10 junho 2010

... de Camões...

Camões é Os Lusíadas. O lírico, em que os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico.

Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene — e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens —, distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeias, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica.

(Fernando Pessoa, “Luís de Camões”, Crítica, p. 215)

... e das Comunidades Portuguesas

Cartoon de Ricardo Campos


(Fernando Pessoa, “Entrevista sobre a Arte e a Literatura Portuguesas”, Crítica, p. 195)

O passado mitificado

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 92, p. 121)

Pátria

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,

(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)

Nevoeiro

Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
[...]
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

07 junho 2010

O endividamento pessoal numa só lição

[...] Dirigi-me para a repartição de João Correia de Oliveira para lhe pedir 5000 réis para devolver ao Mayer os 1500 reis para pequenas despesas. [...]

(Fernando Pessoa, Diário de 18–02–1913,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 110)

04 junho 2010

4 de Junho de 1940: Fim da retirada de Dunquerque

Olhemos bem para estes inimigos. Mas há quem tenha coragem de os combater? Duvido. [...]

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, p. 231)

01 junho 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Junho de 2010

Calendário pessoano do mês de Junho de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 maio 2010

510 anos da morte de Bartolomeu Dias (1500)

EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS


Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, V, p. 137)

28 maio 2010

84 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926

Vindos [os republicanos] ao poder, e posta em prática a sua pseudo-reforma, viu logo o país que a abolição da Monarquia não tinha abolido a política monárquica, porque a imoralidade e o caciquismo continuaram. Era a adaptação dos recém-vindos ao meio governativo. Em um país imoral não se pode governar senão imoralmente. É de ordem biológica a razão. [...]

E vendo isto, o país, que é estúpido, virou-se contra os homens da República. É que o país tem a mentalidade dos idiotas e queria milagres. Supunham os portugueses que uma revolução traz benefícios; e supunham bem; mas supunham que os traz logo no dia seguinte [...]. Aquelas mentalidades ainda estavam no milagre. Incapazes de pensar cientificamente, não meditaram que o que se segue a uma revolução é a anarquia, anarquia tão profunda quanto o foi a tirania que a precedeu, e contra a qual reagiu essa revolução; e que só depois de ter passado o período anárquico da revolução é que lentamente chega o período das reformas, para o qual, afinal, a revolução foi instintivamente feita. [...]

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 98, p. 245)

26 maio 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Pedro Sousa Pereira para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)

25 maio 2010

590 anos da nomeação do Infante D. Henrique (“o Navegador”) como Grão-Mestre da Ordem de Cristo (1420)

A CABEÇA DO GRIFO:
O INFANTE D. HENRIQUE


Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 117)

22 maio 2010

197 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)

Os românticos tentaram juntar. Os interseccionistas procuram fundir. Wagner queria música + pintura + poesia. Nós queremos música x pintura x poesia.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 134, p. 260)

20 maio 2010

1685 anos do início do I Concílio de Niceia, que adoptaria os primeiros dogmas do Cristianismo (325 DC)

Princípios absolutos, e por isso falsos; ridículos e por isso inestéticos

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 55)

18 maio 2010

Início das festividades de Pã, na Grécia Antiga

O deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres —
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.

Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 2, pp. 29–30)

16 maio 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de João Pestana

14 maio 2010

62 anos da Fundação do Estado de Israel (1948)

Os judeus têm ganha a primeira batalha;

(Álvaro de Campos, “Entrevista a Álvaro de Campos”, Prosa Publicada em Vida, p. 346)

13 maio 2010

93 anos da primeira “aparição” de Fátima (1917)

Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes... eu bebia aguardente.

Um momento... Não é nada disso... Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento, e é com o pensamento que desejo escrever.

Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa. Nesse lugar — em um ou no outro — ou perto de qualquer deles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda a gente sabe, um dos privilégios infinitos a que se não parte a corda. Assim diz a voz do povo da província e A Voz sem povo de Lisboa. Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e A Voz da cidade de há muito substituíram aquelas velharias democráticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado. Depois de terem passado os últimos rastros do a que o sr. Léon Daudet chamou «o estúpido século dezanove» — embora seu pai houvesse florescido e o mesmo Léon nascido em plena estupidez —, as normas do pensamento e da verificação voltaram à sua normalidade medieval; e assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara — e no estúpido etc! — a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século ante-estúpido (o dezoito), dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.

Seja como for, o facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços mais em conta; há peregrinações que dispensam o comboio (criação do estúpido etc!), e quando, de vez em quando essa reminiscência da Idade Média — a camionete — se volta e alguém morre, há sempre o Diabo a quem acusar — diabolis ex machina —, quando se não queira, por um critério mais objectivo e científico (vide Alfredo Pimenta) reconhecer verdadeiros culpados a magos e bruxos que, como toda a gente sabe, formam o grosso da Maçonaria e da Associação do Registo Civil.

O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto êxtase místico da parte de hotéis, estalagens e outro comércio desses jeitos — o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo — não vão eles lembrar-se de o seguir! Com efeito diz-se no Evangelho [de Mateus 6:31–33], cuidando-se de bens materiais, «Buscai-vos o Reino de Deus e todas essas coisas vos serão acrescentadas».

É certo que quem vai a Fátima não vai lá buscar o Reino de Deus, mas o da Nossa Senhora da região — aquela em que está aberto vinho novo. Deus, como se sabe, foi já substituído, sendo o Céu agora governado em regime soviético. Nossa Senhora — a de Lourdes e (ou) a de Fátima — é (place aux femmes!) Comissária do Povo da Saúde Pública. Daí as curas na policlínica da Cova da Iria.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, pp. 274–277)

11 maio 2010

Visita do Papa Bento XVI a Portugal

O que a Igreja de Roma pensa ou deixa de pensar não interessa ao Estado português, pois que está ainda em vigor a Lei de Separação, e as bulas ou encíclicas do Papa não são leis do País.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 135, p. 409)

07 maio 2010

70 anos da Concordata entre o Estado Novo e a Santa Sé (1940)

E a fé dos nossos maiores?
Forma-a, impoluta, o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude,
Já não pode haver divórcio.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 411)

06 maio 2010

154 anos do nascimento de Sigmund Freud (1856)

[...] A psiquiatria nota, com efeito, que a desagregação psíquica é quase sempre acompanhada pelo desvio sexual. Quase sempre? A mais recente das teorias psiquiátricas diz que sempre. Freud e os seus discípulos, através da «psicanálise», afirmam a origem sexual de todas as psicoses. Justa ou não esta doutrina extrema, o certo é que a sexualidade domina os factos psíquicos tanto, se não mais, que os físicos; e que a sua importância notavelmente se vê quando se analisam as manifestações mentais de um louco ou de um degenerado.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, V, 2, pp. 91–92)

04 maio 2010

Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC)

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

(Álvaro de Campos, “Pecado Original”, Poesia, 180, p. 483)

01 maio 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Maio de 2010

Calendário pessoano do mês de Maio de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 abril 2010

77 anos da morte de Constantino Cavafis (1933)

fotograma
Imagem do filme
A noite em que Fernando Pessoa
conheceu Constantino Cavafis

(Τη νύχτα που ο Φερνάντο Πεσσόα
συνάντησε τον Κωνσταντίνο Καβάφη
, 2007)
Realizador: Stelios Haralambopoulos
Fernando Pessoa: Dimitris Oikonomidis

26 abril 2010

Dia Mundial da Propriedade Intelectual

A UM PLAGIÁRIO

Copiaste? Fizeste bem.
Copia mais, sem canseira,
Copia, pilha, retém.
É a única maneira
De não escreveres asneira.

(Joaquim Moura Costa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 172, p. 218)

25 abril 2010

36 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974, fim do regime do Estado Novo

Passai, bolor do Novo, mercadoria em mau estado desde o cérebro de origem!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 283)

23 abril 2010

394 anos da morte de William Shakespeare (1616) e, talvez, 446 anos do seu nascimento (1564)*

Uma torva e peçonhenta maldade — maldade excessiva mesmo para o coração, tão de ofício viperino, de um editor — levou os srs. Lello & Irmão, não sei [por que] azar póstumo de Shakespeare, a escolher para vítima prolongada aquela, a maior de todas as almas que se têm enganado de mundo. Decidiram fazer passar a Shakespeare tratos de tradutor. E como encontrassem vis e criminosos precedentes, em ambos os lugares onde há más fadas, para que, sem ousadia de originalidade, neles alicerçassem o seu grande crime, escolheram para mestre de obras a figura, doravante laivada de perversão, do dr. Domingos Ramos. [...]

(Fernando Pessoa, “Petição a favor de William Shakespeare, traduzido”, Pessoa Inédito, 93, p. 221)



* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor espanhol morreu 10 dias antes do inglês.

Dia Mundial do Livro

Fernando Pessoa totalmente rodeado de livros
«Para ser grande, sê inteiro...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Ricardo Reis, Poesia, II, 136, p. 130)

22 abril 2010

510 anos da Descoberta do Brasil (1500)

E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)

20 abril 2010

126 anos da Encíclica Humanum Genus (Leão XIII), condenando a Maçonaria (1884)

A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 383)

18 abril 2010

59 anos do Tratado de Paris (1951), embrião da União Europeia

A Europa está farta de não existir ainda! [...]
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 285)

16 abril 2010

7 anos do Tratado de Adesão à União Europeia de 10 novos países

[...] um polaco ou checo, ou qualquer coisa sem Europa nem vogais [...]

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)

121 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)

Alberto Caeiro (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)


Carta astral de Alberto Caeiro,
manuscrita por Fernando Pessoa*


* Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)

13 abril 2010

Decadência absoluta

Isto está tudo decadente: já nem decadentes há.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 24)

12 abril 2010

806 anos do saque de Constantinopla pelos Cruzados (1204)

Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24h, pp. 175–176)

11 abril 2010

77 anos da entrada em vigor da Constituição de 1933 (Estado Novo)

A República pragmática
Que hoje temos já não é
A meretriz democrática.
Como deixou de ser pública
Agora é somente Ré.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 383)

09 abril 2010

92 anos da Batalha de La Lys (1918)

Caeiro morto
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

07 abril 2010

Dia Mundial da Saúde

Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.

O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”, entre XIX e XX, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 69)

05 abril 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Luís Silva

02 abril 2010

Dia Internacional do Livro Infantil

Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de coisas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser. Assim, João de Deus não escreveu a Enjeitadinha senão com o escrúpulo de ser simples. E porque o assunto era também simples, as crianças compreendem-no. Se quisesse ser infantil, acontecia-lhe isto — seria infantil. O sr. Lopes Vieira quer escrever para crianças mediante intuição da alma infantil, como uma criança, escrevendo para crianças. Mesmo que se saísse bem disto, não se saía bem disto. Porque as crianças não escrevem. Escrever como uma criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve, ou não se publica, ou se publica para adultos, psicólogos. E que interesse tem para crianças esta baba pedagógica? [...]

(Fernando Pessoa, “Naufrágio de Bartolomeu”, Crítica, p. 78)

01 abril 2010

Dia das Mentiras

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

(Fernando Pessoa, Quadras, I, 111, p. 38)



Tenho escrito mais versos que verdade.

(Álvaro de Campos, Poesia, 144, p. 434)

Pessoa, sempre — todos os dias: Abril de 2010

Calendário pessoano: Abril de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 março 2010

(I)moralidade

O que você acrescenta sobre os deveres morais podia tornar-se extensivo aos deveres imorais. Chegámos a um ponto da civilização em que há tais exigências de imoralidade que de aqui a pouco toda a gente é decente por falta de espírito de sacrifício.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 136)

27 março 2010

Dia Mundial do Teatro

Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui acção — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a acção nem a progressão e consequência da acção — mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações [...] Pode haver revelação de almas sem acção, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, V, 5, p. 112)

25 março 2010

Anunciação de Fernando Pessoa

'Pessoa-Anjo'
José João Brito (1983–1990)
sem título, objecto (madeira)

23 março 2010

Religião

A religião é uma metafísica recreativa.

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)

Ateísmo

Não haver deuses é um deus também.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 12)

Conselho aos ateus militantes

Não se deve ir abalar a crença a um ignorante. Deve-se instruí-lo. A instrução lhe abalará a crença. E se não lha abalar é que ela está ainda arreigada de mais para poder ser abalada. Fica para outra geração.

É mesmo duvidoso se se deva proibir o ensino religioso. Deve criar-se uma atmosfera de cultura científica que o vá lentamente fazer caducar.

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)

21 março 2010

Dia Mundial da Árvore

«O Guardador de Rebanhos»
Pintura de Gaudenzio Nazario (1994)

20 março 2010

7 anos do início da invasão americana do Iraque (2003)

Si vis bellum, para pacem.

[Se queres a guerra, prepara-te para a paz.]

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 267, p. 423; original em latim)

19 março 2010

77 anos do “plebiscito” à Constituição de 1933 (Estado Novo)

Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim:
Art. 1. António de Oliveira Salazar é Deus.
Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia.

Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo — a Teocracia pessoal.

[...]

Miserrimam servitutem pacem appelant.*


(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 223, p. 367)


* Pedem uma paz misérrima de servidão.

18 março 2010

696 anos da execução de Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários (1314)

[...] Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos — a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

(Fernando Pessoa, “Nota Biográfica”, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 135)

16 março 2010

Iconografia pessoana

«Atenção Obras» (1985)
Pintura de José João Brito (1983–1990)

14 março 2010

518 anos da ordem de expulsão dos judeus e muçulmanos de Espanha (1492)

[...] A única inquisição que há hoje é a estupidez...

(Fernando Pessoa, “5 Diálogos”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 75, p. 331)

11 março 2010

6 anos dos ataques terroristas islâmicos em Madrid (2004)

[...] não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba [...] que estoira
Em sangue e carne e alma [...]

(Álvaro de Campos, Poesia, 34, p. 253)

08 março 2010

Dia Internacional da Mulher

[...] place aux femmes! [...]

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 277)

8 de Março de 1914: «o dia triunfal da minha vida» (F. Pessoa)

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)

Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 —, acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, «O Guardador de Rebanhos». E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a «Chuva Oblíqua», de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a «Ode Triunfal» de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, pp. 342–344)


Nota: Num outro documento, Fernando Pessoa apresenta uma cronologia ligeiramente diferente: Alberto Caeiro ter-se-ia manifestado pela primeira vez a 13 de Março de 1914.

Iconografia pessoana

Os três heterónimos:
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

06 março 2010

89 anos do Partido Comunista Português (1921)

O bolchevismo (entendendo por bolchevismo o sindicalismo revolucionário e o comunismo, e não só este último) é um fenómeno reaccionário e religioso. Nada tem de propriamente social, nem podia ter, porque, se o tivesse, não o poderiam adoptar as plebes, incapazes de outra coisa que não de religião.
E fácil provar o carácter reaccionário do bolchevismo, como é fácil provar o seu carácter religioso — mais fácil ainda.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 62, p. 85)

04 março 2010

Dia Mundial da Matemática

O que é preciso é cada um multiplicar-se por si próprio.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 15)

616 anos do nascimento do Infante D. Henrique (1394)

O INFANTE


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, I, p. 127)

02 março 2010

O tédio e as certezas

O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. [...] Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 263, p. 260)

01 março 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Março de 2010

Calendário pessoano: Março de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

27 fevereiro 2010

Arte e patriotismo

Em arte tudo é lícito, desde que seja superior. Não é permitido ao homem vulgar ser antipatriota, porque não tem mentalidade acima da espécie, e a não pode ter pois acima da espécie imediata, que é a nação a que pertence. Ao génio é permitido. Sucede, por ironia, que os grandes génios são em geral conformes com os sentimentos normais: Shakespeare era intensamente, até excessivamente, patriota.

Um génio antipatriota é um fenómeno, não direi vulgar, mas aceitável. Um operário antipatriota é simplesmente uma besta.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 11, p. 130)

24 fevereiro 2010

Incompetência e Corrupção

E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados p’ra baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Se não querem sair, fiquem e lavem-se!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

21 fevereiro 2010

Dia Internacional da Língua Materna

Minha pátria é a língua portuguesa.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 259, p. 255)

85 anos da publicação do primeiro número da revista The New Yorker (1925)

livros: Flaubert, Pessoa, Mann, Prévert, García Lorca, E. A. Poe
Ilustração de Benoît van Innis
para a revista The New Yorker

162 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.

O comunismo não é uma doutrina porque é uma anti-doutrina, ou uma contra-doutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 50, pp. 141–142)

18 fevereiro 2010

464 anos da morte de Martinho Lutero (1546)

A mais nítida obra civilizacional alemã do passado foi a Reforma. [...]

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 29, p. 202)

16 fevereiro 2010

Carnaval

Escultura de António

14 fevereiro 2010

Dia dos Namorados

[...] decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 22)


Pessoa com coração no colarinho
Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

Amor

Love is a mortal sample of immortality.

[ O amor é uma amostra mortal da imortalidade. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 45
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal,
comunicação mediúnica n.º 74, p. 326; em inglês no original)


Aimer c’est s’y méprendre.

[ Amar é equivocar-se. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 46; em francês no original)

Amor à dobrada

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?

(Álvaro de Campos, “Dobrada à moda do Porto”, Poesia, 198, p. 510)

11 fevereiro 2010

152 anos da primeira “aparição” de Lourdes (1858)

O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara [...] a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século [dezoito], dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)

09 fevereiro 2010

Ensinamentos das religiões

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 323)

07 fevereiro 2010

532 anos do nascimento de Thomas More (1478)

Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!...
— E que tragédia acreditar nela!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 288, p. 276)

Iconografia pessoana

Fachada da Embaixada Portuguesa
em Sófia (Bulgária)

06 fevereiro 2010

402 anos do nascimento de Padre António Vieira (1608)

Imperador da língua portuguesa,

(Fernando Pessoa, “António Vieira”, Mensagem, Terceira Parte, II, p. 175)

03 fevereiro 2010

522 anos do desembarque de Bartolomeu Dias na Aguada de São Brás (Mossel Bay) após dobrar o Cabo das Tormentas, ou da Boa Esperança (1488)

O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IV, pp. 133–135)

01 fevereiro 2010

102 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, pp. 83–84)



O Regicídio, e, depois, a Revolução, foram os dois fenómenos que chamaram sobre nós, embora imperfeitamente, a atenção do estrangeiro. Quer dizer: em vez de desconhecidos, passámos a ser mal conhecidos. Antes, nada se sabia de nós; passaram a saber-se de nós coisas inteiramente falsas. O conhecimento que o estrangeiro tem de nós oscila entre o nada e o erro.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 175, p. 309)

Pessoa, sempre — todos os dias: Fevereiro de 2010

Calendário pessoano: Fevereiro de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 janeiro 2010

Educação: «competências», não «competência»

[...] assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)

28 janeiro 2010

96 anos da criação de Ricardo Reis (1914)

O Dr. Ricardo Reis nasceu dentro da minha alma no dia 28* de Janeiro de 1914, pelas 11 horas da noite. Eu estivera ouvindo no dia anterior uma discussão extensa sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna. Segundo o meu processo de sentir as coisas sem as sentir, fui-me deixando ir na onda dessa reacção momentânea. Quando reparei em que estava pensando, vi que tinha erguido uma teoria neoclássica, e que a ia desenvolvendo. Achei-a bela e calculei interessante se a desenvolvesse segundo princípios que não adopto nem aceito. [...]

(Fernando Pessoa, “Ricardo Reis — Vida e Obra” in Ricardo Reis, Prosa, 94, p. 278)


* Pessoa hesita entre os dias 28 e 29.


foto
Ricardo Reis (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

27 janeiro 2010

1 ano!

Este blogue faz precisamente hoje um ano.

Bem, isto não é exactamente verdade — mas, como diria Bernardo Soares, seria mórbido emprestar a isto uma realidade muito verdadeira.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 209, p. 215)


foto
Fernando Pessoa com cerca de 1 ano de idade


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 17)

25 janeiro 2010

Religiosidade

No fundo, o homem religioso é um hedonista. O instinto religioso das massas é um instinto de prazer, de ter tudo resolvido na vida. Deter-se só perante a Verdade é doloroso para o homem. A Realidade é muda e fria.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 50)

23 janeiro 2010

O sentido do mundo

Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.

(Bernardo Soares, “Viagem nunca Feita”, Livro do Desassossego, p. 481)

20 janeiro 2010

68 anos da adopção da “Solução Final para o Problema Judaico” (1942)

E se houver outros que faltem, procurem-nos aí p’ra um canto!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

17 janeiro 2010

17 Jan 1945: O Exército Vermelho “liberta” Varsóvia do domínio Nazi

E ficou tudo na mesma, tendo a mais só os alemães a menos...

(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)

15 janeiro 2010

Ciência e Fé

Se a ciência não pode consolar,
Não busquemos consolo.

Não peçamos à fé que seja certa
Mas só que seja nossa.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 509)

14 janeiro 2010

Iconografia pessoana

José de Guimarães
série Pessoas em papel

12 janeiro 2010

579 anos do início do julgamento de Joana d’Arc por bruxaria (1431)

Não uma santa estética, como Santa Teresa,
Não uma santa dos dogmas,
Não uma santa.
Mas uma santa humana, maluca e divina,
Materna, agressivamente materna,
Odiosa, como todas as santas,
Persistente, com a loucura da santidade.
Odeio-a e estou de cabeça descoberta
E dou-lhe vivas sem saber porquê!
[...]
Bruxa de boa intenção...

[...]

Minha Joana de Arc sem pátria!
[...]
Estúpida como todas as santas
E militante como a alma que quer vencer o mundo!

(Álvaro de Campos, “Carry Nation”, Poesia, 123, pp. 399–400)

07 janeiro 2010

685 anos da morte de D. Dinis (1325)

D. DINIS


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 93)

01 janeiro 2010

Ano Novo

Ficção de que começa alguma coisa!

(Fernando Pessoa, “Ano Novo”, Poesia (1918–1930), p. 187)

Pessoa, sempre — todos os dias: Janeiro de 2010

Calendário pessoano: Janeiro de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.


Legenda:


Dias úteis
(Fernando Pessoa)

Sábados normais
(Álvaro de Campos)

Domingos normais
(Alberto Caeiro)

Feriados civis
(Bernardo Soares)

Feriados religiosos
(Ricardo Reis)

Aniversário de Fernando Pessoa* (busto)
Ano novo
(Fernando Pessoa com chapéu de festa)
Carnaval
(Fernando Pessoa com chapéu de festa)

* Coincide com o Dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa e Vila Real (a nossa cidade), entre outros concelhos.

30 dezembro 2009

144 anos do nascimento de Rudyard Kipling (1865)

Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

25 dezembro 2009

Natal

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

(Fernando Pessoa, “Natal”, Poesia (1918–1930), p. 184)

24 dezembro 2009

485 anos da morte de Vasco da Gama (1524)

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA


Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IX, p. 145)

20 dezembro 2009

10 anos do regresso de Macau à soberania chinesa (1999)

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

18 dezembro 2009