20 agosto 2010

Iconografia pessoana

«Caeiro»
Fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos

18 agosto 2010

783 anos da morte de Gengis Khan (1227)

[...] uma heterogeneidade extraordinária de raças, extremamente diversas entre si, as quais não consistiam em meras hordas de meros bárbaros [...]

(Fernando Pessoa, “German War etc.”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 35, p. 222)

15 agosto 2010

241 anos do nascimento de Napoleão Bonaparte (1769)

Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, VII”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 51)


Capa do livro O tamanho da minha altura (entre outras coisas)
Texto de Suzana Ramos, ilustrações de Marta Neto
(Assírio & Alvim, 2009)

13 agosto 2010

49 anos do início da construção do Muro de Berlim (1961)

Mais terrível de que qualquer [outro] muro, pus grades altíssimas a demarcar o jardim do meu ser, de modo que, vendo perfeitamente os outros, perfeitissimamente eu os excluo e mantenho outros.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 120, p. 142)

12 agosto 2010

103 anos do nascimento de Adolfo Rocha, futuro Miguel Torga (1907)

[...] Recebi, como v. me disse que receberia, o livro Rampa, de Adolfo Rocha. Passados uns dias — mais do que deveria ser — escrevi-lhe uma carta agradecendo o livro e dando, resumidamente, uma opinião. Como escrevi à pressa, para não demorar mais a resposta e o agradecimento, transferi a redacção para o sr. Eng. Álvaro de Campos, cujo talento para a concisão em muito sobreleva ao meu. O resumo da minha opinião, de cuja expressão o citado engenheiro se encarregou, é de que o livro é interessante (é, realmente, muito interessante) como sensibilidade, mas imperfeito e incompleto como uso dela; e é o uso da sensibilidade, e não a própria sensibilidade, que vale em arte. Não deixei de ser elogioso, até onde pude sê-lo; para além de onde podia sê-lo, confesso que o não fui.

Recebi, pouco depois, uma carta do Adolfo Rocha, que me deixou, durante um quarto de hora, perplexo sobre se deveria ou não responder. A carta é de alguém que se ofendeu na quarta dimensão. Não é bem áspera, nem é propriamente insolente, mas (a) intima-me a explicar a minha carta anterior, (b) diz que a minha opinião é a mais desinteressante que ele recebeu a respeito do livro dele, (c) explica, em diversos ângulos obtusos, que os intelectuais são ridículos e que a era dos Mestres já passou.

A carta não tinha, realmente, resposta necessária; achei pois melhor não responder. Que diabo responderia? Em primeiro lugar, é indecente aceitar intimações em matéria extrajudicial. Em segundo lugar, eu não pretendera entrar num concurso de opiniões interessantes. Em terceiro lugar, eu só poderia responder desdobrando em raciocínios as imagens de que, na minha pressa, o sr. Eng. Álvaro de Campos se servira em meu nome; e isso me colocaria numa situação de prosa ainda mais intelectual e ainda mais de Mestre (com maiúscula) do que a anterior. Desisti. Patere et abstine, recomendavam os Estóicos.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 102, pp. 212–213)

10 agosto 2010

10 Ago. 610: Laylat al-Qadr, início da “revelação” do Corão a Maomé

Vejo que delirei.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 179)

07 agosto 2010

216 anos do último auto-de-fé em Lisboa (1794)

[...] A Inquisição, que queimava os infiéis e os suspeitos; as perseguições religiosas, que exterminavam os contrários — nada disso é tirania religiosa: tudo isso é tirania política. A tirania religiosa é outra, de mais subtil e depravada espécie. A tirania religiosa é de índole hereditária e pedagógica. Cada vez que, opresso pela vida e posto à prova pela amargura, me lembro, no auge da minha angústia, de rezar, de recorrer à ideia de Cristo — então sou servo da verdadeira tirania religiosa. [...] A tirania religiosa é esta, é isto. A outra, que queima infiéis e escorraça pagãos, essa, como te disse, é tirania política exercida em nome da religião. Onde a religião deixa de ter força política, essa tirania deixa de existir.

(Fernando Pessoa, “5 Diálogos”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 75, p. 331)

04 agosto 2010

432 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, III, p. 109)

01 agosto 2010

Pessoa, sempre — todos os dias: Agosto de 2010

Calendário pessoano: Agosto de 2010
Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 julho 2010

112 anos da morte de Otto von Bismarck (1898)

Os estadistas de primeira ordem, como Bismarck ou Cromwell, governaram sempre contra a opinião pública. Os estadistas de segunda ordem, como Napoleão, governaram sempre com ela.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 58, p. 286)

28 julho 2010

Iconografia pessoana

Ilustração de Gilmar Fraga

27 julho 2010

40 anos da morte de Salazar (1970)

Salazar
Um cadáver emotivo
, artificialmente galvanizado por uma propaganda...

Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística dessa gente.
Soma, e não segue.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 221, p. 365)

25 julho 2010

Proxeneta

Ganhando o pão da sua noite com o suor da fronte dos outros

(Álvaro de Campos, Poesia, 106, p. 373)

22 julho 2010

Dia da Aproximação do Pi (22/7 ≈ 3,142857143)

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

19 julho 2010

595 anos da morte de D. Filipa de Lencastre (1415)

D. FILIPA DE LENCASTRE


Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 97)

18 julho 2010

Igreja Católica atribui a mesma gravidade à pedofilia e à ordenação de mulheres como padres

Maldita seja em toda a parte
A Igreja Católica
Maldita seja, com arte ou sem arte,
A Igreja Católica
E quando alguém por apanhar ar
Tiver uma cólica
E sinta preciso aliviar
Lembre-se sempre de bem cagar
Para a Igreja Católica.

Maldita seja, de rabo à vela,
A Igreja Católica
De toda retrete que seja capela
A Igreja Católica
Há só duas coisas a fazer para aquela
Igreja Católica
Cagar p’ra ela e mijar p’ra ela
Para a Igreja Católica.

Caguemos pois e tudo junto
Para a Igreja Católica
Até que o caso dê assunto
À Igreja Católica
Cagar também, também por cólica
Então ver-se-á e será ouvido
O que tem comido, e o que tem bebido,
O que tem sorvido e engolido
A Igreja Católica.

(Joaquim Moura Costa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 177, pp. 221–222.)



Notícia relacionada:
«Ordenamento de mulheres é crime a par da pedofilia para o Vaticano» (Público, 16/07/2010)

16 julho 2010

16 Jul. 622: Fuga de Maomé de Meca para Medina (Hégira, início do Calendário Islâmico)

[...] dada a ingenuidade da sua visão, era natural que caísse[] no erro egocêntrico comum a todos os profetas que profetizam com intenção.

(Fernando Pessoa, “Bandarra”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 41, p. 147)

Profecias

A existência do dom de profecia é afirmada por muitos e negada por muitos. Na maioria dos casos, ou a linguagem profética é tão obscura que dela se pode fazer aplicação a qualquer facto, ou a abundância de pormenores é tão grande que dificilmente se encontrará um facto a que um ou outro dos pormenores se não possa ajustar. De sorte que o problema fundamental fica na mesma. Os que afirmam a existência do dom profético apontam o facto justificativo; os que lhe negam a existência apontam que qualquer facto, ainda que fosse contrário do que se deu, serviria igualmente, e portanto com igual inutilidade, de justificação.

(Fernando Pessoa, Crítica, p. 530)

14 julho 2010

221 anos da Revolução Francesa (1789)

Nenhuma nação se pode transformar senão em várias gerações. As revoluções nada transformam, apenas trazem a transformação. A Revolução Francesa atrasou o povo francês perto de cinquenta anos; o seu único produto visível mais próximo foi (curiosa ironia) meramente literário, e, ainda assim, o romantismo francês, primeira obra positiva da Revolução, surgiu, antes de mais nada e apesar de sofrendo da indisciplina mental que essa revolução causou, como reacção contra essa Revolução.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, pp. 113–114)

11 julho 2010

Iconografia pessoana

«O Teatro íntimo do ser»
Pintura de Miguel Yeco (1986)