(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)
11 fevereiro 2010
152 anos da primeira “aparição” de Lourdes (1858)
O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara [...] a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século [dezoito], dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.
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09 fevereiro 2010
Ensinamentos das religiões
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 323)
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07 fevereiro 2010
532 anos do nascimento de Thomas More (1478)
Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
— E que tragédia acreditar nela!
— E que tragédia acreditar nela!
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 288, p. 276)
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06 fevereiro 2010
402 anos do nascimento de Padre António Vieira (1608)
Imperador da língua portuguesa,
(Fernando Pessoa, “António Vieira”, Mensagem, Terceira Parte, II, p. 175)
03 fevereiro 2010
522 anos do desembarque de Bartolomeu Dias na Aguada de São Brás (Mossel Bay) após dobrar o Cabo das Tormentas, ou da Boa Esperança (1488)
O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IV, pp. 133–135)
01 fevereiro 2010
102 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)
A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
O Regicídio, e, depois, a Revolução, foram os dois fenómenos que chamaram sobre nós, embora imperfeitamente, a atenção do estrangeiro. Quer dizer: em vez de desconhecidos, passámos a ser mal conhecidos. Antes, nada se sabia de nós; passaram a saber-se de nós coisas inteiramente falsas. O conhecimento que o estrangeiro tem de nós oscila entre o nada e o erro.
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, pp. 83–84)
O Regicídio, e, depois, a Revolução, foram os dois fenómenos que chamaram sobre nós, embora imperfeitamente, a atenção do estrangeiro. Quer dizer: em vez de desconhecidos, passámos a ser mal conhecidos. Antes, nada se sabia de nós; passaram a saber-se de nós coisas inteiramente falsas. O conhecimento que o estrangeiro tem de nós oscila entre o nada e o erro.
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 175, p. 309)
30 janeiro 2010
Educação: «competências», não «competência»
[...] assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.
(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)
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28 janeiro 2010
96 anos da criação de Ricardo Reis (1914)
O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 28* de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. [...]
* Pessoa hesita entre os dias 28 e 29.
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(Fernando Pessoa, “Ricardo Reis — Vida e Obra” in Ricardo Reis, Prosa, 94, p. 278)
* Pessoa hesita entre os dias 28 e 29.
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Ricardo Reis (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)
27 janeiro 2010
1 ano!
Este blogue faz precisamente hoje um ano.
Bem, isto não é exactamente verdade — mas, como diria Bernardo Soares, seria mórbido emprestar a isto uma realidade muito verdadeira.
Bem, isto não é exactamente verdade — mas, como diria Bernardo Soares, seria mórbido emprestar a isto uma realidade muito verdadeira.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 209, p. 215)

Fernando Pessoa com cerca de 1 ano de idade
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 17)
25 janeiro 2010
Religiosidade
No fundo, o homem religioso é um hedonista. O instinto religioso das massas é um instinto de prazer, de ter tudo resolvido na vida. Deter-se só perante a Verdade é doloroso para o homem. A Realidade é muda e fria.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 50)
23 janeiro 2010
O sentido do mundo
Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.
(Bernardo Soares, “Viagem nunca Feita”, Livro do Desassossego, p. 481)
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20 janeiro 2010
68 anos da adopção da “Solução Final para o Problema Judaico” (1942)
E se houver outros que faltem, procurem-nos aí p’ra um canto!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
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17 janeiro 2010
17 Jan 1945: O Exército Vermelho “liberta” Varsóvia do domínio Nazi
E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...
(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)
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15 janeiro 2010
Ciência e Fé
Se a ciência não pode consolar,
Não busquemos consolo.
Não peçamos à fé que seja certa
Mas só que seja nossa.
Não busquemos consolo.
Não peçamos à fé que seja certa
Mas só que seja nossa.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 509)
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14 janeiro 2010
12 janeiro 2010
579 anos do início do julgamento de Joana d’Arc por bruxaria (1431)
Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
[...]
Bruxa de boa intenção...
[...]
Minha Joana de Arc sem pátria!
[...]
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
[...]
Bruxa de boa intenção...
[...]
Minha Joana de Arc sem pátria!
[...]
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!
(Álvaro de Campos, “Carry Nation”, Poesia, 123, pp. 399–400)
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07 janeiro 2010
685 anos da morte de D. Dinis (1325)
D. DINIS
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 93)
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01 janeiro 2010
Ano Novo
Ficção de que começa alguma coisa!
(Fernando Pessoa, “Ano Novo”, Poesia (1918–1930), p. 187)
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