(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 63, pp. 85–86)
21 fevereiro 2011
163 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)
A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável — e em geral impossível — que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões, não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo — como fazem grande número de chefes operários — deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem.
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18 fevereiro 2011
Odiar e ser odiado
The lust of hate cannot equal the lust of being hated.
[ A volúpia do ódio não pode igualar-se à volúpia de ser odiado. ]
[ A volúpia do ódio não pode igualar-se à volúpia de ser odiado. ]
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 22; em inglês no original)
16 fevereiro 2011
Ciência, Religião e Moral
A ciência é a única força intelectual moderna — a única coisa capaz de se opor ao ensimesmamento cristão e romântico.
Curioso é que haja quem se lembre de propor a religião, a moral — factos sentimentais — como disciplinas. A disciplina é intelectual. A inteligência é a disciplina do indivíduo. Deve sê-lo da sociedade também.
Curioso é que haja quem se lembre de propor a religião, a moral — factos sentimentais — como disciplinas. A disciplina é intelectual. A inteligência é a disciplina do indivíduo. Deve sê-lo da sociedade também.
(Ricardo Reis, Prosa, 71, p. 239)
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14 fevereiro 2011
Dia dos Namorados
Quando puderes dizer o teu grande amor, deixa o teu grande amor de ser grande.

(Pantaleão, Aforismos e afins, p. 51)

Fotografia de Ofélia Queirós (1900–1991)
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 131)
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12 fevereiro 2011
Ciência e Religião, vícios e virtudes
A ciência não curará muitos vícios, mas também não provoca nenhuns.
O homem normalmente justo, tranquilo e respeitador não será pela ciência tornado mais justo, tranquilo e respeitador, mas também o não será menos — a não ser que por ciência se vá entender qualquer dos dogmas metafísicos saídos dos laboratórios dos sábios desequilibrados, Büchners, Haeckels, Huxleys.*
[...]
A ciência, bem entendida, é essencialmente imparcial. A religião, mesmo bem entendida, é essencialmente parcial. Os erros dos homens de ciência nascem só da incompreensão da ciência. Os erros dos crentes podem nascer, e muitas vezes nascem, do simples facto de serem crentes, nascem, portanto, da compreensão da crença.
* Referência a Ludwig Büchner (1824–1899), Ernst Haeckel (1834–1919) e Thomas Henry Huxley (1825–1895).
O homem normalmente justo, tranquilo e respeitador não será pela ciência tornado mais justo, tranquilo e respeitador, mas também o não será menos — a não ser que por ciência se vá entender qualquer dos dogmas metafísicos saídos dos laboratórios dos sábios desequilibrados, Büchners, Haeckels, Huxleys.*
[...]
A ciência, bem entendida, é essencialmente imparcial. A religião, mesmo bem entendida, é essencialmente parcial. Os erros dos homens de ciência nascem só da incompreensão da ciência. Os erros dos crentes podem nascer, e muitas vezes nascem, do simples facto de serem crentes, nascem, portanto, da compreensão da crença.
(Ricardo Reis, Prosa, 80, p. 251)
* Referência a Ludwig Büchner (1824–1899), Ernst Haeckel (1834–1919) e Thomas Henry Huxley (1825–1895).
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11 fevereiro 2011
Dia Mundial do Doente
... e tudo é uma doença incurável.
A ociosidade de sentir, o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir, [...]
A ociosidade de sentir, o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir, [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 384, p. 346)
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08 fevereiro 2011
Iconografia pessoana

«O mostrengo que está no fim do mar...»*
Pintura de Norberto Nunes
Pintura de Norberto Nunes
* (Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IV, p. 133)
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06 fevereiro 2011
403 anos do nascimento de Padre António Vieira (1608)
António Vieira é de facto o maior prosador — direi mais, é o maior artista — da língua portuguesa. É-o por isso porque o foi, e não porque se chamasse António. O comando da língua-mãe não vem por varonia de nomes próprios.
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, X, 2, p. 330)
04 fevereiro 2011
68 anos do nascimento de Alberto João Jardim (1943)
[...] é o perfeito tipo do salteador político. [...]
[...]
Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? [...]
[...]
Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? [...]
(Fernando Pessoa, “Oligarquia das Bestas”, Da República (1910–1935), 72, pp. 175–176)
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01 fevereiro 2011
103 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)
[...] as grandes convicções valem exércitos. Com dois homens se fez o regicídio.
(Fernando Pessoa, “Petição a favor de William Shakespeare, traduzido”, Pessoa Inédito, 93, p. 221)
30 janeiro 2011
Dia Mundial da Lepra
Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being’s ban,
Whose torture’s chain unearned
No pity comes to rive.
A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred’s bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
[ Pobre leproso que é homem,
Pobre dele em seu viver
Sem culpa, numa ansiedade,
À proscrição deste ser
Não chega o bem da piedade.
Mão Poderosa criou
O sapo, a cobra, o tritão
Mas não lhes deu o pior;
Dando-lhes uma sorte igual,
Livrou-os da solidão.
Mas essa mão fez leproso
Ser leproso, por desdita:
E essa Mão Poderosa
É de tudo a mais maldita. ]
Poor leper who is alive,
Under his being’s ban,
Whose torture’s chain unearned
No pity comes to rive.
A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred’s bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
(Alexander Search, “Song of the Leper”, Poesia, 72, p. 152; em inglês no original)
[ Pobre leproso que é homem,
Pobre dele em seu viver
Sem culpa, numa ansiedade,
À proscrição deste ser
Não chega o bem da piedade.
Mão Poderosa criou
O sapo, a cobra, o tritão
Mas não lhes deu o pior;
Dando-lhes uma sorte igual,
Livrou-os da solidão.
Mas essa mão fez leproso
Ser leproso, por desdita:
E essa Mão Poderosa
É de tudo a mais maldita. ]
(“A Canção do Leproso”, p. 153; trad. Luísa Freire)
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28 janeiro 2011
72 anos da morte de William Butler Yeats (1939)
Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
26 janeiro 2011
Reunião do Fórum Económico Mundial em Davos
[...] Ora v. criou tirania. V. como açambarcador, como banqueiro, como financeiro sem escrúpulos [...] v. criou tirania. [...]
(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, p. 59)
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25 janeiro 2011
Os intelectuais e a política
A função da inteligência é renegar as paixões. Todo o intelectual político é político mas não intelectual. A sua inteligência vale, no caso, como a de um comerciante em seu comércio: serve um lucro, não um dever. O ser o lucro abstracto ou translato nada tira ao crime essencial.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
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22 janeiro 2011
21 janeiro 2011
61 anos da morte de George Orwell (1950)
Que milagre nos salvará da sinistra mania de ter razão?
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Presença), vol. I, p. 244)
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19 janeiro 2011
88 anos do nascimento de Eugénio de Andrade (1923)
Aqueles de nós que não são pederastas desejariam ter a coragem de o ser.
(Bernardo Soares, “Declaração de Diferença”, Livro do Desassossego, p. 429)
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18 janeiro 2011
Iconografia pessoana

«O Rosto com que fita...»*
Pintura de Miguel Yeco
Pintura de Miguel Yeco
* (Fernando Pessoa, “O dos Castelos”, Mensagem, Primeira Parte, I, p. 77)
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16 janeiro 2011
91 anos da entrada em vigor da “Lei Seca” nos Estados Unidos (1920)
Chegámos ao ponto cómico desta travessia legislativa. Chegámos ao exame daquela legislação restritiva que visa a beneficiar o indivíduo, impedindo que ele faça mal à sua preciosa saúde moral e física. É este o caso de legislação restritiva que se acha tipicamente exemplificado no diploma que é o exemplo de toda a legislação restritiva, quer quanto à sua natureza quer quanto aos seus efeitos — a famosa Lei Seca dos Estados Unidos da América. Vejamos em que deu a operação dessa lei.
[...]
[...] olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três.
(1) Dada a criação necessária, para o “cumprimento” da Lei, de vastas legiões de fiscais — mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem —, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.
(2) Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.
(3) Quais, foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais — isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos — loções de cabelo, por exemplo —, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais que o álcool; essas livremente vendidas, pois, se é certo que arruinam a saúde, arruinam contudo adentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Conceda-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa secção do público ele produziu resultados benéficos — aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos — «moralizar» quem não precisava ser moralizado. Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.
A Lei Seca, é certo, é um caso extremo. Mas um caso extremo é como que um caso típico visto ao microscópio: revela flagrantemente as falhas e as irregularidades dele. O caso da Lei Seca é extremo por duas razões — porque a Lei Seca é uma lei absolutamente radical, e porque, principalmente em virtude disso, o Estado se viu obrigado a esforçar-se para que ela efectivamente se cumprisse. As leis menos radicais desta ordem — como, entre nós, a que pretendeu restringir as horas de consumo das bebidas alcoólicas — naufragam na reacção surda e insistente do público, que as desdenha e despreza, e no desleixo de fiscalização do próprio Estado. Nascem mortas; e, se vivem, vivem a vida inútil e daninha da Lei Seca dos Estados Unidos.
[...]
[...] olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três.
(1) Dada a criação necessária, para o “cumprimento” da Lei, de vastas legiões de fiscais — mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem —, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.
(2) Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.
(3) Quais, foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais — isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos — loções de cabelo, por exemplo —, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais que o álcool; essas livremente vendidas, pois, se é certo que arruinam a saúde, arruinam contudo adentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Conceda-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa secção do público ele produziu resultados benéficos — aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos — «moralizar» quem não precisava ser moralizado. Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.
A Lei Seca, é certo, é um caso extremo. Mas um caso extremo é como que um caso típico visto ao microscópio: revela flagrantemente as falhas e as irregularidades dele. O caso da Lei Seca é extremo por duas razões — porque a Lei Seca é uma lei absolutamente radical, e porque, principalmente em virtude disso, o Estado se viu obrigado a esforçar-se para que ela efectivamente se cumprisse. As leis menos radicais desta ordem — como, entre nós, a que pretendeu restringir as horas de consumo das bebidas alcoólicas — naufragam na reacção surda e insistente do público, que as desdenha e despreza, e no desleixo de fiscalização do próprio Estado. Nascem mortas; e, se vivem, vivem a vida inútil e daninha da Lei Seca dos Estados Unidos.
(Fernando Pessoa, “As algemas”, Crítica, pp. 274–277)
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14 janeiro 2011
135 anos do patenteamento do telefone por Alexander Graham Bell (1876)
Prefiro falar, porque, para falar é preciso estar-se presente — ambos presentes, salvo nesse caso infame do telefone, onde há vozes sem caras.
(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 77, p. 160)
11 janeiro 2011
125 anos do início do primeiro campeonato mundial de xadrez (1886)
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

O seu jogo contínuo.
(Ricardo Reis, “Os jogadores de xadrez”, Poesia, II, 31, p. 59)

Fernando Pessoa jogando xadrez com o místico inglês
Aleister Crowley (Lisboa, Setembro de 1930)
Aleister Crowley (Lisboa, Setembro de 1930)
09 janeiro 2011
103 anos do nascimento de Simone de Beauvoir (1908)
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
(Álvaro de Campos, Poesia, 135, p. 419)
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06 janeiro 2011
82 anos da chegada de Madre Teresa a Calcutá (1929)
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade»...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...
— É curioso, não é?... E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa! Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade»...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...
(Álvaro de Campos, Poesia, 211, p. 531)
— É curioso, não é?... E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa! Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.
(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, pp. 41–42)
03 janeiro 2011
490 anos da excomunhão de Martinho Lutero pelo Papa Leão X (1521)
O ódio entre católicos e protestantes, o entre católicos e maçons, o entre cristãos e livres-pensadores modernos, tudo isso tem a ferocidade e o disparatado do ódio entre seitas da mesma religião. Não acabou nunca a luta entre seitas crististas que dura desde o aparecimento do próprio cristismo, que, quando nos surge na história, nos surge já bipartido nas seitas paulina e petrista. O cristismo é essencialmente dividido.
Toda a linha da evolução do cristismo, que — como vimos — alcança todos os movimentos, por pouco cristãos que pareçam, da história moderna, é representada por uma série incoerente de cisões e subcisões, por um encadeamento desconexo de inimizades e de desinteligências.
Toda a linha da evolução do cristismo, que — como vimos — alcança todos os movimentos, por pouco cristãos que pareçam, da história moderna, é representada por uma série incoerente de cisões e subcisões, por um encadeamento desconexo de inimizades e de desinteligências.
(António Mora, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 297)
01 janeiro 2011
Dia de “Santa” Maria
Quanto à Virgem Maria, Ísis sem o Véu, não direi nada.
(Fernando Pessoa, “Marcha sobre Roma”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 265)
31 dezembro 2010
29 dezembro 2010
Acordo Ortográfico (III)
É um imperialismo de gramáticos? O imperialismo dos gramáticos dura mais e vai mais fundo que o dos generais. [...]
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 90, p. 240)
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Militares
28 dezembro 2010
115 anos da invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière (1895)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.
E nunca tendo um sentido preciso.
(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6a, p. 68)
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Heterónimos e afins
26 dezembro 2010
... e paz na Terra aos homens de boa-vontade!
A Igreja Católica Apostólica Romana é uma instituição de fins aparentemente religiosos, mas cuja acção real é a de, captando ou aprisionando os espíritos, pelo dogma, pelo misticismo ou pela superstição, os desviar de toda a integração que possam ter no progresso e no bem do género humano. À parte isto é uma instituição absolutamente internacional que, declarando-se, por depositária da Verdade, superior a todas as pátrias, forçosamente é inimiga de todas elas. Em palavras que resumem: a Igreja de Roma é o Anti-Homem e a Anti-Nação.
A Igreja de Roma é só aparentemente uma religião: os fenómenos religiosos são os seus meios, não os seus fins. Se a sua doutrina não se abonasse com textos, como o paganismo, que não tinha livros sagrados, poder-se-ia aceitar que ela fosse uma religião. Quando porém uma pretensa religião se abona com textos, e no seu dogma, nos seus processos e na sua prática repudia tudo quanto neles se contém, temos que concluir que não é uma religião mas uma força qualquer que para seus fins ou se envolve com a capa de uma religião, ou se serve da religião como processo de agir sobre o mundo.
A Igreja de Roma é só aparentemente uma religião: os fenómenos religiosos são os seus meios, não os seus fins. Se a sua doutrina não se abonasse com textos, como o paganismo, que não tinha livros sagrados, poder-se-ia aceitar que ela fosse uma religião. Quando porém uma pretensa religião se abona com textos, e no seu dogma, nos seus processos e na sua prática repudia tudo quanto neles se contém, temos que concluir que não é uma religião mas uma força qualquer que para seus fins ou se envolve com a capa de uma religião, ou se serve da religião como processo de agir sobre o mundo.
(Fernando Pessoa, “Marcha sobre Roma”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, pp. 263–264)
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Pátria,
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Religião
25 dezembro 2010
Natal
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Porque é dia de o ficar.
(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 423)
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Felicidade
23 dezembro 2010
Arte e Ciência
Science describes things as they are; Art as they are felt, as they are felt to be.
[ A Ciência descreve as coisas como são; a Arte como são sentidas, como se sente que são. ]
[ A Ciência descreve as coisas como são; a Arte como são sentidas, como se sente que são. ]
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, I, 3, p. 4;
em inglês no original; tradução com alterações)
em inglês no original; tradução com alterações)
21 dezembro 2010
«Períodos de chuva, por vezes forte [...]. Nas terras altas, vento forte a muito forte [...].» (Instituto de Meteorologia)

«Lluvia oblicua»*
Pintura de Juan Soler
Pintura de Juan Soler
* (Fernando Pessoa, “Chuva Oblíqua”, Poesia (1902–1917), pp. 214–218)
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Meteorologia
20 dezembro 2010
172 anos do nascimento de Edwin A. Abbott (1838)
Podemos ver uma árvore quadrada, ou azul...
(Álvaro de Campos, “O Sensacionismo”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 237)
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17 dezembro 2010
Ser ou não ser: Paganismo, Cristianismo, Budismo
O homem perfeito do pagão era a perfeição do homem que há; o homem perfeito do cristão a perfeição do homem que não há; o homem perfeito do budista a perfeição de não haver o homem.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 148, p. 164)
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15 dezembro 2010
A servidão mental
Haja ou não deuses, deles somos servos.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 21, p. 59)
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13 dezembro 2010
11 dezembro 2010
120 anos do nascimento de Carlos Gardel (1890)
Tango de pretos, fosses tu ao menos minuete!
Passai, absolutamente, passai!
Passai, absolutamente, passai!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 284)
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10 dezembro 2010
20 anos da fundação do SOS Racismo (1990)
Odiamos o que quase somos.
We hate what we nearly are.
We hate what we nearly are.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 17;
a tradução para inglês é do próprio Pessoa)
a tradução para inglês é do próprio Pessoa)
09 dezembro 2010
Dia Internacional do Combate à Corrupção
Porque não pugnar por que os homens competentes sejam postos nos lugares que lhes competem? Porque não abrir uma campanha em favor das realidades úteis, indiscutíveis — a abolição da corrupção na vida política, a eliminação dos empecilhos partidários, tanta coisa cuja justiça toda a gente vê.
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 91, p. 222)
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08 dezembro 2010
Dia de Nossa Senhora da Conceição (ou, o que não é a mesma coisa, da Imaculada Conceição de Maria)
[...] Só a ciência hoje tem o respeito dos cultos. Nenhum homem culto hoje acredita, realmente acredita, por mais que creia, na Imaculada Conceição de Maria. [...]
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 319, pp. 353–354)
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06 dezembro 2010
WikiLeaks e os “segredos” diplomáticos dos EUA
Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer.
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber...
Que não te posso dizer.
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber...
(Fernando Pessoa, Quadras, I, 79, p. 30)
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05 dezembro 2010
Dia Internacional do Voluntariado
Não haja medo que a sociedade se desmorone sob um excesso de altruísmo. Não há perigo desse excesso.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 21)
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03 dezembro 2010
Dia Internacional da Pessoa com Deficiência
Eu sou corcunda desde a nascença e sempre riram de mim. Dizem que todas as corcundas são más, mas eu nunca quis mal a ninguém. Além disso sou doente, e nunca tive alma, por causa da doença, para ter grandes raivas. Tenho dezanove anos e nunca sei para que é que cheguei a ter tanta idade, e doente, e sem ninguém que tivesse pena de mim a não ser por eu ser corcunda, que é o menos, porque é a alma que me dói, e não o corpo, pois a corcunda não faz dor.
(Maria José, Pessoa por Conhecer, vol. II, 215, p. 256)
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02 dezembro 2010
205 anos da Batalha de Austerlitz (1805)
Nem um impulso militar que tenha sequer o vago cheiro de um Austerlitz!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 282)
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01 dezembro 2010
30 novembro 2010
75 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)
Late F A N Pessoa who is thought to have committed suicide: at least he blew up a country-house in which he was, dying he and several other people. [...]
[ O falecido F A N Pessoa que se supõe ter-se suicidado: pelo menos fez explodir uma casa de campo em que estava, morrendo ele e várias outras pessoas. [...] ]
[ O falecido F A N Pessoa que se supõe ter-se suicidado: pelo menos fez explodir uma casa de campo em que estava, morrendo ele e várias outras pessoas. [...] ]
(Faustino Antunes, Pessoa por Conhecer, vol. II, 22, p. 32;
em inglês no original; tradução com alterações)
em inglês no original; tradução com alterações)
110 anos da morte de Oscar Wilde (1900)
Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 470, p. 413)
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29 novembro 2010
203 anos da fuga da família real portuguesa para o Brasil (1807)
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, [...]
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, [...] navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Quando, [...]
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, [...] navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
(Álvaro de Campos, Poesia, 61, p. 292)
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136 anos do nascimento de António Egas Moniz, Prémio Nobel da Medicina (1874)
[...] Se o que há de lixo moral e mental em todos os cérebros pudesse ser varrido [...]
(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 50, p. 141)
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25 novembro 2010
Golpe militar põe fim ao PREC, Processo Revolucionário Em Curso (1975)
A única utilidade das revoluções é serem destrutivas, e tornar patente a necessidade da construção; é serem anárquicas, e tornarem patente a necessidade da ordem; é serem sempre estrangeiras, e estimularem, por reacção, a acção contra-revolucionária, sempre nacional.
(Fernando Pessoa, “O Preconceito Revolucionário”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 46, p. 254)
24 novembro 2010
378 anos do nascimento de Baruch Espinosa (1632)
Spinoza. Here at last the genius appears, true genius, having that which Descartes had not, the fearlessness and the lack of respect for the established. Honours to the master-thinker who, prosecuted, hated, accurst, stood by truth, lived for truth, suffered for (the sake of) truth!
[ Espinosa. Aqui finalmente surge o génio, verdadeiro génio, tendo aquilo que Descartes não tinha, a temeridade e a falta de respeito pelo estabelecido. Honras ao mestre-pensador que, perseguido, odiado, maldito, manteve-se com a verdade, viveu para a verdade, sofreu em prol da verdade! ]
(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. II, p. 203; em inglês no original)
[ Espinosa. Aqui finalmente surge o génio, verdadeiro génio, tendo aquilo que Descartes não tinha, a temeridade e a falta de respeito pelo estabelecido. Honras ao mestre-pensador que, perseguido, odiado, maldito, manteve-se com a verdade, viveu para a verdade, sofreu em prol da verdade! ]
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22 novembro 2010
21 novembro 2010
316 anos do nascimento de François-Marie Arouet, dito Voltaire (1694)
Nós realizamos, modernamente, o sentido preciso daquela frase de Voltaire, onde diz que, se os mundos são habitados, a Terra é o manicómio do Universo.
(António Mora, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 299)
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18 novembro 2010
Portugal 4 – Espanha 0
E para isto se fundou Portugal!
(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)
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286 anos da morte de Bartolomeu de Gusmão (1724)
Numa viagem oblíqua do meu leito de moribundo
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
Viagem em diagonal às dimensões dos objectos
Para o canto do tecto mais longe, a cama erguer-se-á do chão,
Erguer-se-á como um balão ridículo e seguirá
(Álvaro de Campos, “A Partida”, Poesia, 27b, p. 219)
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17 novembro 2010
Reunião dos Ministros da Economia e das Finanças (Ecofin) da União Europeia
Homens-altos de Lilliput-Europa, passai por baixo do meu Desprezo!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 282)
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16 novembro 2010
Dia Nacional do Mar
O mar é a religião da Natureza.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 30)
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14 novembro 2010
A religião e a plebe
A religião é um mal necessário. Nenhum país pode viver sem religião, pela simples razão que a religião é a vida superior [...] da plebe, e nenhum país pode viver sem plebe.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 64, p. 86)
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11 novembro 2010
Dia de “São” Martinho

«Fernando Pessoa, em flagrante delitro.»* (1929)
* Comentário manuscrito pelo próprio no verso da fotografia
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, pp. 156–157)
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10 novembro 2010
3 anos do «¿Por qué no te callas?» (2007)
[...] quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Cala-te aí, sendeiro! Deixa ouvir.
[...]
A besta não se calará?!
(Álvaro de Campos, “Poema em linha recta”, Poesia, 41, p. 262)
Cala-te aí, sendeiro! Deixa ouvir.
[...]
A besta não se calará?!
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 142)
08 novembro 2010
336 anos da morte de John Milton (1674)
Milton foi o maior dos poetas modernos porque se serviu da mitologia cristã, em que acreditava, mas alterando-a a seu modo, como um grego à sua.
(António Mora, Pessoa Inédito, 149, p. 272)
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Paganismo,
Poesia
07 novembro 2010
93 anos da Revolução Bolchevique (1917)*
O gado russo, aqueles animais a que se chama o povo russo... Há alguém que, a sério, julgue que a Revolução Russa transformou alguma coisa de fundamental? O Império do Czar vivia em anarquia governativa, em analfabetismo de letras e de energias; crê alguém que o bolchevismo eliminou a anarquia, crê alguém que o bolchevismo eliminou a tirania, crê alguém que o mero aparecimento de uns pobres cérebros românticos a mandar, sem a preparação científica para o pensamento ou para a acção [ ]
Os bolchevistas são cristãos sem religião; têm a mentalidade cristã, acreditam no milagre, porque julgam que uma sociedade se transforma de um dia para o outro [...].
* 25 de Outubro, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.
Os bolchevistas são cristãos sem religião; têm a mentalidade cristã, acreditam no milagre, porque julgam que uma sociedade se transforma de um dia para o outro [...].
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, p. 114)
* 25 de Outubro, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.
05 novembro 2010
13 anos da morte de Isaiah Berlin (1997)
[...] Meu filho: tenho visto muita coisa neste mundo, mas não vi ainda a liberdade.
(Fernando Pessoa, “5 Diálogos sobre a Tirania”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 72, p. 329)
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Tirania
02 novembro 2010
60 anos da morte de George Bernard Shaw (1950)
Fora tu, George Bernard Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da sinceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish Melody calvinista com letra da Origem das Espécies!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
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Falecimento,
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Literatura,
Prémio Nobel,
Sinceridade
01 novembro 2010
532 anos da instauração da Inquisição em Espanha (1478)
I am sorry to say that I feel in myself the indication that if I had been born in Spain some [] centuries ago, I might have made a very good inquisitor.
[ Lamento dizer que detecto em mim a indicação de que se tivesse nascido em Espanha há uns [] séculos, poderia ter dado um excelente inquisidor. ]
[ Lamento dizer que detecto em mim a indicação de que se tivesse nascido em Espanha há uns [] séculos, poderia ter dado um excelente inquisidor. ]
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 8, p. 22; em inglês no original)
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30 outubro 2010
27 outubro 2010
História
O historiador é um homem que põe os factos nos seus devidos lugares. Não é como foi; é assim mesmo.
(Álvaro de Campos, Aforismos e afins, p. 41)
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História
24 outubro 2010
Discussão do Orçamento de Estado 2011
[...] esta fúnebre marcha de títeres tristes que é o deslizar diário da nossa vida nacional.
(António Mora, Pessoa por Conhecer, vol. II, 231, p. 273)
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Governo,
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Portugal,
Tristeza
21 outubro 2010
Fernando Pessoa em Nova Iorque
Vídeo de Ricardo Cobra.
Poema de João Pedro Pais cantado por Ana Moura
http://www.youtube.com/watch?v=kc7iJQFPmaw
Poema de João Pedro Pais cantado por Ana Moura
http://www.youtube.com/watch?v=kc7iJQFPmaw
18 outubro 2010
476 anos do “Affaire des Placards”, afixação de cartazes críticos da doutrina católica nas ruas de Paris (1534)
[...] O cristismo é a inversão dos valores humanos. Não submergiu a sociedade, porque a sociedade tem, na sua própria constituição como tal, a maior defesa contra o cristismo. Não matou a vida humana. porque, para ser vida, ela tem que não deixar-se morrer. O cristismo nasceu na época da decadência romana. Ainda, na sua forma católica — a mais abjecta de todas, porque o protestantismo de certo modo impôs uma disciplina por via do seu latente paganismo nórdico — a religião cristã é uma religião da decadência romana. Quem vive dentro do cristianismo, vive ainda no império romano em decadência. Da sua origem o cristismo guarda os seus característicos. O que o berço dá a tumba o leva.
(António Mora, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 249)
17 outubro 2010
Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).
(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 297)
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16 outubro 2010
156 anos do nascimento de Oscar Wilde (1854)
[...] Wilde, que nunca foi uma figura de destaque na literatura inglesa, mas apenas na sociedade inglesa e no meio literário londrino — o que não é a mesma coisa. A sua prosa pesada cai ou manca na civilização inglesa; [...]
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 244, p. 390)
13 outubro 2010
120 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890)

Assinatura de Álvaro de Campos

Carta astral de Álvaro de Campos,
manuscrita por Fernando Pessoa*
manuscrita por Fernando Pessoa*
* Em carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, Fernando Pessoa apresenta uma cronologia ligeiramente diferente: Álvaro de Campos teria nascido à 1h30 da tarde do dia 15 de Outubro. (Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, pp. 344–345)
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10 outubro 2010
Dia Mundial da Saúde Mental
A alma humana é um manicómio de caricaturas.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 242, p. 238)
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07 outubro 2010
Prémio Nobel da Literatura
[...] Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista; essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente.) [...]
Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. [...]
Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. [...]
(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, pp. 339–340)
05 outubro 2010
100 anos da Implantação da República (1910)
Num mar de mijo havia um penico sem tampa
Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
Dum malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.

Mesmo tapado tinha o que contém: só trampa.
Dum malídoro vento ele boia ao sabor
Que em si tem incerteza;
Eis o símbolo (deixo o detalhe ao leitor)
Da monarquia portuguesa.
(Joaquim Moura Costa, Pessoa Inédito, 202, p. 341)

Ilustração de Fernando Carvall
Monarquia Portuguesa vs. Primeira República: descubra as diferenças
[...] A República Velha falhou mesmo como fenómeno destrutivo: destruiu mal e destruiu por maus processos.
Destruiu mal porque destruiu pouco. Destruir a Monarquia não é só tirar o Rei: é também, é sobretudo substituir os tipos de mentalidade governantes por outros tipos de mentalidade. [...]
A República Velha nada alterou das tradições desonrosas da Monarquia. Mudou apenas a maneira de cometer os erros; os erros continuaram sendo os mesmos. Em vez de um regime católico, um regime anticatólico, isto é, um regime que logo arregimentava como inimigos os católicos. Em vez de uma República portuguesa, de um regime nacional, uma república francesa em Portugal. E assim como a Monarquia Constitucional havia sido um sistema inglês (ou anglo-francês) sobreposto à realidade da Pátria Portuguesa, a República Velha foi um sistema francês sobreposto à mesma realidade pátria. No que respeita aos erros de administração — a incompetência, a imoralidade, o caciquismo — ficámos na mesma, mudando apenas os homens que faziam asneiras, que praticavam roubos e que escamoteavam “eleições”. De sorte que a República Velha era a Monarquia sem Rei. [...]
Destruiu mal porque destruiu pouco. Destruir a Monarquia não é só tirar o Rei: é também, é sobretudo substituir os tipos de mentalidade governantes por outros tipos de mentalidade. [...]
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 98, p. 243)
A República Velha nada alterou das tradições desonrosas da Monarquia. Mudou apenas a maneira de cometer os erros; os erros continuaram sendo os mesmos. Em vez de um regime católico, um regime anticatólico, isto é, um regime que logo arregimentava como inimigos os católicos. Em vez de uma República portuguesa, de um regime nacional, uma república francesa em Portugal. E assim como a Monarquia Constitucional havia sido um sistema inglês (ou anglo-francês) sobreposto à realidade da Pátria Portuguesa, a República Velha foi um sistema francês sobreposto à mesma realidade pátria. No que respeita aos erros de administração — a incompetência, a imoralidade, o caciquismo — ficámos na mesma, mudando apenas os homens que faziam asneiras, que praticavam roubos e que escamoteavam “eleições”. De sorte que a República Velha era a Monarquia sem Rei. [...]
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 101, p. 249)
03 outubro 2010
100 anos da morte de Miguel Bombarda (1910)
[...] The Portuguese Monarchy was overthrown by two regiments, two cruisers and a handful of civilians. The Portuguese Revolution, which no one expected, was caused by the shooting of a Republican leader, Prof. Bombarda, director of the Lisbon Lunatic Asylum, by a madman — an act which no one connected, or thought of connecting, with politics. Out of such minorities, and of such absurdities, does triumph emerge. [...]
[ [...] A Monarquia Portuguesa foi derrubada por dois regimentos, dois cruzadores e uma mão-cheia de civis. A Revolução Portuguesa, que ninguém esperava, foi causada pelo assassinato de um líder republicano, o Prof. Bombarda, director do Hospital Psiquiátrico de Lisboa, por um louco — um acto que ninguém ligou, ou pensou ligar, à política. De tais minorias, e de tais absurdos, é que o triunfo emerge. [...] ]
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 120, pp. 367–368; em inglês no original)
[ [...] A Monarquia Portuguesa foi derrubada por dois regimentos, dois cruzadores e uma mão-cheia de civis. A Revolução Portuguesa, que ninguém esperava, foi causada pelo assassinato de um líder republicano, o Prof. Bombarda, director do Hospital Psiquiátrico de Lisboa, por um louco — um acto que ninguém ligou, ou pensou ligar, à política. De tais minorias, e de tais absurdos, é que o triunfo emerge. [...] ]
(p. 372; tradução com alterações)
01 outubro 2010
30 setembro 2010
72 anos do Acordo de Munique, que entregou a região checa dos Sudetas à Alemanha Nazi (1938)
Sempre que, em qualquer coisa, tive um rival ou a possibilidade de um rival, desde logo abdiquei sem hesitar.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)
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27 setembro 2010
Dia Mundial do Turismo
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Viajar! Perder países!
(Álvaro de Campos, Poesia, 34, p. 251)
Viajar! Perder países!
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 168)
26 setembro 2010
Dia Mundial do Coração
Sinto o coração como um peso inorgânico.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 28)
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Dia Europeu das Línguas
Now, taking not only the present but immediate future, in so far as it may be considered as developing on the embryo conditions of our time, there are only three languages with a popular future — English (which has already a widespread hold), Spanish and Portuguese. They are the languages spoken in America, and in so far as Europe means European civilization, Europe is becoming more and more settled in the Western continent. Such languages as French, German and Italian are never anything but European: they have no imperial power. So long as Europe was the world, they held their own, and even triumphed over the other three, for English was insular and Spanish and Portuguese right at the end. But when the world became the earth, the scene shifted.
It is therefore among these three languages that the future of the future will lie.
It is therefore among these three languages that the future of the future will lie.
(Thomas Crosse, Pessoa Inédito, 108, p. 236; em inglês no original)
[ Ora, falando não só do presente mas também do futuro imediato, na medida em que este possa ser considerado como desenvolvendo-se a partir das condições embrionárias do nosso tempo, só há três línguas com um futuro popular — o Inglês (que já tem uma larga difusão), o Espanhol e o Português. São as línguas faladas na América, e na medida em que Europa significa civilização europeia, a Europa tem-se radicado cada vez mais no continente ocidental. Línguas como o Francês, o Alemão e o Italiano nunca serão senão europeias: não têm poder imperial. Enquanto a Europa foi o mundo, elas mantiveram a sua posição, e triunfaram mesmo sobre as outras três, pois o Inglês era insular e o Espanhol e o Português encontravam-se no seu extremo. Mas quando o mundo passou a ser o globo terrestre, este cenário alterou-se.
Será portanto entre estas três línguas que o futuro do futuro assentará. ]
Será portanto entre estas três línguas que o futuro do futuro assentará. ]
(p. 237; tradução com alterações)
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Língua Portuguesa,
Línguas
24 setembro 2010
22 setembro 2010
Dia Europeu sem Carros
E só os carros passam, passam — cessam depois para nós mesmos
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23d, p. 154)
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Transportes
21 setembro 2010
Dia Internacional da Paz
E ficou tudo na mesma [...]
(Álvaro de Campos, Poesia, 20, p. 144)
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Paz/Pacifismo
19 setembro 2010
16 setembro 2010
14 setembro 2010
143 anos da publicação do volume I de O Capital, de Karl Marx (1867)
A liberdade individual não pode existir senão depois de conquistada a liberdade social, e, principalmente, a económica. [...]
Ora a liberdade económica existe pela existência do capital. É impossível universalmente; e o socialismo, em vez de ser uma libertação económica, é uma ausência completa de liberdade. O socialismo torna extensivo a toda a gente o servismo da maioria. Não são os escravos que querem libertar-se: são os escravos que querem escravizar tudo. Se eu sou corcunda, sejam todos corcundas.
Ora a liberdade económica existe pela existência do capital. É impossível universalmente; e o socialismo, em vez de ser uma libertação económica, é uma ausência completa de liberdade. O socialismo torna extensivo a toda a gente o servismo da maioria. Não são os escravos que querem libertar-se: são os escravos que querem escravizar tudo. Se eu sou corcunda, sejam todos corcundas.
(Fernando Pessoa, “Diálogos sobre a Tirania”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 77, p. 333)
11 setembro 2010
A intolerância de todas as fés
A tolerância é impossível ao crente verdadeiro de qualquer fé [...]. Quem tem a sua religião por verdadeira, e por certa só dentro dela a salvação das almas, não pode senão considerar como um crime de tal vulto, que excede todos os crimes deste mundo, o pregar outra religião, que não essa, ou o desviar dela aqueles que só nela terão sua salvação. Nada há pois que pasmar do espírito perseguidor dos inquisidores, dos puritanos, e de todos quantos têm deveras uma fé que supõem universal. [...]
(Fernando Pessoa, “Bandarra”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 86, p. 236)
10 setembro 2010
Dia Mundial para a Prevenção do Suicídio
Cansa tanto viver! Se houvesse outro modo de vida!...
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 19)
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08 setembro 2010
2489 anos do início da Batalha de Termópilas (480 AC)*
Nem viúva nem filho lhe pôs na boca o óbolo, com que pagasse a Caronte. [...]
Morreu pela Pátria [...]. Deu a vida com toda a inteireza da alma: [...] por amor à Pátria, não por consciência dela. Defendeu-a como quem defende uma mãe, de quem somos filhos não por lógica, senão por nascimento. Fiel ao segredo primevo, não pensou nem quis, mas viveu a sua morte instintivamente, como havia vivido a sua vida. A sombra que usa agora se irmana com as que caíram em Termópilas, fiéis na carne ao juramento em que haviam nascido.
* Data conjectural
Morreu pela Pátria [...]. Deu a vida com toda a inteireza da alma: [...] por amor à Pátria, não por consciência dela. Defendeu-a como quem defende uma mãe, de quem somos filhos não por lógica, senão por nascimento. Fiel ao segredo primevo, não pensou nem quis, mas viveu a sua morte instintivamente, como havia vivido a sua vida. A sombra que usa agora se irmana com as que caíram em Termópilas, fiéis na carne ao juramento em que haviam nascido.
(Bernardo Soares, “Cenotáfio”, Livro do Desassossego, pp. 423–424)
* Data conjectural
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06 setembro 2010
Fé, cepticismo, religião e irreligião
Pertenço a uma geração — suponho que essa geração seja mais pessoas que eu — que perdeu por igual a fé nos deuses das religiões antigas e a fé nos deuses das irreligiões modernas.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 26)
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04 setembro 2010
Egocentrismo
Há qualquer coisa de sórdido, e de tanto mais sórdido quanto é ridículo, neste uso, que têm os fracos, de erigir em tragédias do universo as comédias tristes das tragédias próprias.
(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 52)
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01 setembro 2010
29 agosto 2010
185 anos do reconhecimento da independência do Brasil por Portugal (1825)
A «águia imperial», no primeiro caso é Napoleão, pois que A às avessas e com a perna do meio tirada e posta atrás dá N, inicial daquele nome. No segundo caso é D. Pedro IV, que fundou o Império do Brasil, e o A às avessas dá V, e pondo atrás a perna do meio dá IV.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 48, p. 171)
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27 agosto 2010
Liberdade e solidão
A liberdade é a possibilidade do isolamento. [...] Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 283, pp. 272–273)
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