de Campos, Poesia, 138, p. 423)



* 25 de Outubro, segundo o calendário juliano.

«Nas terras altas o vento soprará forte a muito forte (45 a 60 km/h), de noroeste com rajadas da ordem dos 90 km/h» (Instituto de Meteorologia)

Pessoa levado pelo vento
Desenho de Jorge Colombo

04 novembro 2009

Bondade

Não somos bondosos nem caritativos — não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras.

(Bernardo Soares, “Declaração de Diferença”, Livro do Desassossego, p. 428)

01 novembro 2009

Dia de Todos os “Santos”

O cristismo apresenta-se-nos composto de três elementos — o sentimento cristista propriamente tal, o elemento pagão contido na presença daqueles santos que todos hoje sabemos serem apenas sucessores deformados dos deuses, e aquele elemento propriamente religioso que todas as religiões contêm.

(António Mora, Obra em Prosa, p. 181)



Uma diferença idêntica separa o politeísmo grego do politeísmo da Igreja Católica, representado por os seus santos, que, para a maioria das populações nas nações católicas, têm, na devoção e no culto, um lugar acima de Deus.

(Ricardo Reis, Prosa, 15, pp. 83–84)

31 outubro 2009

Dia Mundial da Poupança

O dinheiro é belo, porque é uma libertação.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 295, p. 281)

29 outubro 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa no “Martinho da Arcada”, com Costa Brochado


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, pp. 6–7)

28 outubro 2009

87 anos da “Marcha sobre Roma” do Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini (1922)

O problema apresentado pelo fascismo é muito simples, e, na sua essência, não nos é, a nós portugueses, desconhecido. O povo italiano — que é de supor que o seja, e não fascista nem comunista — recebeu há anos, do lado direito da cara, a bofetada do comunismo. O fascismo, para o endireitar, deu-lhe uma bofetada, um pouco mais forte, do lado esquerdo. Não sabemos, nem temos meio de saber, se o povo italiano aprecia mais o ter ficado direito, ou neo-torto, ou as desvantagens faciais do processo empregado. E resta sempre saber, nesta matéria — como cada nova bofetada é sempre mais forte que a anterior, para poder endireitar —, em que altura é que pára a terapêutica equilibradora, e em que estado fica o equilibrado quando o Destino, por fim, se cansa do tratamento.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 114, pp. 357–358)

26 outubro 2009

Governo

A encenação dos incompetentes é a mais cruel das ironias dos deuses.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 50, p. 263)

23 outubro 2009

23 Out 4004 AC, 9 da manhã em ponto: instante preciso da criação do Mundo por Deus, segundo James Ussher (1581–1656)

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é ele que as criou, do que duvido» —.

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, VIII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 55)

20 outubro 2009

Razão e Fé

Os místicos, os esotéricos, e outra gente assim, têm sido sempre, notavelmente, falhos de lucidez, de grandeza intelectual e de espírito compreensivo e claro. [...]
O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio.

(Alberto Caeiro, Pessoa por Conhecer, vol. II, 326, p. 363)

19 outubro 2009

Iconografia pessoana

Estátua de Fernando Pessoa no Parque dos Poetas (Oeiras)
Fotografia de Paulo Azevedo

18 outubro 2009

Movimento Perpétuo Associativo

Tantos nobres ideais caídos entre o estrume, tantas ânsias verdadeiras extraviadas entre o enxurro!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 273, p. 265)

15 outubro 2009

Assembleia da República

[...] estalagem onde riem os parvos felizes [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 200, p. 206)

13 outubro 2009

“Milagre do Sol”

Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 256, p. 252)

Fátima ou Lenine, tanto dá

O ódio à ciência, às leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine — nisso só está a diferença.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

119 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890)

foto
Álvaro de Campos (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

12 outubro 2009

517 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas (1492)

Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 286)



OS COLOMBOS


Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VI, p. 139)

10 outubro 2009

Dia Mundial da Saúde Mental

O pensamento é enterrado vivo
No mundo e ali sufoca.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 21)

09 outubro 2009

Iconografia pessoana

Papel timbrado da “Empresa Íbis”, de Fernando Pessoa

08 outubro 2009

Prémio Nobel da Literatura

O triunfo supremo de um artista é quando ao ler suas obras o leitor prefere tê-las e não as ler.

(Bernardo Soares, “Máximas”, Livro do Desassossego, p. 450)

07 outubro 2009

60 anos da fundação da República Democrática Alemã (1949)

As cortinas das janelas impediam ver para fora, uma porém [] dum lado mostrava ao longe o azul muito azul do céu, muito azul, muito longe, muito azul, muito de um azul liso, puro e perfeito.

(Marco Alves, Pessoa por Conhecer, vol. II, 25h, p. 43)

438 anos da Batalha de Lepanto (1571)

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens do mar actual! homens do mar passado!
Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 118)

05 outubro 2009

99 anos da implantação da República (1910)

Propriamente falando, eu não combato a monarquia; combato a monarquia portuguesa. [...] A monarquia portuguesa aí está! Basta olhar para ela. Não há melhor argumento.

(Pantaleão, Pessoa por Conhecer, vol. II, 160, p. 211)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

03 outubro 2009

Ironia: modo de usar

Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verdade com um invólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 419)

01 outubro 2009

60 anos da fundação da República Popular da China (1949)

Quedar-nos-emos indiferentes à verdade ou mentira de todas as religiões, de todas as filosofias, de todas as hipóteses inutilmente verificáveis a que chamamos ciências. Tão-pouco nos preocupará o destino da chamada humanidade, ou o que sofra ou não sofra em seu conjunto. Caridade, sim, para com o «próximo» como no Evangelho se diz, e não com o homem, de que nele se não fala. E todos, até certo ponto assim somos: que nos pesa, ao melhor de nós, um massacre na China? Mais nos dói, ao que de nós mais imagine, a bofetada injusta que vimos dar na rua a uma criança.

¤

[...] senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias colectivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles. Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 447, p. 394 & 165, p. 178)

Dia Mundial da Música

A música, sim, a música...
Piano banal do outro andar...
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal...
Mas é música...

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!

(Álvaro de Campos, Poesia, 192, p. 501)

30 setembro 2009

73 anos da criação da Legião Portuguesa (1936)

Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias;

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)

28 setembro 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa após regressar da África do Sul


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 76)

27 setembro 2009

Resultados eleitorais

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença[?]

(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)

Agora que campanha eleitoral passou...

Volta amanhã, realidade!

(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 428)

26 setembro 2009

Dia de reflexão?

O voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 55, p. 269)

Para o meu irmão... :o)

É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.

(Álvaro de Campos, “Oxfordshire”, Poesia, 148, p. 440)

25 setembro 2009

Caça aos últimos indecisos...

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

24 setembro 2009

Para a classe política que temos, com amor

[...] Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, pp. 280/281)

22 setembro 2009

À atenção de todos os candidatos a cargos políticos

Espera o melhor e prepara-te para o pior.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 357)

20 setembro 2009

490 anos do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519)

FERNÃO DE MAGALHÃES


No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VIII, p. 143)

17 setembro 2009

159 anos do nascimento de Guerra Junqueiro (1850)

G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, AP17, p. 499)

16 setembro 2009

Iconografia pessoana

Monumento ao Infante D. Henrique em Lagos (Algarve)


(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

15 setembro 2009

Dia Internacional da Democracia

O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário. O liberalismo é um conceito aristocrático, e portanto inteiramente oposto à democracia.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

12 setembro 2009

Promessas eleitorais

Ficções do Interlúdio

(ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim,
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)

09 setembro 2009

36 anos da primeira reunião do Movimento dos Capitães (1973), embrião do Movimento das Forças Armadas e do 25 de Abril

Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. [...] Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 66, p. 87)

07 setembro 2009

Multimédia pessoano

Dead Combo, Quando a alma não é pequena (2006)

04 setembro 2009

Festa do Avante!

Uma árvore não vai a comícios. [...]

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 373)

01 setembro 2009

70 anos da invasão nazi da Polónia e do início da II Guerra Mundial (1939)

A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. [...] Um desses princípios é representado pela Alemanha; [...]

O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.

É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, pp. 227–228)

29 agosto 2009

112 anos do Primeiro Congresso Sionista (1897)

[...] Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. [...]

(Ricardo Reis, Poesia, II, 127, p. 125)

27 agosto 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa aos 20 anos (1908)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 60)

26 agosto 2009

(I)moralidade e intelecto

Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)

23 agosto 2009

Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários

Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!

Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.

(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)

19 agosto 2009

Iconografia pessoana

fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos
«Ode Marítima VI»
Fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos (1988)

Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)

18 agosto 2009

Atravessando a Mazóvia de comboio

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)

16 agosto 2009

Iconografia pessoana

«Acordar na cidade de Lisboa...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Álvaro de Campos, Poesia, 10, p. 97)

15 agosto 2009

Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*

Faz as malas para Parte Nenhuma!

(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)




* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)

14 agosto 2009

624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)

NUN’ÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)

10 agosto 2009

Opinion makers portugueses

É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)

06 agosto 2009

64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)

04 agosto 2009

431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)

03 agosto 2009

03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)

31 julho 2009

50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)

Vou atirar uma bomba ao destino.

(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)

30 julho 2009

Crítica literária

A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]

[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

Crítica literária “bulldozer”

Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.

[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

29 julho 2009

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 julho 2009

95 anos do início da I Guerra Mundial (1914)

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23b, pp. 148–149)

27 julho 2009

39 anos da morte de Salazar (1970)

Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)

24 julho 2009

Superioridade da Arte e da Ciência sobre a Política

GAZETILHA

Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

(Álvaro de Campos, Poesia, 77, p. 328)

22 julho 2009

Iconografia pessoana

«Alberto Caeiro»
Pintura de Lívio de Morais (1998)

21 julho 2009

2364 anos da destruição do Templo de Ártemis em Éfeso (356 AC)

Contudo, é admissível pensar que existe uma espécie de grandeza em Heróstrato — uma grandeza que ele não partilha com arrivistas menores que irromperam na fama inopinadamente. Sendo grego, pode conceber-se que possuía a percepção refinada e o calmo delírio da beleza que ainda distinguem a memória do seu clã de gigantes. É, pois, concebível que tenha incendiado o templo de Diana num êxtase de dor, queimando parte de si mesmo na fúria da sua malvada façanha. Podemos legitimamente conceber que tivesse superado os apertos de um remorso futuro, e enfrentado um horror íntimo para alcançar uma fama duradoura.

(Fernando Pessoa, “Heróstrato ou o futuro da celebridade”,
Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 362; em inglês no original)

18 julho 2009

312 anos da morte de Padre António Vieira (1697)

Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro [...]

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

17 julho 2009

Dia Mundial para a Justiça Internacional

[...] A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, p. 91)

16 julho 2009

Iconografia pessoana

«O Poeta Fernando Pessoa e uma Janela»
Pintura de Costa Pinheiro (1985)

15 julho 2009

Início da época de saldos

É um universo barato.

(Álvaro de Campos, Poesia, 143, p. 433)

14 julho 2009

220 anos da tomada da Bastilha (1789)

Visando o estabelecimento da liberdade, a Revolução Francesa suprimiu-a toda; inverteu os termos da opressão, nada mais.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)




A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.

(Ricardo Reis, Prosa, 5, p. 61)

11 julho 2009

11 Jul 1947: o Exodus zarpava para a Terra Santa

Estou liberto e decidido

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 18)

10 julho 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Alberto Cutileiro (Jan 1935)