(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)
30 janeiro 2010
Educação: «competências», não «competência»
[...] assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ciências da Educação,
Educação,
Fé,
Liberdade
28 janeiro 2010
96 anos da criação de Ricardo Reis (1914)
O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 28* de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. [...]
* Pessoa hesita entre os dias 28 e 29.
.png)
(Fernando Pessoa, “Ricardo Reis — Vida e Obra” in Ricardo Reis, Prosa, 94, p. 278)
* Pessoa hesita entre os dias 28 e 29.
.png)
Ricardo Reis (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
27 janeiro 2010
1 ano!
Este blogue faz precisamente hoje um ano.
Bem, isto não é exactamente verdade — mas, como diria Bernardo Soares, seria mórbido emprestar a isto uma realidade muito verdadeira.
Bem, isto não é exactamente verdade — mas, como diria Bernardo Soares, seria mórbido emprestar a isto uma realidade muito verdadeira.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 209, p. 215)

Fernando Pessoa com cerca de 1 ano de idade
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 17)
25 janeiro 2010
Religiosidade
No fundo, o homem religioso é um hedonista. O instinto religioso das massas é um instinto de prazer, de ter tudo resolvido na vida. Deter-se só perante a Verdade é doloroso para o homem. A Realidade é muda e fria.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 50)
23 janeiro 2010
O sentido do mundo
Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.
(Bernardo Soares, “Viagem nunca Feita”, Livro do Desassossego, p. 481)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Vida
20 janeiro 2010
68 anos da adopção da “Solução Final para o Problema Judaico” (1942)
E se houver outros que faltem, procurem-nos aí p’ra um canto!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Alemanha,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Holocausto,
Judaísmo,
Nazismo
17 janeiro 2010
17 Jan 1945: O Exército Vermelho “liberta” Varsóvia do domínio Nazi
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Comunismo,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Liberdade,
Opressão,
União Soviética
15 janeiro 2010
Ciência e Fé
Se a ciência não pode consolar,
Não busquemos consolo.
Não peçamos à fé que seja certa
Mas só que seja nossa.
Não busquemos consolo.
Não peçamos à fé que seja certa
Mas só que seja nossa.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 509)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ciência,
Fé,
Ilusão,
Religião
14 janeiro 2010
12 janeiro 2010
579 anos do início do julgamento de Joana d’Arc por bruxaria (1431)
Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
[...]
Bruxa de boa intenção...
[...]
Minha Joana de Arc sem pátria!
[...]
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
[...]
Bruxa de boa intenção...
[...]
Minha Joana de Arc sem pátria!
[...]
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
(Álvaro de Campos, “Carry Nation”, Poesia, 123, pp. 399–400)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Justiça,
Loucura,
Misticismo
07 janeiro 2010
685 anos da morte de D. Dinis (1325)
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 93)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Descobertas,
Falecimento,
História de Portugal,
Império,
Poesia
01 janeiro 2010
Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
(Fernando Pessoa, “Ano Novo”, Poesia (1918–1930), p. 187)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Calendário,
Ficção,
Ilusão
Pessoa, sempre — todos os dias: Janeiro de 2010

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
Legenda:
Dias úteis (Fernando Pessoa) | Sábados normais (Álvaro de Campos) |
Domingos normais (Alberto Caeiro) |
Feriados civis (Bernardo Soares) |
Feriados religiosos (Ricardo Reis) |
Aniversário de Fernando Pessoa* (busto) |
| Ano novo (Fernando Pessoa com chapéu de festa) |
Carnaval (Fernando Pessoa com chapéu de festa) |
* Coincide com o Dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa e Vila Real (a nossa cidade), entre outros concelhos.
30 dezembro 2009
144 anos do nascimento de Rudyard Kipling (1865)
Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Imortalidade,
Império,
Nascimento,
Poesia
25 dezembro 2009
Natal
Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
(Fernando Pessoa, “Natal”, Poesia (1918–1930), p. 184)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ateísmo,
Cristianismo,
Deus,
Erro,
Mitos/Mitologia,
Nascimento,
Religião,
Verdade
24 dezembro 2009
485 anos da morte de Vasco da Gama (1524)
ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IX, p. 145)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Descobertas,
Falecimento
20 dezembro 2009
10 anos do regresso de Macau à soberania chinesa (1999)
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.
(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
História de Portugal,
Império,
Passado,
Saudosismo
18 dezembro 2009
131 anos do nascimento de Ioseb Besarionis dze Jughashvili, vulgo José Estaline (1878)
Boa noite e merda!
(Álvaro de Campos, Poesia, 114, p. 385)
15 dezembro 2009
13 dezembro 2009
464 anos do início do Concílio de Trento (1545)
Deus é um conceito económico. À sua sombra fazem a sua burocracia metafísica os padres das religiões todas.
(Álvaro de Campos, Aforismos e afins, p. 29)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Deus,
Economia/Finanças,
Heterónimos e afins,
Igreja Católica,
Religião
12 dezembro 2009
101 anos do nascimento de Manoel de Oliveira (1908)
Terá Manoel de Oliveira filmado Fernando Pessoa?
Citando o blogue Um Fernando Pessoa:São apenas cerca de 20 segundos, mas estas são, supostamente, as únicas imagens em filme de Fernando Pessoa, filmadas circa 1926 pelo cineasta Manoel de Oliveira, no Porto. Pessoa estaria em companhia de José Régio.
Aqui no Pessoa para todas as ocasiões somos da opinião de que o sujeito em causa não é Fernando Pessoa.
É um heterónimo.
11 dezembro 2009
Votação do Orçamento de Estado Rectificativo
Eh-lá-hô [...]
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 85)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Democracia,
Economia/Finanças,
Estética,
Governo,
Heterónimos e afins
09 dezembro 2009
Sexo?
O tamanho, a duração não têm importância nenhuma...
São apenas tamanho e duração...
São apenas tamanho e duração...
(Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”, 25, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 128)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Sexo
06 dezembro 2009
824 anos da morte do primeiro Rei de Portugal (1185)
D. AFONSO HENRIQUES
Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!
Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 91)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Falecimento,
História de Portugal
05 dezembro 2009
513 anos do decreto de expulsão dos “hereges” de Portugal (1496)
Que abjecção esta regularidade!
(Álvaro de Campos, “Dactilografia”, Poesia, 181, p. 485)
03 dezembro 2009
Eugenia
Eugenics is the great enemy of will-power.
[ A eugenia é o grande inimigo da força de vontade. ]
[ A eugenia é o grande inimigo da força de vontade. ]
(Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 415; em inglês no original)
01 dezembro 2009
369 anos da Restauração da Independência (1640)
A restauração de 1640 fez-se por uma revolução aristocrática, que o povo apoiou, mas em que não colaborou activamente.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, p. 112)
30 novembro 2009
74 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)
Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.

Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 163)

Última foto de Fernando Pessoa (1935)
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 171)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Falecimento,
Fotografias,
Iconografia
29 novembro 2009
Astrologia
I know not what tomorrow will bring.
[ Não sei o que o amanhã trará. ]
[ Não sei o que o amanhã trará. ]
(últimas palavras escritas por Fernando Pessoa, na véspera da sua morte,
Fernando Pessoa – Fotobiografia, p. 161; em inglês no original)
Fernando Pessoa – Fotobiografia, p. 161; em inglês no original)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Astrologia,
Falecimento
26 novembro 2009
Bom Povo
O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir.
(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”,
Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)
Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ilusão,
Portugal,
Povo
24 novembro 2009
Dia Nacional da Cultura Científica*
Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo! Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta!
* Nascimento de Rómulo de Carvalho (1906).
(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)
* Nascimento de Rómulo de Carvalho (1906).
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Ciência,
Cultura,
Educação,
Heterónimos e afins,
Liberdade,
Nascimento,
Povo
21 novembro 2009
Dia Mundial da Televisão
Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 42)
Etiquetas:
* Barão de Teive,
Cultura,
Educação,
Estupidez,
Heterónimos e afins,
Televisão
19 novembro 2009
Dia Mundial da Filosofia
Contra a maioria das doutrinas filosóficas tenho a queixa de que são simples; o facto de quererem explicar é prova bastante de tal, pois explicar é simplificar.
Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 33)
Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.
(Bernardo Soares, Aforismos e afins, p. 67)
Etiquetas:
* Barão de Teive,
* Bernardo Soares,
Deus,
Filosofia,
Heterónimos e afins
16 novembro 2009
Dia Internacional para a Tolerância
Toda a sinceridade é uma intolerância.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 276, p. 267)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Censura,
Heterónimos e afins,
Sinceridade,
Tolerância/Intolerância,
Verdade
14 novembro 2009
Dia Mundial da Diabetes
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
[...]
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Come chocolates!
[...]
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 323)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Saúde
11 novembro 2009
91 anos do fim da I Guerra Mundial (1918)
Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [.], com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [.], com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23i, pp. 158–159)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Morte
09 novembro 2009
09 Nov 1989: O Comunismo caía de podre
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 306, p. 289)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Alemanha,
Comunismo,
Heterónimos e afins,
Idealismo,
Ideologias,
Política,
União Soviética,
Utopias
07 novembro 2009
92 anos da Revolução Bolchevique
Visando a liberdade, a libertação dos operários e dos fracos, o bolchevismo oprimiu outros fracos e não aos que disse servir desoprimiu.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Comunismo,
Liberdade,
Opressão
07 Nov 1917*: Nascia a Ditadura do Proletariado
Não me capem com ideais!
* 25 de Outubro, segundo o calendário juliano.
(Álvaro de Campos, Poesia, 138, p. 423)
* 25 de Outubro, segundo o calendário juliano.
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Comunismo,
Ditadura,
Heterónimos e afins,
Idealismo,
Ideologias
04 novembro 2009
Bondade
Não somos bondosos nem caritativos — não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras.
(Bernardo Soares, “Declaração de Diferença”, Livro do Desassossego, p. 428)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Bem,
Heterónimos e afins,
Mal,
Moral,
Povo
01 novembro 2009
Dia de Todos os “Santos”
O cristismo apresenta-se-nos composto de três elementos — o sentimento cristista propriamente tal, o elemento pagão contido na presença daqueles santos que todos hoje sabemos serem apenas sucessores deformados dos deuses, e aquele elemento propriamente religioso que todas as religiões contêm.
Uma diferença idêntica separa o politeísmo grego do politeísmo da Igreja Católica, representado por os seus santos, que, para a maioria das populações nas nações católicas, têm, na devoção e no culto, um lugar acima de Deus.
(António Mora, Obra em Prosa, p. 181)
Uma diferença idêntica separa o politeísmo grego do politeísmo da Igreja Católica, representado por os seus santos, que, para a maioria das populações nas nações católicas, têm, na devoção e no culto, um lugar acima de Deus.
(Ricardo Reis, Prosa, 15, pp. 83–84)
Etiquetas:
* António Mora,
* Ricardo Reis,
Cristianismo,
Deus,
Fé,
Grécia,
Heterónimos e afins,
Igreja Católica,
Paganismo,
Povo,
Religião,
Santos
31 outubro 2009
Dia Mundial da Poupança
O dinheiro é belo, porque é uma libertação.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 295, p. 281)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Dinheiro,
Economia/Finanças,
Estética,
Heterónimos e afins,
Liberdade
29 outubro 2009
Iconografia pessoana
Fernando Pessoa no “Martinho da Arcada”, com Costa Brochado
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, pp. 6–7)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Fotografias,
Iconografia
28 outubro 2009
87 anos da “Marcha sobre Roma” do Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini (1922)
O problema apresentado pelo fascismo é muito simples, e, na sua essência, não nos é, a nós portugueses, desconhecido. O povo italiano — que é de supor que o seja, e não fascista nem comunista — recebeu há anos, do lado direito da cara, a bofetada do comunismo. O fascismo, para o endireitar, deu-lhe uma bofetada, um pouco mais forte, do lado esquerdo. Não sabemos, nem temos meio de saber, se o povo italiano aprecia mais o ter ficado direito, ou neo-torto, ou as desvantagens faciais do processo empregado. E resta sempre saber, nesta matéria — como cada nova bofetada é sempre mais forte que a anterior, para poder endireitar —, em que altura é que pára a terapêutica equilibradora, e em que estado fica o equilibrado quando o Destino, por fim, se cansa do tratamento.
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 114, pp. 357–358)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Comunismo,
Democracia,
Fascismo,
Ideologias,
Itália,
Liberdade,
Opressão,
Política,
Revolução/Revolta
26 outubro 2009
Governo
A encenação dos incompetentes é a mais cruel das ironias dos deuses.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 50, p. 263)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Governo,
Política,
Portugal
23 outubro 2009
23 Out 4004 AC, 9 da manhã em ponto: instante preciso da criação do Mundo por Deus, segundo James Ussher (1581–1656)
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é ele que as criou, do que duvido» —.
Das coisas que criou —
«Se é ele que as criou, do que duvido» —.
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, VIII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 55)
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 55)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
Ateísmo,
Cristianismo,
Deus,
Heterónimos e afins,
Judaísmo,
Mitos/Mitologia,
Religião
20 outubro 2009
Razão e Fé
Os místicos, os esotéricos, e outra gente assim, têm sido sempre, notavelmente, falhos de lucidez, de grandeza intelectual e de espírito compreensivo e claro. [...]
O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio.
O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio.
(Alberto Caeiro, Pessoa por Conhecer, vol. II, 326, p. 363)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
Ateísmo,
Fé,
Heterónimos e afins,
Misticismo,
Religião
19 outubro 2009
18 outubro 2009
Movimento Perpétuo Associativo
Tantos nobres ideais caídos entre o estrume, tantas ânsias verdadeiras extraviadas entre o enxurro!
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 273, p. 265)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Apatia,
Estado de espírito,
Heterónimos e afins,
Idealismo,
Ilusão,
Indiferença,
Pessimismo
15 outubro 2009
Assembleia da República
[...] estalagem onde riem os parvos felizes [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 200, p. 206)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Democracia,
Eleições,
Estupidez,
Heterónimos e afins,
Política
13 outubro 2009
“Milagre do Sol”
Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 256, p. 252)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Ateísmo,
Fátima,
Fé,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Milagres,
Misticismo,
Povo,
Religião,
Santos
Fátima ou Lenine, tanto dá
O ódio à ciência, às leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine — nisso só está a diferença.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)
119 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890)

Álvaro de Campos (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
12 outubro 2009
517 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas (1492)
Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 286)
OS COLOMBOS
Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.
Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VI, p. 139)
10 outubro 2009
Dia Mundial da Saúde Mental
O pensamento é enterrado vivo
No mundo e ali sufoca.
No mundo e ali sufoca.
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 21)
09 outubro 2009
08 outubro 2009
Prémio Nobel da Literatura
O triunfo supremo de um artista é quando ao ler suas obras o leitor prefere tê-las e não as ler.
(Bernardo Soares, “Máximas”, Livro do Desassossego, p. 450)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Heterónimos e afins,
Literatura,
Prémio Nobel
07 outubro 2009
60 anos da fundação da República Democrática Alemã (1949)
As cortinas das janelas impediam ver para fora, uma porém [] dum lado mostrava ao longe o azul muito azul do céu, muito azul, muito longe, muito azul, muito de um azul liso, puro e perfeito.
(Marco Alves, Pessoa por Conhecer, vol. II, 25h, p. 43)
Etiquetas:
* Marco Alves,
Alemanha,
Comunismo,
Democracia,
Heterónimos e afins,
Liberdade,
Opressão
438 anos da Batalha de Lepanto (1571)
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens do mar actual! homens do mar passado!
Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto!
Homens do mar actual! homens do mar passado!
Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 118)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Escravidão/Servidão,
Guerra,
Heterónimos e afins
05 outubro 2009
99 anos da implantação da República (1910)
Propriamente falando, eu não combato a monarquia; combato a monarquia portuguesa. [...] A monarquia portuguesa aí está! Basta olhar para ela. Não há melhor argumento.
(Pantaleão, Pessoa por Conhecer, vol. II, 160, p. 211)
03 outubro 2009
Ironia: modo de usar
Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verdade com um invólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo.
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 419)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Crítica,
Humor,
Verdade
01 outubro 2009
60 anos da fundação da República Popular da China (1949)
Quedar-nos-emos indiferentes à verdade ou mentira de todas as religiões, de todas as filosofias, de todas as hipóteses inutilmente verificáveis a que chamamos ciências. Tão-pouco nos preocupará o destino da chamada humanidade, ou o que sofra ou não sofra em seu conjunto. Caridade, sim, para com o «próximo» como no Evangelho se diz, e não com o homem, de que nele se não fala. E todos, até certo ponto assim somos: que nos pesa, ao melhor de nós, um massacre na China? Mais nos dói, ao que de nós mais imagine, a bofetada injusta que vimos dar na rua a uma criança.
¤
[...] senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias colectivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles. Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste.
¤
[...] senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias colectivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles. Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 447, p. 394 & 165, p. 178)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Ciência,
Comunismo,
Heterónimos e afins,
Indiferença,
Mentira,
Opressão,
Religião,
Revolução/Revolta,
Tragédia,
Verdade
Dia Mundial da Música
A música, sim, a música...
Piano banal do outro andar...
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal...
Mas é música...
Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.
Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!
Piano banal do outro andar...
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal...
Mas é música...
Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.
Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!
(Álvaro de Campos, Poesia, 192, p. 501)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Arte,
Heterónimos e afins
30 setembro 2009
73 anos da criação da Legião Portuguesa (1936)
Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias;
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Estado Novo,
Estupidez,
Fascismo,
História de Portugal,
Hitler,
Ideologias,
Itália,
Nazismo,
Política,
Propaganda,
Salazar
28 setembro 2009
Iconografia pessoana
Fernando Pessoa após regressar da África do Sul
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 76)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Fotografias,
Iconografia
27 setembro 2009
Resultados eleitorais
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença[?]
Que um perca e outro vença[?]
(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Apatia,
Democracia,
Eleições,
Heterónimos e afins,
Indiferença
Agora que campanha eleitoral passou...
Volta amanhã, realidade!
(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 428)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Democracia,
Eleições,
Governo,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Política,
Propaganda
26 setembro 2009
Dia de reflexão?
O voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 55, p. 269)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Democracia,
Eleições,
Governo,
Política
Para o meu irmão... :o)
É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
(Álvaro de Campos, “Oxfordshire”, Poesia, 148, p. 440)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Aniversário,
Felicidade,
Heterónimos e afins
25 setembro 2009
24 setembro 2009
Para a classe política que temos, com amor
[...] Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, pp. 280/281)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Democracia,
Eleições,
Estupidez,
Heterónimos e afins,
Política
22 setembro 2009
À atenção de todos os candidatos a cargos políticos
Espera o melhor e prepara-te para o pior.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 357)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Catástrofe,
Eleições,
Governo,
Guerra,
Optimismo,
Pessimismo
20 setembro 2009
490 anos do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519)
FERNÃO DE MAGALHÃES
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VIII, p. 143)
17 setembro 2009
159 anos do nascimento de Guerra Junqueiro (1850)
G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, AP17, p. 499)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Heterónimos e afins,
Nascimento,
Poesia
16 setembro 2009
Iconografia pessoana
Monumento ao Infante D. Henrique em Lagos (Algarve)
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
15 setembro 2009
Dia Internacional da Democracia
O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário. O liberalismo é um conceito aristocrático, e portanto inteiramente oposto à democracia.
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Democracia,
Povo
12 setembro 2009
Promessas eleitorais
Ficções do Interlúdio
(ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim,
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
* Álvaro de Campos,
* Ricardo Reis,
Democracia,
Eleições,
Ficção,
Governo,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Política,
Propaganda
09 setembro 2009
36 anos da primeira reunião do Movimento dos Capitães (1973), embrião do Movimento das Forças Armadas e do 25 de Abril
Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. [...] Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 66, p. 87)
07 setembro 2009
04 setembro 2009
Festa do Avante!
Uma árvore não vai a comícios. [...]
(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 373)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Apatia,
Comunismo,
Política
01 setembro 2009
70 anos da invasão nazi da Polónia e do início da II Guerra Mundial (1939)
A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. [...] Um desses princípios é representado pela Alemanha; [...]
O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.
É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.
O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.
É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, pp. 227–228)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Alemanha,
Civilização,
Estado,
Guerra,
Indivíduo,
Nazismo,
Pátria
29 agosto 2009
112 anos do Primeiro Congresso Sionista (1897)
[...] Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. [...]
Onde quer que moremos. [...]
(Ricardo Reis, Poesia, II, 127, p. 125)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Heterónimos e afins,
Israel,
Judaísmo
27 agosto 2009
26 agosto 2009
(I)moralidade e intelecto
Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)
Etiquetas:
* Barão de Teive,
Estupidez,
Heterónimos e afins,
Moral
23 agosto 2009
Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários
Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
Saúde e estupidez!
Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.
(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Censura,
Comunismo,
Estado Novo,
Estupidez,
Fascismo,
Heterónimos e afins,
Liberdade,
Nazismo,
Opressão,
União Soviética
19 agosto 2009
Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte
Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Férias,
Heterónimos e afins,
Viagem/Turismo
18 agosto 2009
Atravessando a Mazóvia de comboio
Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Férias,
Heterónimos e afins,
Viagem/Turismo
16 agosto 2009
15 agosto 2009
Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*
Faz as malas para Parte Nenhuma!
* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)
(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)
* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Férias,
Heterónimos e afins,
Teatro,
Viagem/Turismo
14 agosto 2009
624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)
NUN’ÁLVARES PEREIRA
Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Guerra,
História de Portugal
10 agosto 2009
Opinion makers portugueses
É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Censura,
Comentadores,
Crítica,
Estupidez
06 agosto 2009
64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)
Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...
(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)
Poesia (1918–1930), p. 331)
04 agosto 2009
431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)
Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)
Pintura de Júlio Pomar (1985)
03 agosto 2009
03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira
Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
História de Portugal,
Salazar
31 julho 2009
50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)
Vou atirar uma bomba ao destino.
(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Terrorismo,
Violência
30 julho 2009
Crítica literária
A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]
[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.
(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Crítica,
Justiça,
Literatura
Crítica literária “bulldozer”
Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.
[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]
[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]
(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Crítica,
Estética,
Fama,
Justiça,
Literatura
Subscrever:
Mensagens (Atom)




















.jpg)
