(Ricardo Reis, Prosa, 39, p. 146)
05 julho 2011
829 anos do nascimento de “São” Francisco de Assis (1182)
[...] São Francisco de Assis: o abominável fundador de uma seita abominável.
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01 julho 2011
29 junho 2011
Heteronimia
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.
O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 26, p. 63)
O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 421, p. 477)

«Fernando Pessoa — Heterónimo»
Pintura de Costa Pinheiro (1978)
Pintura de Costa Pinheiro (1978)
26 junho 2011
Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror —
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa — o interrogar
[Dos] que me cercam...
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror —
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa — o interrogar
[Dos] que me cercam...
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, 26)
24 junho 2011
23 junho 2011
1648 anos da morte de Juliano, último imperador pagão do Império Romano (363)
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na minha vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e [] e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em prisões de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, []
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na minha vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e [] e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em prisões de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, []
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), pp. 353–354)
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22 junho 2011
22 Jun 1491 AC: Deus entrega os Dez Mandamentos a Moisés, segundo James Ussher (1581–1656)
1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões.
2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.
3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...
4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.
6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.
7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.
2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.
3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...
4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.
6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.
7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 73, p. 93)
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20 junho 2011
17 junho 2011
Dia Mundial de Luta contra a Seca e a Desertificação
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Salvo erro, naturalmente.
(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 429)
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15 junho 2011
Heteronimia?
Em resumo, o homem de escol tem por mister o dissociar-se, o viver várias vidas paralelas — uma com a inteligência, outra com a emoção, a terceira com a vontade. O sinal do homem superior é não haver unidade nele. A sua inteligência pode despir-se de todos os preconceitos, inclusive os que julgam que o não são; e, no mesmo tempo, a sua emoção seguir recta e justa o caminho da moral mais humana, a sua vontade empregar-se humildemente no mister menos intelectual ou emotivo.
[...]
Para viver esta tripla vida da alma é preciso poder vivê-la. Para ser independente das próprias emoções é preciso poder sê-lo. Se o homem vulgar, ou meio-vulgar, quiser viver a vida de um homem superior, é um imbecil e um imoral, porque não está nele o viver tal vida. A um poeta de segundo plano exige-se, naturalmente, certo grau moral, certa elegância social. Mas um Shakespeare pode ser, como foi, agiota; um Milton pode ser, como foi, mestre-escola. Quem não pode ser dois que seja um, pois, se quiser ser dois, ficará partido.
[...]
Para viver esta tripla vida da alma é preciso poder vivê-la. Para ser independente das próprias emoções é preciso poder sê-lo. Se o homem vulgar, ou meio-vulgar, quiser viver a vida de um homem superior, é um imbecil e um imoral, porque não está nele o viver tal vida. A um poeta de segundo plano exige-se, naturalmente, certo grau moral, certa elegância social. Mas um Shakespeare pode ser, como foi, agiota; um Milton pode ser, como foi, mestre-escola. Quem não pode ser dois que seja um, pois, se quiser ser dois, ficará partido.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 259)
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13 junho 2011
123 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)
Sê plural como o universo!

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 94)

Desenho de H. Mourato
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Nascimento
10 junho 2011
Dia de Portugal...
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, I, p. 77)
... de Camões...
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção; que importa se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificam que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção da morte da citada alma como emoção sinceramente sua, ele teria encontrado uma forma nova, palavras novas, tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em verso, como usaria luto na vida.
(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 405, p. 467)
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Camões,
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... e das Comunidades Portuguesas
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, [...]
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, [...]
(Álvaro de Campos, “A Partida”, Poesia, 27c, p. 220)
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Portugal
08 junho 2011
Dia Mundial dos Oceanos

«Mar Portugués III»*
Pintura de Juan Soler
Pintura de Juan Soler
* (Fernando Pessoa, “Mar Português”, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
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Mar
06 junho 2011
163 anos do nascimento de Gomes Leal (1848)
Sr. Gomes Leal é um grande poeta. Mas é o pior grande poeta que conhecemos.
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, X, 3, p. 330)
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04 junho 2011
Véspera de eleições
[...] Esta opressão, que todos nós sentimos, esta vergonha de estarmos sendo governados por bacalhoeiros da política, [...]
(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 82, p. 195)
70 anos da morte de Guilherme II da Alemanha (1941)
Aí! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
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31 maio 2011
109 anos do fim da Segunda Guerra Boer (1902)
Ill scorn beseems us, men of war and trick,
Whose groaning nation poured her fullest might
To take the freedom of a farmer race.
[ O desdém fica-nos mal, homens da guerra e do embuste,
Cuja queixosa nação pôs todo o seu poder
Para tirar a liberdade de uma raça de agricultores. ]
Whose groaning nation poured her fullest might
To take the freedom of a farmer race.
(Alexander Search, “To England, II”, Poesia, 24, p. 54; em inglês no original)
[ O desdém fica-nos mal, homens da guerra e do embuste,
Cuja queixosa nação pôs todo o seu poder
Para tirar a liberdade de uma raça de agricultores. ]
(“À Inglaterra, II”; tradução nossa)
28 maio 2011
85 anos da Revolução de 28 de Maio e instauração da Ditadura Nacional (1926)
O argumento essencial contra uma ditadura é que ela é ditadura, isto é, que é ilegal. [...]
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 227, p. 372)
25 maio 2011
49 anos da morte de Júlio Dantas (1962)
Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta critica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? [...] (Júlio Dantas nada: não é um grande poeta).
(Fernando Pessoa, “Estética”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 6, p. 122)
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23 maio 2011
475 anos da instauração da Inquisição em Portugal (1536)
[...] decaído o arabismo, ficou a parte inferior dele — o fanatismo religioso. Esse, que tinha facilidade demais para entrar para o cristianismo, deu uma das formas crististas mais desoladoramente antipáticas que tem havido — este catolicismo de selvagens da nossa península, esta fé que havia de produzir a Inquisição, esses circenses do povo ibérico. Na parte inarabizada da Península, o Norte, o cristismo fanático dos inquisidores nunca pegou.
(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 256)
22 maio 2011
Início da campanha eleitoral
[...] A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes. [...]
(Fernando Pessoa, “O Burro e as Duas Margens”, Pessoa Inédito, 270, p. 427)
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20 maio 2011
17 maio 2011
Dia Internacional contra a Homofobia
Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza eu apeteço
Seja onde for, beleza.
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza eu apeteço
Seja onde for, beleza.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 156, p. 143)
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16 maio 2011
15 maio 2011
Dia Internacional das Famílias
A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe — tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente. [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 199, p. 205)
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13 maio 2011
94 anos da primeira “aparição” de Fátima (1917)
O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 52, p. 177)
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11 maio 2011
09 maio 2011
15 anos do «Affaire Sokal» (Maio de 1996)
Sociology is wholesale muddle; who can stand this Scholasticism in the Byzantium of today?
[ A sociologia é uma trapalhada geral; quem pode suportar tal escolástica na Bizâncio de hoje? ]
(Fernando Pessoa, “Personal Notes”,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 138;
em inglês no original)
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 138;
em inglês no original)
[ A sociologia é uma trapalhada geral; quem pode suportar tal escolástica na Bizâncio de hoje? ]
(“Notas Pessoais”, p. 139; trad. Manuela Rocha)
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06 maio 2011
03 maio 2011
556 anos do nascimento de D. João II (1455)
UMA ASA DO GRIFO:
D. JOÃO, O SEGUNDO
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 119)
01 maio 2011
Dia da Mãe
À Minha Querida Mamã
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.*
* Provavelmente, o primeiro poema de Fernando Pessoa: está datado de 26/07/1895, quando o poeta tinha apenas 7 anos.
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.*
(Fernando Pessoa, O Melhor do Mundo São as Crianças, p. 16)
* Provavelmente, o primeiro poema de Fernando Pessoa: está datado de 26/07/1895, quando o poeta tinha apenas 7 anos.
125 anos do Massacre de Haymarket (Chicago) e da luta pelo dia de trabalho de 8 horas (1886)
Henry Ford acaba de criar em suas fábricas a semana de cinco dias. E acaba de propor à consideração do mundo, como exemplo a seguir, esta redução filantrópica do trabalho dos seus operários. Sucede, porém, que já se sabe que os fabricantes de outros carros baratos americanos estão entrando pelas vendas dos automóveis Ford; que, ao passo que durante anos Ford produzia mais de metade dos automóveis fabricados nos Estados Unidos, produz agora [1926] apenas cerca de trinta e cinco por cento do total; que as fábricas Ford se vêem portanto confrontadas com o problema da sobre-produção, forçadas a produzir apenas sessenta e cinco por cento da sua capacidade, e obrigadas pois a trabalhar só quarenta horas por semana.
De sorte que, ao proclamar ao mundo como novo lema económico e moral a semana dos cinco dias, Henry Ford, sem ter que inventar para si um novo preceito prático, se limitou a seguir aquele, que é admirável, do mestre Macchiavelli: O que fazemos por necessidade, devemos fazer parecer que foi por vontade nossa que o fizemos.
De sorte que, ao proclamar ao mundo como novo lema económico e moral a semana dos cinco dias, Henry Ford, sem ter que inventar para si um novo preceito prático, se limitou a seguir aquele, que é admirável, do mestre Macchiavelli: O que fazemos por necessidade, devemos fazer parecer que foi por vontade nossa que o fizemos.
(Fernando Pessoa, “Os preceitos práticos em geral e os de Henry Ford em particular”,
Crítica, pp. 341–342)
Crítica, pp. 341–342)
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Trabalho
30 abril 2011
66 anos do suicídio de Adolf Hitler (1945)
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1926), Poesia, 65, p. 300)
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A função social da dúvida
A função do escol não é orientar, porque é duvidar, e com a dúvida não se orienta. A sua função é criar uma atmosfera de inteligência, de cultura livre, por meio da qual os fanáticos sintam o seu fanatismo mais atenuado, os seguros de si hesitem de vez em quando, os que trazem a verdade na algibeira vão de vez em quando verificar se ela está lá.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
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28 abril 2011
66 anos da execução de Benito Mussolini pelos Partigiani (1945)
[...] se, por exemplo, um italiano [...] algures atacar [...] Mussolini como tirano da Itália, nada faz de ilícito, em nada ataca a sua pátria, antes, a seu modo, a defende; [...]
(Fernando Pessoa, “O nacionalismo liberal”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 83, p. 348)
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Itália,
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Tirania
26 abril 2011
25 abril 2011
Dia da Liberdade
[...] O amor cobarde que todos temos à liberdade — que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a — é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 167, p. 180)
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23 abril 2011
395 anos da morte de William Shakespeare (1616) e, talvez, 447 anos do seu nascimento (1564)*
O homem está acima do cidadão. Não há Estado que valha Shakespeare.
* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor inglês morreu 10 dias depois do espanhol (a 3 de Maio, segundo o calendário gregoriano).
A coincidência (aparente) das datas foi um forte incentivo (entre outros) para que o dia 23 de Abril fosse declarado Dia Mundial do Livro.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 64)
* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor inglês morreu 10 dias depois do espanhol (a 3 de Maio, segundo o calendário gregoriano).
A coincidência (aparente) das datas foi um forte incentivo (entre outros) para que o dia 23 de Abril fosse declarado Dia Mundial do Livro.
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20 abril 2011
18 abril 2011
154 anos da publicação de O Livro dos Espíritos por Allan Kardec, fundador do Espiritismo (1857)
Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos (delirantes sistematizados) justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 430, p. 382)
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16 abril 2011
122 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)
Não pretendo ser mais que o maior poeta do mundo. [...]
[...] No fundo sou o mesmo que Deus.
Nota: Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)
(Alberto Caeiro entrevistado por Alexander Search, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 214)
[...] No fundo sou o mesmo que Deus.
(Alberto Caeiro, “Anarquismo”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 325, p. 360)
Nota: Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)
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Poesia
13 abril 2011
Iconografia pessoana

«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»*
Pintura de Carlos Calvet (1987)
Pintura de Carlos Calvet (1987)
* (Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 108)
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Iconografia
11 abril 2011
78 anos da entrada em vigor da Constituição de 1933 (Estado Novo)
POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO
Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!
A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!
E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —
Abandona o padrão-ouro,
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!
Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!
Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.
Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!
Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe-ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!
Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!
União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.
Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões —
Finanças em mise-en-plis!
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!
Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!
Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mos todos.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 434–436)
08 abril 2011
Iconografia pessoana
05 abril 2011
A elite e os ideais políticos ou religiosos
Desde que um homem capaz de fazer obra de escol, isto é, de ciência ou de arte, põe a sua capacidade ao serviço de um ideal religioso ou de um ideal político, trai a sua missão. Um católico não pode examinar o texto do Novo Testamento, pois fatalmente o não poderá examinar com isenção. O estudo de um regime monárquico não pode decentemente ser feito por um republicano — nem por um monárquico.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
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03 abril 2011
149 anos da publicação de Os Miseráveis (1862)
[...] obra intolerável do infeliz chamado Victor Hugo [...]
(Ricardo Reis, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 353)
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01 abril 2011
Dia das Mentiras
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
(Álvaro de Campos, Poesia, 110, p. 379)
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31 março 2011
284 anos da morte de Isaac Newton (1727)
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
(Álvaro de Campos, Poesia, 243, p. 587)
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29 março 2011
Hábitos de leitura
I have outgrown the habit of reading. I no longer read anything except occasional newspapers, light literature and casual books technical to any matter I may be studying and in which simple reasoning may be insufficient.
The definite type of literature I have almost dropped. I could read it for learning or for pleasure. But I have nothing to learn, and the pleasure to be drawn from books is of a type that can with profit be substituted by that which the contact with nature and the observation of life can directly give me.
[ Deixei para trás o hábito da leitura. Já não leio nada excepto um ou outro jornal, literatura ligeira e, ocasionalmente, livros técnicos relativos a qualquer matéria que esteja a estudar e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
A literatura propriamente dita quase abandonei. Podia lê-la por aprendizagem ou por prazer. Mas não tenho nada a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é de um género que pode ser substituído com proveito pelo que o contacto com a natureza e a observação da vida me podem proporcionar directamente. ]
The definite type of literature I have almost dropped. I could read it for learning or for pleasure. But I have nothing to learn, and the pleasure to be drawn from books is of a type that can with profit be substituted by that which the contact with nature and the observation of life can directly give me.
(Fernando Pessoa, “Personal Notes”,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 136;
em inglês no original)
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 136;
em inglês no original)
[ Deixei para trás o hábito da leitura. Já não leio nada excepto um ou outro jornal, literatura ligeira e, ocasionalmente, livros técnicos relativos a qualquer matéria que esteja a estudar e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
A literatura propriamente dita quase abandonei. Podia lê-la por aprendizagem ou por prazer. Mas não tenho nada a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é de um género que pode ser substituído com proveito pelo que o contacto com a natureza e a observação da vida me podem proporcionar directamente. ]
(“Notas Pessoais”, p. 137; trad. Manuela Rocha)
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27 março 2011
Dia Mundial do Teatro
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?

(Álvaro de Campos, “Paragem. Zona”, Poesia, 125, p. 402)

Fotografia de cena do monólogo/performance
Encontro com Fernando Pessoa
Teatro Municipal Café Pequeno
(Leblon, Rio de Janeiro, Brasil), Nov/Dez 2009
Interpretação: Paulo César Oliveira
Direcção: Jacqueline Laurence
Encontro com Fernando Pessoa
Teatro Municipal Café Pequeno
(Leblon, Rio de Janeiro, Brasil), Nov/Dez 2009
Interpretação: Paulo César Oliveira
Direcção: Jacqueline Laurence
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24 março 2011
Dia Mundial da Tuberculose
Estupores de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos,
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 127)
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21 março 2011
Dia Mundial da Árvore
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, V”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 48)
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Dia Mundial da Poesia
O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
[...]
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.
[...]
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.
(Álvaro de Campos, “Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro”, 31,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 176–177)
Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 176–177)
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19 março 2011
17 março 2011
150 anos da proclamação do Reino de Itália (1861)
[...] o tipo moderno do italiano, de Garibaldi a Fiume, é uma ficção e um arremedo, imitado do francês e sem graça nem personalidade. [...]
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 9, p. 87)
15 março 2011
Dia Mundial dos Direitos do Consumidor
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
[...]
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
[...]
(Álvaro de Campos, “Dobrada à moda do Porto”, Poesia, 198, p. 510)
12 março 2011
6 anos de governos de José Sócrates
[...] Sócrates foi, na verdade, o chefe dos sofistas; na verdade foi inimigo da Pátria.
(António Mora, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, I, 16, p. 22)
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10 março 2011
08 março 2011
Dia Internacional da Mulher
[...] trazendo consigo a doutrina repugnante e ímpia da igualdade dos sexos [...]
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 32, p. 213)
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Carnaval
Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,
Isto não é o Carnaval, nem eu.

Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,
Isto não é o Carnaval, nem eu.
(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6d, p. 73)

«Heterónimos de Fernando Pessoa»
Pintura de Lívio de Morais
Pintura de Lívio de Morais
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05 março 2011
86 anos do nascimento de Lindley Cintra (1925)
A sorte de um povo depende do estado da sua gramática. Não há grande nação sem propriedade de linguagem.
A gramática é mais perfeita que a vida. A ortografia é mais importante que a política. A pontuação dispensa a humanidade.
¤
A gramática é mais perfeita que a vida. A ortografia é mais importante que a política. A pontuação dispensa a humanidade.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 63)
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04 março 2011
Dia Mundial da Matemática
[...] Tanto os puros matemáticos como os leigos em matemática tendem a atribuir a esta ciência um carácter de «certeza» que não é necessariamente exacto. A matemática é uma linguagem perfeita, mais nada. [...]
(Álvaro de Campos, “O que é a Metafísica?”, Crítica, p. 232)
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01 março 2011
27 fevereiro 2011
501 anos da conquista de Goa por Afonso de Albuquerque (1510)
A OUTRA ASA DO GRIFO:
AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 121)
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25 fevereiro 2011
156 anos do nascimento de Cesário Verde (1855)
Cesário, que conseguiu
Ver claro, ver simples, ver puro,
Ver o mundo nas suas caixas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
Ver claro, ver simples, ver puro,
Ver o mundo nas suas caixas,
Ser um olhar com uma alma por trás, e que vida tão breve!
Criança alfacinha do Universo.
Bendita sejas com tudo quanto está à vista!
Enfeito, no meu coração, a Praça da Figueira para ti
E não há recanto que não veja para ti, nos recantos de seus recantos.
(Álvaro de Campos, Poesia, 122, p. 398)
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23 fevereiro 2011
21 fevereiro 2011
163 anos do Manifesto do Partido Comunista (1848)
A aristocracia tem por norma a arte; a classe média tem por norma a vida social; o povo tem por norma a religião. Pela palavra religião entende-se a crença numa coisa absolutamente indemonstrável — e em geral impossível — que se crê ser a essência e o fim principal da vida. São religiões, não só as religiões assim chamadas, mas também as doutrinas radicais todas, e as crenças sinceras na igualdade humana, na justiça, na fraternidade, e em outros mitos igualmente vazios de realidade e de realização. Para que sejam religiões é preciso, porém, acreditar que são realizáveis. Desde que um homem use desses mitos para ganhar a vida, ou para intrujar o povo — como fazem grande número de chefes operários — deixa de ser da plebe, e passa a ser da classe superior. Faz muito bem.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 63, pp. 85–86)
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18 fevereiro 2011
Odiar e ser odiado
The lust of hate cannot equal the lust of being hated.
[ A volúpia do ódio não pode igualar-se à volúpia de ser odiado. ]
[ A volúpia do ódio não pode igualar-se à volúpia de ser odiado. ]
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 22; em inglês no original)
16 fevereiro 2011
Ciência, Religião e Moral
A ciência é a única força intelectual moderna — a única coisa capaz de se opor ao ensimesmamento cristão e romântico.
Curioso é que haja quem se lembre de propor a religião, a moral — factos sentimentais — como disciplinas. A disciplina é intelectual. A inteligência é a disciplina do indivíduo. Deve sê-lo da sociedade também.
Curioso é que haja quem se lembre de propor a religião, a moral — factos sentimentais — como disciplinas. A disciplina é intelectual. A inteligência é a disciplina do indivíduo. Deve sê-lo da sociedade também.
(Ricardo Reis, Prosa, 71, p. 239)
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14 fevereiro 2011
Dia dos Namorados
Quando puderes dizer o teu grande amor, deixa o teu grande amor de ser grande.

(Pantaleão, Aforismos e afins, p. 51)

Fotografia de Ofélia Queirós (1900–1991)
(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 131)
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12 fevereiro 2011
Ciência e Religião, vícios e virtudes
A ciência não curará muitos vícios, mas também não provoca nenhuns.
O homem normalmente justo, tranquilo e respeitador não será pela ciência tornado mais justo, tranquilo e respeitador, mas também o não será menos — a não ser que por ciência se vá entender qualquer dos dogmas metafísicos saídos dos laboratórios dos sábios desequilibrados, Büchners, Haeckels, Huxleys.*
[...]
A ciência, bem entendida, é essencialmente imparcial. A religião, mesmo bem entendida, é essencialmente parcial. Os erros dos homens de ciência nascem só da incompreensão da ciência. Os erros dos crentes podem nascer, e muitas vezes nascem, do simples facto de serem crentes, nascem, portanto, da compreensão da crença.
* Referência a Ludwig Büchner (1824–1899), Ernst Haeckel (1834–1919) e Thomas Henry Huxley (1825–1895).
O homem normalmente justo, tranquilo e respeitador não será pela ciência tornado mais justo, tranquilo e respeitador, mas também o não será menos — a não ser que por ciência se vá entender qualquer dos dogmas metafísicos saídos dos laboratórios dos sábios desequilibrados, Büchners, Haeckels, Huxleys.*
[...]
A ciência, bem entendida, é essencialmente imparcial. A religião, mesmo bem entendida, é essencialmente parcial. Os erros dos homens de ciência nascem só da incompreensão da ciência. Os erros dos crentes podem nascer, e muitas vezes nascem, do simples facto de serem crentes, nascem, portanto, da compreensão da crença.
(Ricardo Reis, Prosa, 80, p. 251)
* Referência a Ludwig Büchner (1824–1899), Ernst Haeckel (1834–1919) e Thomas Henry Huxley (1825–1895).
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11 fevereiro 2011
Dia Mundial do Doente
... e tudo é uma doença incurável.
A ociosidade de sentir, o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir, [...]
A ociosidade de sentir, o desgosto de ter de não saber fazer nada, a incapacidade de agir, [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 384, p. 346)
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08 fevereiro 2011
Iconografia pessoana

«O mostrengo que está no fim do mar...»*
Pintura de Norberto Nunes
Pintura de Norberto Nunes
* (Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IV, p. 133)
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06 fevereiro 2011
403 anos do nascimento de Padre António Vieira (1608)
António Vieira é de facto o maior prosador — direi mais, é o maior artista — da língua portuguesa. É-o por isso porque o foi, e não porque se chamasse António. O comando da língua-mãe não vem por varonia de nomes próprios.
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, X, 2, p. 330)
04 fevereiro 2011
68 anos do nascimento de Alberto João Jardim (1943)
[...] é o perfeito tipo do salteador político. [...]
[...]
Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? [...]
[...]
Que te há-de um português chamar, ó merecedor de termos, para que ainda não há nenhuns conceitos? [...]
(Fernando Pessoa, “Oligarquia das Bestas”, Da República (1910–1935), 72, pp. 175–176)
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01 fevereiro 2011
103 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)
[...] as grandes convicções valem exércitos. Com dois homens se fez o regicídio.
(Fernando Pessoa, “Petição a favor de William Shakespeare, traduzido”, Pessoa Inédito, 93, p. 221)
30 janeiro 2011
Dia Mundial da Lepra
Poor leper who is a man,
Poor leper who is alive,
Under his being’s ban,
Whose torture’s chain unearned
No pity comes to rive.
A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred’s bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
[ Pobre leproso que é homem,
Pobre dele em seu viver
Sem culpa, numa ansiedade,
À proscrição deste ser
Não chega o bem da piedade.
Mão Poderosa criou
O sapo, a cobra, o tritão
Mas não lhes deu o pior;
Dando-lhes uma sorte igual,
Livrou-os da solidão.
Mas essa mão fez leproso
Ser leproso, por desdita:
E essa Mão Poderosa
É de tudo a mais maldita. ]
Poor leper who is alive,
Under his being’s ban,
Whose torture’s chain unearned
No pity comes to rive.
A Hand of Might created
The newt, the toad, the viper,
But gave them not its worst;
Kept them from loneliness,
Gave them their kindred’s bliss.
But that hand made the leper
And it made the leper leper:
And that Hand Almighty is
Of all things the most curst.
(Alexander Search, “Song of the Leper”, Poesia, 72, p. 152; em inglês no original)
[ Pobre leproso que é homem,
Pobre dele em seu viver
Sem culpa, numa ansiedade,
À proscrição deste ser
Não chega o bem da piedade.
Mão Poderosa criou
O sapo, a cobra, o tritão
Mas não lhes deu o pior;
Dando-lhes uma sorte igual,
Livrou-os da solidão.
Mas essa mão fez leproso
Ser leproso, por desdita:
E essa Mão Poderosa
É de tudo a mais maldita. ]
(“A Canção do Leproso”, p. 153; trad. Luísa Freire)
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Heterónimos e afins,
Saúde
28 janeiro 2011
72 anos da morte de William Butler Yeats (1939)
Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)
26 janeiro 2011
Reunião do Fórum Económico Mundial em Davos
[...] Ora v. criou tirania. V. como açambarcador, como banqueiro, como financeiro sem escrúpulos [...] v. criou tirania. [...]
(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, p. 59)
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Tirania
25 janeiro 2011
Os intelectuais e a política
A função da inteligência é renegar as paixões. Todo o intelectual político é político mas não intelectual. A sua inteligência vale, no caso, como a de um comerciante em seu comércio: serve um lucro, não um dever. O ser o lucro abstracto ou translato nada tira ao crime essencial.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
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Política
22 janeiro 2011
21 janeiro 2011
61 anos da morte de George Orwell (1950)
Que milagre nos salvará da sinistra mania de ter razão?
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Presença), vol. I, p. 244)
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Comunismo,
Falecimento,
Heterónimos e afins,
Literatura,
Opressão,
Tirania
19 janeiro 2011
88 anos do nascimento de Eugénio de Andrade (1923)
Aqueles de nós que não são pederastas desejariam ter a coragem de o ser.
(Bernardo Soares, “Declaração de Diferença”, Livro do Desassossego, p. 429)
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Poesia
18 janeiro 2011
Iconografia pessoana

«O Rosto com que fita...»*
Pintura de Miguel Yeco
Pintura de Miguel Yeco
* (Fernando Pessoa, “O dos Castelos”, Mensagem, Primeira Parte, I, p. 77)
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16 janeiro 2011
91 anos da entrada em vigor da “Lei Seca” nos Estados Unidos (1920)
Chegámos ao ponto cómico desta travessia legislativa. Chegámos ao exame daquela legislação restritiva que visa a beneficiar o indivíduo, impedindo que ele faça mal à sua preciosa saúde moral e física. É este o caso de legislação restritiva que se acha tipicamente exemplificado no diploma que é o exemplo de toda a legislação restritiva, quer quanto à sua natureza quer quanto aos seus efeitos — a famosa Lei Seca dos Estados Unidos da América. Vejamos em que deu a operação dessa lei.
[...]
[...] olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três.
(1) Dada a criação necessária, para o “cumprimento” da Lei, de vastas legiões de fiscais — mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem —, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.
(2) Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.
(3) Quais, foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais — isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos — loções de cabelo, por exemplo —, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais que o álcool; essas livremente vendidas, pois, se é certo que arruinam a saúde, arruinam contudo adentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Conceda-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa secção do público ele produziu resultados benéficos — aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos — «moralizar» quem não precisava ser moralizado. Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.
A Lei Seca, é certo, é um caso extremo. Mas um caso extremo é como que um caso típico visto ao microscópio: revela flagrantemente as falhas e as irregularidades dele. O caso da Lei Seca é extremo por duas razões — porque a Lei Seca é uma lei absolutamente radical, e porque, principalmente em virtude disso, o Estado se viu obrigado a esforçar-se para que ela efectivamente se cumprisse. As leis menos radicais desta ordem — como, entre nós, a que pretendeu restringir as horas de consumo das bebidas alcoólicas — naufragam na reacção surda e insistente do público, que as desdenha e despreza, e no desleixo de fiscalização do próprio Estado. Nascem mortas; e, se vivem, vivem a vida inútil e daninha da Lei Seca dos Estados Unidos.
[...]
[...] olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três.
(1) Dada a criação necessária, para o “cumprimento” da Lei, de vastas legiões de fiscais — mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem —, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a Lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.
(2) Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, adentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da Lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se, mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado dos Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter que assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.
(3) Quais, foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais — isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos — loções de cabelo, por exemplo —, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais que o álcool; essas livremente vendidas, pois, se é certo que arruinam a saúde, arruinam contudo adentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Conceda-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma que numa secção do público ele produziu resultados benéficos — aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos — «moralizar» quem não precisava ser moralizado. Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra, e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.
A Lei Seca, é certo, é um caso extremo. Mas um caso extremo é como que um caso típico visto ao microscópio: revela flagrantemente as falhas e as irregularidades dele. O caso da Lei Seca é extremo por duas razões — porque a Lei Seca é uma lei absolutamente radical, e porque, principalmente em virtude disso, o Estado se viu obrigado a esforçar-se para que ela efectivamente se cumprisse. As leis menos radicais desta ordem — como, entre nós, a que pretendeu restringir as horas de consumo das bebidas alcoólicas — naufragam na reacção surda e insistente do público, que as desdenha e despreza, e no desleixo de fiscalização do próprio Estado. Nascem mortas; e, se vivem, vivem a vida inútil e daninha da Lei Seca dos Estados Unidos.
(Fernando Pessoa, “As algemas”, Crítica, pp. 274–277)
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14 janeiro 2011
135 anos do patenteamento do telefone por Alexander Graham Bell (1876)
Prefiro falar, porque, para falar é preciso estar-se presente — ambos presentes, salvo nesse caso infame do telefone, onde há vozes sem caras.
(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 77, p. 160)
11 janeiro 2011
125 anos do início do primeiro campeonato mundial de xadrez (1886)
Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

O seu jogo contínuo.
(Ricardo Reis, “Os jogadores de xadrez”, Poesia, II, 31, p. 59)

Fernando Pessoa jogando xadrez com o místico inglês
Aleister Crowley (Lisboa, Setembro de 1930)
Aleister Crowley (Lisboa, Setembro de 1930)
09 janeiro 2011
103 anos do nascimento de Simone de Beauvoir (1908)
O sexo oposto existe para ser procurado e não para ser compreendido.
(Álvaro de Campos, Poesia, 135, p. 419)
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06 janeiro 2011
82 anos da chegada de Madre Teresa a Calcutá (1929)
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade»...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...
— É curioso, não é?... E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa! Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.
«Se eu não tivesse a caridade»...
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade»...
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!...
(Álvaro de Campos, Poesia, 211, p. 531)
— É curioso, não é?... E olhe que há pontos secundários também muito curiosos... Por exemplo: a tirania do auxílio...
— A quê?
— A tirania do auxílio. Havia entre nós quem, em vez de mandar nos outros, em vez de se impor aos outros, pelo contrário os auxiliava em tudo quanto podia. Parece o contrário, não é verdade? Pois olhe que é o mesmo. É a mesma tirania nova. É do mesmo modo ir contra os princípios anarquistas.
— Essa é boa! Em quê?
— Auxiliar alguém, meu amigo, é tomar alguém por incapaz; se esse alguém não é incapaz, é ou fazê-lo tal, ou supô-lo tal, e isto é, no primeiro caso uma tirania, e no segundo um desprezo. Num caso cerceia-se a liberdade de outrem; no outro caso parte-se, pelo menos inconscientemente, do princípio de que outrem é desprezível e indigno ou incapaz de liberdade.
(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, pp. 41–42)
03 janeiro 2011
490 anos da excomunhão de Martinho Lutero pelo Papa Leão X (1521)
O ódio entre católicos e protestantes, o entre católicos e maçons, o entre cristãos e livres-pensadores modernos, tudo isso tem a ferocidade e o disparatado do ódio entre seitas da mesma religião. Não acabou nunca a luta entre seitas crististas que dura desde o aparecimento do próprio cristismo, que, quando nos surge na história, nos surge já bipartido nas seitas paulina e petrista. O cristismo é essencialmente dividido.
Toda a linha da evolução do cristismo, que — como vimos — alcança todos os movimentos, por pouco cristãos que pareçam, da história moderna, é representada por uma série incoerente de cisões e subcisões, por um encadeamento desconexo de inimizades e de desinteligências.
Toda a linha da evolução do cristismo, que — como vimos — alcança todos os movimentos, por pouco cristãos que pareçam, da história moderna, é representada por uma série incoerente de cisões e subcisões, por um encadeamento desconexo de inimizades e de desinteligências.
(António Mora, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 297)
01 janeiro 2011
Dia de “Santa” Maria
Quanto à Virgem Maria, Ísis sem o Véu, não direi nada.
(Fernando Pessoa, “Marcha sobre Roma”, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 265)
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