30 julho 2010

112 anos da morte de Otto von Bismarck (1898)

Os estadistas de primeira ordem, como Bismarck ou Cromwell, governaram sempre contra a opinião pública. Os estadistas de segunda ordem, como Napoleão, governaram sempre com ela.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 58, p. 286)

28 julho 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Gilmar Fraga

27 julho 2010

40 anos da morte de Salazar (1970)

Salazar
Um cadáver emotivo
, artificialmente galvanizado por uma propaganda...

Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística dessa gente.
Soma, e não segue.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 221, p. 365)

25 julho 2010

Proxeneta

Ganhando o pão da sua noite com o suor da fronte dos outros

(Álvaro de Campos, Poesia, 106, p. 373)

22 julho 2010

Dia da Aproximação do Pi (22/7 ≈ 3,142857143)

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

19 julho 2010

595 anos da morte de D. Filipa de Lencastre (1415)

D. FILIPA DE LENCASTRE


Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 97)

18 julho 2010

Igreja Católica atribui a mesma gravidade à pedofilia e à ordenação de mulheres como padres

Maldita seja em toda a parte
A Igreja Católica
Maldita seja, com arte ou sem arte,
A Igreja Católica
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aliviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a Igreja Católica.

Maldita seja, de rabo à vela,
A Igreja Católica
De toda retrete que seja capela
A Igreja Católica
Há só duas coisas a fazer para aquela
Igreja Católica
Cagar p’ra ela e mijar p’ra ela
Para a Igreja Católica.

Caguemos pois e tudo junto
Para a Igreja Católica
Até que o caso dê assunto
À Igreja Católica
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A Igreja Católica.

(Joaquim Moura Costa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 177, pp. 221–222.)



Notícia relacionada:
«Ordenamento de mulheres é crime a par da pedofilia para o Vaticano» (Público, 16/07/2010)

16 julho 2010

16 Jul. 622: Fuga de Maomé de Meca para Medina (Hégira, início do Calendário Islâmico)

[...] dada a ingenuidade da sua visão, era natural que caísse[] no erro egocêntrico comum a todos os profetas que profetizam com intenção.

(Fernando Pessoa, “Bandarra”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 41, p. 147)

Profecias

A existência do dom de profecia é afirmada por muitos e negada por muitos. Na maioria dos casos, ou a linguagem profética é tão obscura que dela se pode fazer aplicação a qualquer facto, ou a abundância de pormenores é tão grande que dificilmente se encontrará um facto a que um ou outro dos pormenores se não possa ajustar. De sorte que o problema fundamental fica na mesma. Os que afirmam a existência do dom profético apontam o facto justificativo; os que lhe negam a existência apontam que qualquer facto, ainda que fosse contrário do que se deu, serviria igualmente, e portanto com igual inutilidade, de justificação.

(Fernando Pessoa, Crítica, p. 530)

14 julho 2010

221 anos da Revolução Francesa (1789)

Nenhuma nação se pode transformar senão em várias gerações. As revoluções nada transformam, apenas trazem a transformação. A Revolução Francesa atrasou o povo francês perto de cinquenta anos; o seu único produto visível mais próximo foi (curiosa ironia) meramente literário, e, ainda assim, o romantismo francês, primeira obra positiva da Revolução, surgiu, antes de mais nada e apesar de sofrendo da indisciplina mental que essa revolução causou, como reacção contra essa Revolução.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, pp. 113–114)

11 julho 2010

Iconografia pessoana

«O Teatro íntimo do ser»
Pintura de Miguel Yeco (1986)

08 julho 2010

8 Jul. 1099: 15 000 Cruzados marcham em procissão em redor de Jerusalém para obter ajuda divina na conquista da cidade.

Apossar-te-ás do Império; dominarás em todo o Orbe e os muros de Jerusalém cairão debaixo dos teus ceptros.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 31, p. 141)

05 julho 2010

05 de Julho de 1932: Salazar, o “Ditador da Finanças”, assume a chefia do Governo

O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias da inteligência e da vontade. É o tipo do perfeito executor das ordens de quem tenha as primárias.

O chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Tudo quanto faz se ressente dessa penumbra dos Reis malogrados.

Quando muito, na escala da governação pública, poderia ser o mordomo do país.

[...]

O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?

A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente, a alma portuguesa.

Às vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório.

É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa.

O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não deve governar-se por contabilidade.

Assistimos à cesarização de um contabilista.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 222, p. 366)

01 julho 2010

Dia das Bibliotecas

«A Biblioteca»
Pintura de Alfredo Margarido (1988)

Pessoa, sempre — todos os dias: Julho de 2010

Calendário pessoano do mês de Julho de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 junho 2010

105 anos da publicação do artigo “On the Electrodynamics of Moving Bodies”, de Albert Einstein (1905)

[...] Convém ainda avisar esses mesmos leigos que a expressão «relatividade» é aqui empregada no seu sentido tradicional e lógico, e não no sentido, aliás infeliz e absurdo, em que se chama «da relatividade» à teoria de Einstein, que é simplesmente uma teoria, primeiro restrita, depois generalizada, do movimento relativo.

(Álvaro de Campos, “O que é a Metafísica?”, Crítica, p. 232)

27 junho 2010

105 anos da Revolta do Couraçado Potemkin (1905)*

Every reverse and disaster of the Russian army or navy is in such a way made the subject of a jest among us, that we seem to have nothing more amusing. Some of the Russian admirals, even after their death or their capture, have caused us outbursts of sniggering. The Czar himself, when dismayed by revolution and by war, and when in distress and in grief over his armies, appears to be taken by the British people as an animate joke of great value.

To us, Englishmen, of all men the most egotistic, the thought has never occurred that misery and grief ennoble, despicable and self-caused though they be. A drunken woman reeling through the streets is a pitiable sight. The same woman falling awkwardly in her drunkenness is, mayhap, an amusing spectacle. But this very same woman, drunken and awkward though she be, when weeping the death of her child is no contemptible nor ridiculous creature, but a tragic figure as great as your Hamlets and your King Lears.


(Charles Robert Anon, Carta ao “Natal Mercury”, 07–07–1905,
Correspondência (1905–1922), 1, pp. 13–14; em inglês no original)


[ Cada revés e cada desastre do exército ou da armada russos foram de tal modo objecto de chacota entre nós, que parece que não achamos nada mais divertido. Alguns almirantes russos, mesmo depois da sua morte ou captura, fizeram-nos explodir em apupos. O próprio Czar, quando desencorajado pela revolução e pela guerra, e quando em grande sofrimento e dor por causa dos seus exércitos, parece ser tomado pelo povo britânico como uma piada muito divertida.

A nós, ingleses, os mais egocêntricos de todos os homens, nunca ocorreu a ideia de que a infelicidade e a dor enobrecem, por mais desprezíveis e auto-infligidas que sejam. Uma mulher embriagada cambaleando pelas ruas é um espectáculo digno de pena. A mesma mulher, se cair desajeitadamente no seu estado de embriaguez, talvez seja um espectáculo divertido. Mas esta mesma mulher, por mais desajeitada e embriagada que esteja, quando chora a morte de um filho, não é uma criatura desprezível e ridícula, mas sim uma figura trágica, tão grande como os vossos Hamlets e os vossos Reis Lears. ]


(p. 15; trad. Manuela Parreira da Silva, com alterações)


* 14 de Junho, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.

24 junho 2010

882 anos da Batalha de São Mamede (1128)

D. TAREJA


As nações todas são mistérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós!

Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza!

Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 89)

22 junho 2010

70 anos da capitulação da França perante a Alemanha Nazi (1940)

Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

19 junho 2010

Vuvuzelas

Aquilo que vem torturar a calma

(Álvaro de Campos, Poesia, 192, p. 501)

18 junho 2010

16 junho 2010

106 anos da Odisseia de um dia de Leopold Bloom (1904)

ULISSES


O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 83)

13 junho 2010

122 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)

Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)


Assinatura de Fernando Pessoa


Carta astral de Fernando Pessoa,
feita pelo próprio

Fernando Pessoa, ele mesmo

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.

(Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 101)

10 junho 2010

Dia de Portugal...

O POVO PORTUGUÊS


Talvez que seu coração
Dorme na passividade
De viver só na saudade
Numa saudosa ilusão.

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 49)

... de Camões...

Camões é Os Lusíadas. O lírico, em que os inferiores focam a admiração que os denota inferiores, era, como em outros épicos de sensibilidade também notável, apenas a excedência inorgânica do épico.

Não ocupa Os Lusíadas um lugar entre as primeiras epopeias do mundo; só a Ilíada, a Divina Comédia e o Paraíso Perdido ganharam essa elevação. Pertencendo, porém, à segunda ordem das epopeias, como a Jerusalém Libertada, o Orlando Furioso, a Faerie Queene — e, em certo modo, a Odisseia e a Eneida, que participam das duas ordens —, distingue-se Os Lusíadas não só destas epopeias, suas pares, senão também daquelas, suas superiores, em que é directamente uma epopeia histórica.

(Fernando Pessoa, “Luís de Camões”, Crítica, p. 215)

... e das Comunidades Portuguesas

Cartoon de Ricardo Campos


(Fernando Pessoa, “Entrevista sobre a Arte e a Literatura Portuguesas”, Crítica, p. 195)

O passado mitificado

Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 92, p. 121)

Pátria

Prefiro rosas, meu amor, à pátria,

(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)

Nevoeiro

Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
[...]
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

07 junho 2010

O endividamento pessoal numa só lição

[...] Dirigi-me para a repartição de João Correia de Oliveira para lhe pedir 5000 réis para devolver ao Mayer os 1500 reis para pequenas despesas. [...]

(Fernando Pessoa, Diário de 18–02–1913,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 110)

04 junho 2010

4 de Junho de 1940: Fim da retirada de Dunquerque

Olhemos bem para estes inimigos. Mas há quem tenha coragem de os combater? Duvido. [...]

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, p. 231)

01 junho 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Junho de 2010

Calendário pessoano do mês de Junho de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 maio 2010

510 anos da morte de Bartolomeu Dias (1500)

EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS


Jaz aqui, na pequena praia extrema,
O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,
O mar é o mesmo: já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, V, p. 137)

28 maio 2010

84 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926

Vindos [os republicanos] ao poder, e posta em prática a sua pseudo-reforma, viu logo o país que a abolição da Monarquia não tinha abolido a política monárquica, porque a imoralidade e o caciquismo continuaram. Era a adaptação dos recém-vindos ao meio governativo. Em um país imoral não se pode governar senão imoralmente. É de ordem biológica a razão. [...]

E vendo isto, o país, que é estúpido, virou-se contra os homens da República. É que o país tem a mentalidade dos idiotas e queria milagres. Supunham os portugueses que uma revolução traz benefícios; e supunham bem; mas supunham que os traz logo no dia seguinte [...]. Aquelas mentalidades ainda estavam no milagre. Incapazes de pensar cientificamente, não meditaram que o que se segue a uma revolução é a anarquia, anarquia tão profunda quanto o foi a tirania que a precedeu, e contra a qual reagiu essa revolução; e que só depois de ter passado o período anárquico da revolução é que lentamente chega o período das reformas, para o qual, afinal, a revolução foi instintivamente feita. [...]

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 98, p. 245)

26 maio 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Pedro Sousa Pereira para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)

25 maio 2010

590 anos da nomeação do Infante D. Henrique (“o Navegador”) como Grão-Mestre da Ordem de Cristo (1420)

A CABEÇA DO GRIFO:
O INFANTE D. HENRIQUE


Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 117)

22 maio 2010

197 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)

Os românticos tentaram juntar. Os interseccionistas procuram fundir. Wagner queria música + pintura + poesia. Nós queremos música x pintura x poesia.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 134, p. 260)

20 maio 2010

1685 anos do início do I Concílio de Niceia, que adoptaria os primeiros dogmas do Cristianismo (325 DC)

Princípios absolutos, e por isso falsos; ridículos e por isso inestéticos

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 55)

18 maio 2010

Início das festividades de Pã, na Grécia Antiga

O deus Pã não morreu,
Cada campo que mostra
Aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres —
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais,
Talvez um que faltava.

Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 2, pp. 29–30)

16 maio 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de João Pestana

14 maio 2010

62 anos da Fundação do Estado de Israel (1948)

Os judeus têm ganha a primeira batalha;

(Álvaro de Campos, “Entrevista a Álvaro de Campos”, Prosa Publicada em Vida, p. 346)

13 maio 2010

93 anos da primeira “aparição” de Fátima (1917)

Fátima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes... eu bebia aguardente.

Um momento... Não é nada disso... Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento, e é com o pensamento que desejo escrever.

Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa. Nesse lugar — em um ou no outro — ou perto de qualquer deles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda a gente sabe, um dos privilégios infinitos a que se não parte a corda. Assim diz a voz do povo da província e A Voz sem povo de Lisboa. Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e A Voz da cidade de há muito substituíram aquelas velharias democráticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado. Depois de terem passado os últimos rastros do a que o sr. Léon Daudet chamou «o estúpido século dezanove» — embora seu pai houvesse florescido e o mesmo Léon nascido em plena estupidez —, as normas do pensamento e da verificação voltaram à sua normalidade medieval; e assim como passou a haver «liberdades» em vez de «liberdade», assim também passou a haver crenças em vez de crença, fés em vez de fé, e vários outros plurais ainda mais singulares.

O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara — e no estúpido etc! — a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século ante-estúpido (o dezoito), dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.

Seja como for, o facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços mais em conta; há peregrinações que dispensam o comboio (criação do estúpido etc!), e quando, de vez em quando essa reminiscência da Idade Média — a camionete — se volta e alguém morre, há sempre o Diabo a quem acusar — diabolis ex machina —, quando se não queira, por um critério mais objectivo e científico (vide Alfredo Pimenta) reconhecer verdadeiros culpados a magos e bruxos que, como toda a gente sabe, formam o grosso da Maçonaria e da Associação do Registo Civil.

O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto êxtase místico da parte de hotéis, estalagens e outro comércio desses jeitos — o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo — não vão eles lembrar-se de o seguir! Com efeito diz-se no Evangelho [de Mateus 6:31–33], cuidando-se de bens materiais, «Buscai-vos o Reino de Deus e todas essas coisas vos serão acrescentadas».

É certo que quem vai a Fátima não vai lá buscar o Reino de Deus, mas o da Nossa Senhora da região — aquela em que está aberto vinho novo. Deus, como se sabe, foi já substituído, sendo o Céu agora governado em regime soviético. Nossa Senhora — a de Lourdes e (ou) a de Fátima — é (place aux femmes!) Comissária do Povo da Saúde Pública. Daí as curas na policlínica da Cova da Iria.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, pp. 274–277)

11 maio 2010

Visita do Papa Bento XVI a Portugal

O que a Igreja de Roma pensa ou deixa de pensar não interessa ao Estado português, pois que está ainda em vigor a Lei de Separação, e as bulas ou encíclicas do Papa não são leis do País.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 135, p. 409)

07 maio 2010

70 anos da Concordata entre o Estado Novo e a Santa Sé (1940)

E a fé dos nossos maiores?
Forma-a, impoluta, o consórcio
Entre os padres e os doutores.
Casados o Erro e a Fraude,
Já não pode haver divórcio.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 411)

06 maio 2010

154 anos do nascimento de Sigmund Freud (1856)

[...] A psiquiatria nota, com efeito, que a desagregação psíquica é quase sempre acompanhada pelo desvio sexual. Quase sempre? A mais recente das teorias psiquiátricas diz que sempre. Freud e os seus discípulos, através da «psicanálise», afirmam a origem sexual de todas as psicoses. Justa ou não esta doutrina extrema, o certo é que a sexualidade domina os factos psíquicos tanto, se não mais, que os físicos; e que a sua importância notavelmente se vê quando se analisam as manifestações mentais de um louco ou de um degenerado.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, V, 2, pp. 91–92)

04 maio 2010

Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC)

A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

(Álvaro de Campos, “Pecado Original”, Poesia, 180, p. 483)

01 maio 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Maio de 2010

Calendário pessoano do mês de Maio de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 abril 2010

77 anos da morte de Constantino Cavafis (1933)

fotograma
Imagem do filme
A noite em que Fernando Pessoa
conheceu Constantino Cavafis

(Τη νύχτα που ο Φερνάντο Πεσσόα
συνάντησε τον Κωνσταντίνο Καβάφη
, 2007)
Realizador: Stelios Haralambopoulos
Fernando Pessoa: Dimitris Oikonomidis

26 abril 2010

Dia Mundial da Propriedade Intelectual

A UM PLAGIÁRIO

Copiaste? Fizeste bem.
Copia mais, sem canseira,
Copia, pilha, retém.
É a única maneira
De não escreveres asneira.

(Joaquim Moura Costa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 172, p. 218)

25 abril 2010

36 anos da Revolução de 25 de Abril de 1974, fim do regime do Estado Novo

Passai, bolor do Novo, mercadoria em mau estado desde o cérebro de origem!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 283)

23 abril 2010

394 anos da morte de William Shakespeare (1616) e, talvez, 446 anos do seu nascimento (1564)*

Uma torva e peçonhenta maldade — maldade excessiva mesmo para o coração, tão de ofício viperino, de um editor — levou os srs. Lello & Irmão, não sei [por que] azar póstumo de Shakespeare, a escolher para vítima prolongada aquela, a maior de todas as almas que se têm enganado de mundo. Decidiram fazer passar a Shakespeare tratos de tradutor. E como encontrassem vis e criminosos precedentes, em ambos os lugares onde há más fadas, para que, sem ousadia de originalidade, neles alicerçassem o seu grande crime, escolheram para mestre de obras a figura, doravante laivada de perversão, do dr. Domingos Ramos. [...]

(Fernando Pessoa, “Petição a favor de William Shakespeare, traduzido”, Pessoa Inédito, 93, p. 221)



* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor espanhol morreu 10 dias antes do inglês.

Dia Mundial do Livro

Fernando Pessoa totalmente rodeado de livros
«Para ser grande, sê inteiro...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Ricardo Reis, Poesia, II, 136, p. 130)

22 abril 2010

510 anos da Descoberta do Brasil (1500)

E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te queria descobrir!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)

20 abril 2010

126 anos da Encíclica Humanum Genus (Leão XIII), condenando a Maçonaria (1884)

A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 383)

18 abril 2010

59 anos do Tratado de Paris (1951), embrião da União Europeia

A Europa está farta de não existir ainda! [...]
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 285)

16 abril 2010

7 anos do Tratado de Adesão à União Europeia de 10 novos países

[...] um polaco ou checo, ou qualquer coisa sem Europa nem vogais [...]

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)

121 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)

Alberto Caeiro (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)


Carta astral de Alberto Caeiro,
manuscrita por Fernando Pessoa*


* Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)

13 abril 2010

Decadência absoluta

Isto está tudo decadente: já nem decadentes há.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 24)

12 abril 2010

806 anos do saque de Constantinopla pelos Cruzados (1204)

Decadentes, meu velho, decadentes é que nós somos...
No fundo de cada um de nós há uma Bizâncio a arder,
E nem sinto as chamas e nem sinto Bizâncio
Mas o Império finda nas nossas veias aguadas

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24h, pp. 175–176)

11 abril 2010

77 anos da entrada em vigor da Constituição de 1933 (Estado Novo)

A República pragmática
Que hoje temos já não é
A meretriz democrática.
Como deixou de ser pública
Agora é somente Ré.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 383)

09 abril 2010

92 anos da Batalha de La Lys (1918)

Caeiro morto
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

07 abril 2010

Dia Mundial da Saúde

Estas quatro canções, escrevi-as estando doente.
Agora ficaram escritas e não penso mais nelas.
Gozemos, se pudermos, a nossa doença,
Mas nunca a achemos saúde,
Como os homens fazem.

O defeito dos homens não é serem doentes:
É chamarem saúde à sua doença,
E por isso não buscarem a cura
Nem realmente saberem o que é saúde e doença.

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”, entre XIX e XX, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 69)

05 abril 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Luís Silva

02 abril 2010

Dia Internacional do Livro Infantil

Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de coisas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o Sr. Lopes Vieira quer ser. Assim, João de Deus não escreveu a Enjeitadinha senão com o escrúpulo de ser simples. E porque o assunto era também simples, as crianças compreendem-no. Se quisesse ser infantil, acontecia-lhe isto — seria infantil. O sr. Lopes Vieira quer escrever para crianças mediante intuição da alma infantil, como uma criança, escrevendo para crianças. Mesmo que se saísse bem disto, não se saía bem disto. Porque as crianças não escrevem. Escrever como uma criança, é tolerável sendo criança, porque o ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve, ou não se publica, ou se publica para adultos, psicólogos. E que interesse tem para crianças esta baba pedagógica? [...]

(Fernando Pessoa, “Naufrágio de Bartolomeu”, Crítica, p. 78)

01 abril 2010

Dia das Mentiras

Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade, não tem tinta.

(Fernando Pessoa, Quadras, I, 111, p. 38)



Tenho escrito mais versos que verdade.

(Álvaro de Campos, Poesia, 144, p. 434)

Pessoa, sempre — todos os dias: Abril de 2010

Calendário pessoano: Abril de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 março 2010

(I)moralidade

O que você acrescenta sobre os deveres morais podia tornar-se extensivo aos deveres imorais. Chegámos a um ponto da civilização em que há tais exigências de imoralidade que de aqui a pouco toda a gente é decente por falta de espírito de sacrifício.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 136)

27 março 2010

Dia Mundial do Teatro

Chamo teatro estático àquele cujo enredo dramático não constitui acção — isto é, onde as figuras não só não agem, porque nem se deslocam nem dialogam sobre deslocarem-se, mas nem sequer têm sentidos capazes de produzir uma acção; onde não há conflito nem perfeito enredo. Dir-se-á que isto não é teatro. Creio que o é porque creio que o teatro tende a teatro meramente lírico e que o enredo do teatro é, não a acção nem a progressão e consequência da acção — mas, mais abrangentemente, a revelação das almas através das palavras trocadas e a criação de situações [...] Pode haver revelação de almas sem acção, e pode haver criação de situações de inércia, momentos de alma sem janelas ou portas para a realidade.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, V, 5, p. 112)

25 março 2010

Anunciação de Fernando Pessoa

'Pessoa-Anjo'
José João Brito (1983–1990)
sem título, objecto (madeira)

23 março 2010

Religião

A religião é uma metafísica recreativa.

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)

Ateísmo

Não haver deuses é um deus também.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 12)

Conselho aos ateus militantes

Não se deve ir abalar a crença a um ignorante. Deve-se instruí-lo. A instrução lhe abalará a crença. E se não lha abalar é que ela está ainda arreigada de mais para poder ser abalada. Fica para outra geração.

É mesmo duvidoso se se deva proibir o ensino religioso. Deve criar-se uma atmosfera de cultura científica que o vá lentamente fazer caducar.

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)

21 março 2010

Dia Mundial da Árvore

«O Guardador de Rebanhos»
Pintura de Gaudenzio Nazario (1994)

20 março 2010

7 anos do início da invasão americana do Iraque (2003)

Si vis bellum, para pacem.

[Se queres a guerra, prepara-te para a paz.]

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 267, p. 423; original em latim)

19 março 2010

77 anos do “plebiscito” à Constituição de 1933 (Estado Novo)

Mais valia publicar um decreto-lei que rezasse assim:
Art. 1. António de Oliveira Salazar é Deus.
Art. 2. Fica revogado tudo em contrário e nomeadamente a Bíblia.

Ficava assim legalmente instituído o sistema que deveras nos governa, o autêntico Estado Novo — a Teocracia pessoal.

[...]

Miserrimam servitutem pacem appelant.*


(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 223, p. 367)


* Pedem uma paz misérrima de servidão.

18 março 2010

696 anos da execução de Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros Templários (1314)

[...] Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos — a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

(Fernando Pessoa, “Nota Biográfica”, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 135)

16 março 2010

Iconografia pessoana

«Atenção Obras» (1985)
Pintura de José João Brito (1983–1990)

14 março 2010

518 anos da ordem de expulsão dos judeus e muçulmanos de Espanha (1492)

[...] A única inquisição que há hoje é a estupidez...

(Fernando Pessoa, “5 Diálogos”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 75, p. 331)

11 março 2010

6 anos dos ataques terroristas islâmicos em Madrid (2004)

[...] não quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba [...] que estoira
Em sangue e carne e alma [...]

(Álvaro de Campos, Poesia, 34, p. 253)

08 março 2010

Dia Internacional da Mulher

[...] place aux femmes! [...]

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 277)

8 de Março de 1914: «o dia triunfal da minha vida» (F. Pessoa)

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)

Ano e meio, ou dois anos, depois lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta, mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 —, acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, «O Guardador de Rebanhos». E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a «Chuva Oblíqua», de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a «Ode Triunfal» de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes, e como eu não sou nada na matéria.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, pp. 342–344)


Nota: Num outro documento, Fernando Pessoa apresenta uma cronologia ligeiramente diferente: Alberto Caeiro ter-se-ia manifestado pela primeira vez a 13 de Março de 1914.

Iconografia pessoana

Os três heterónimos:
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos
(Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

06 março 2010

89 anos do Partido Comunista Português (1921)

O bolchevismo (entendendo por bolchevismo o sindicalismo revolucionário e o comunismo, e não só este último) é um fenómeno reaccionário e religioso. Nada tem de propriamente social, nem podia ter, porque, se o tivesse, não o poderiam adoptar as plebes, incapazes de outra coisa que não de religião.
E fácil provar o carácter reaccionário do bolchevismo, como é fácil provar o seu carácter religioso — mais fácil ainda.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 62, p. 85)

04 março 2010

Dia Mundial da Matemática

O que é preciso é cada um multiplicar-se por si próprio.

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 15)

616 anos do nascimento do Infante D. Henrique (1394)

O INFANTE


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, I, p. 127)

02 março 2010

O tédio e as certezas

O tédio... Quem tem Deuses nunca tem tédio. O tédio é a falta de uma mitologia. [...] Sim, o tédio é isso: a perda, pela alma, da sua capacidade de se iludir, a falta, no pensamento, da escada inexistente por onde ele sobe sólido à verdade.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 263, p. 260)

01 março 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Março de 2010

Calendário pessoano: Março de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

27 fevereiro 2010

Arte e patriotismo

Em arte tudo é lícito, desde que seja superior. Não é permitido ao homem vulgar ser antipatriota, porque não tem mentalidade acima da espécie, e a não pode ter pois acima da espécie imediata, que é a nação a que pertence. Ao génio é permitido. Sucede, por ironia, que os grandes génios são em geral conformes com os sentimentos normais: Shakespeare era intensamente, até excessivamente, patriota.

Um génio antipatriota é um fenómeno, não direi vulgar, mas aceitável. Um operário antipatriota é simplesmente uma besta.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 11, p. 130)

24 fevereiro 2010

Incompetência e Corrupção

E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados p’ra baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Se não querem sair, fiquem e lavem-se!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

21 fevereiro 2010

Dia Internacional da Língua Materna

Minha pátria é a língua portuguesa.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 259, p. 255)

85 anos da publicação do primeiro número da revista The New Yorker (1925)

livros: Flaubert, Pessoa, Mann, Prévert, García Lorca, E. A. Poe
Ilustração de Benoît van Innis
para a revista The New Yorker

162 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)

Ao contrário do catolicismo, o comunismo não tem uma doutrina. Enganam-se os que supõem que ele a tem. O catolicismo é um sistema dogmático perfeitamente definido e compreensível, quer teologicamente, quer sociologicamente. O comunismo não é um sistema: é um dogmatismo sem sistema — o dogmatismo informe da brutalidade e da dissolução. Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido e reunido, e com ele se formar uma figura gigantesca, tal seria a figura do comunismo, inimigo supremo da liberdade e da humanidade, como o é tudo quanto dorme nos baixos instintos que se escondem em cada um de nós.

O comunismo não é uma doutrina porque é uma anti-doutrina, ou uma contra-doutrina. Tudo quanto o homem tem conquistado, até hoje, de espiritualidade moral e mental — isto é de civilização e de cultura —, tudo isso ele inverte para formar a doutrina que não tem.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 50, pp. 141–142)

18 fevereiro 2010

464 anos da morte de Martinho Lutero (1546)

A mais nítida obra civilizacional alemã do passado foi a Reforma. [...]

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 29, p. 202)

16 fevereiro 2010

Carnaval

Escultura de António

14 fevereiro 2010

Dia dos Namorados

[...] decidi abdicar do amor como de um problema insolúvel.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 22)


Pessoa com coração no colarinho
Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

Amor

Love is a mortal sample of immortality.

[ O amor é uma amostra mortal da imortalidade. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 45
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal,
comunicação mediúnica n.º 74, p. 326; em inglês no original)


Aimer c’est s’y méprendre.

[ Amar é equivocar-se. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 46; em francês no original)

Amor à dobrada

Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?

(Álvaro de Campos, “Dobrada à moda do Porto”, Poesia, 198, p. 510)

11 fevereiro 2010

152 anos da primeira “aparição” de Lourdes (1858)

O deplorável facto de que uma menina chamada Bernadette Soubirous se antecipara [...] a esta notável visão do celestial terrestrizado, despe-nos um pouco o manto, e um pouco nos entorta a coroa, da novidade. Enfim sempre era mesmo de uma Nossa Senhora geograficamente (e cronologicamente) diferente. Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século [dezoito], dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.

(Fernando Pessoa, “Fátima”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 275)