(Pantaleão, Pessoa por Conhecer, vol. II, 156, p. 208)
10 setembro 2011
Dia Mundial para a Prevenção do Suicídio
A vida é um mal digno de ser gozado.
Etiquetas:
* Pantaleão,
Heterónimos e afins,
Mal,
Suicídio,
Vida
09 setembro 2011
573 anos da morte de D. Duarte (1438)
D. DUARTE, REI DE PORTUGAL
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo.
Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, III, p. 101)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Falecimento,
História de Portugal
07 setembro 2011
05 setembro 2011
106 anos do fim da Guerra Russo-Japonesa de 1904–1905
(When English journalists joked at Russian’s disasters)
Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hint and menace on great Eastern lands.
Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fallen state,
Armies of men whole-crushed on desolate strands.
The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.
(Alexander Search, “To England, II”, Poesia, 24, pp. 52/54; em inglês no original)
[ (Quando jornalistas ingleses troçaram dos desastres russos)
Os nossos inimigos estão caídos; outras mãos
Que não as nossas os atingiram, e a nossa alegria é grande
Por saber que agora, finalmente, sossegaram os nossos medos
Das ameaças nas grandes terras do Oriente.
Poetelhos, escrevinhadores e artistas, bandos servis,
Exprimem o ódio intenso antes contido,
Rindo da miséria, da angústia, do estado caído,
Exércitos inteiros esmagados em costas desoladas.
Qualquer burro consegue escoucear o leão caído
Que, em vida, o paralisava vergonhosamente de medo,
Todos os seus movimentos seguidos de soslaio. ]
(“À Inglaterra, II”; tradução nossa)
Etiquetas:
* Alexander Search,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Inglaterra/Reino Unido,
Jornais,
Rússia
03 setembro 2011
Hoje acordei assim...
Raios partam a vida e quem lá ande!...
(Álvaro de Campos, “Três Sonetos”, Poesia, 4.III, p. 58)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Estado de espírito,
Heterónimos e afins,
Vida
01 setembro 2011
29 agosto 2011
De volta ao Norte...
ALENTEJO SEEN FROM THE TRAIN
Nothing with nothing around it
And a few trees in between
None of which very clearly green,
Where no river or flower pays a visit.
If there be a hell, I’ve found it,
For if ain’t here, where the Devil is it?
(Fernando Pessoa, Poesia Inglesa II, 2, p. 12)
[ ALENTEJO VISTO DO COMBOIO
Nada com nada à voltaE umas poucas árvores pelo meio,
Nenhuma delas claramente verde,
Onde nenhum rio ou flor dão o ar da sua graça.
Se por acaso existe um inferno, encontrei-o,
Pois, se não aqui, onde Diabo estará? ]
(tradução nossa)
28 agosto 2011
Amanhã regresso de férias...
Tenho que arrumar a mala de ser.
(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 428)
27 agosto 2011
25 agosto 2011
111 anos da morte de Friedrich Nietzsche (1900)
— Deus, Deus, Deus? disse o anarquista. Há séculos que Deus morreu; mas tem levado tanto tempo a fazer-lhe o caixão que já infesta o ar de seu apodrecimento.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 68)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Anarquia/Anarquismo,
Deus,
Falecimento,
Filosofia
23 agosto 2011
Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
E ninguém sabe porquê.
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé,
E ninguém sabe porquê.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 380)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Comunismo,
Direitos Humanos,
Ditadura,
Estado Novo,
Fascismo,
Hitler,
Justiça,
Nazismo,
Opressão,
Salazar,
Tirania,
Tortura,
União Soviética
20 agosto 2011
Iconografia pessoana

«Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou»*
Pintura de Norberto Nunes
Pintura de Norberto Nunes
* (Álvaro de Campos, Poesia, 149, p. 441)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Iconografia
17 agosto 2011
108 anos da criação dos Prémios Pulitzer (1903)
[...] O contrário foi uma mixórdia da nossa desqualificada imprensa periódica [...]
(Fernando Pessoa, “O Sentido do Sidonismo”, Da República (1910–1935), 103, p. 252)
14 agosto 2011
578 anos da morte de D. João I (1433)
D. JOÃO, O PRIMEIRO
O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita.
Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender.
Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 95)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Falecimento,
História de Portugal
12 agosto 2011
184 anos da morte de William Blake (1827)
Ah, abram-me outra realidade!
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos
E ter visões por almoço.
(Álvaro de Campos, Poesia, 101, p. 367)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Arte,
Falecimento,
Heterónimos e afins,
Ilusão,
Misticismo,
Poesia
09 agosto 2011
07 agosto 2011
217 anos do último auto-de-fé em Lisboa (1794)
O que hoje prepondera em todo o mundo é o ódio à Inteligência.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego (Presença), vol. I, p. 230)
05 agosto 2011
1 ano do acidente na mina de Copiapó, Chile (2010)
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 88)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Catástrofe,
Heterónimos e afins
03 agosto 2011
Panaceias e ilusões
O catolicismo é uma religião da panaceia, como o ateísmo ou o livre pensamento é uma ilusão da farmácia.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 30)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ateísmo,
Igreja Católica,
Ilusão,
Religião
01 agosto 2011
28 julho 2011
97 anos do início da I Guerra Mundial (1914)
Ave guerra, som da luz e do fogo
Ave, ave, ave pelos teus arsenais e pelas tuas esquadras,
Ave, ave, ave, pelos teus barcos e pelas tuas fábricas,
Ave por toda a tua civilização de metal em obra,
Ave por todo o teu aço!
Ave por todo o teu alumínio!
Ave por todas as tuas máquinas, ave!
Ave, ave, ave, por toda a força motriz que tu és!
Ave, ave, ave pelos teus arsenais e pelas tuas esquadras,
Ave, ave, ave, pelos teus barcos e pelas tuas fábricas,
Ave por toda a tua civilização de metal em obra,
Ave por todo o teu aço!
Ave por todo o teu alumínio!
Ave por todas as tuas máquinas, ave!
Ave, ave, ave, por toda a força motriz que tu és!
(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 226a, p. 557)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Guerra,
Heterónimos e afins
25 julho 2011
21 julho 2011
2366 anos da destruição do Templo de Ártemis em Éfeso (356 AC)
Não quero a fama, que comigo a têm
Heróstrato e o pretor
Heróstrato e o pretor
(Ricardo Reis, Poesia, II, 50, p. 80)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Fama,
Grécia,
Heterónimos e afins
19 julho 2011
125 anos da morte de Cesário Verde (1886)
[...] Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 106, p. 133)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Falecimento,
Heterónimos e afins,
Poesia
16 julho 2011
A pontuação da vida
A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 375, p. 340)
13 julho 2011
07 julho 2011
88 anos da morte de Guerra Junqueiro (1923)
[...] O Junqueiro não é um poeta. É um amigo de frases. Tudo nele é ritmo e métrica. A sua religiosidade é uma léria. A sua admiração da natureza é outra léria. [...]
(Alberto Caeiro entrevistado por Alexander Search, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 214)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
* Alexander Search,
Ambiente/Natureza,
Falecimento,
Fé,
Fingimento,
Heterónimos e afins,
Poesia,
Religião
05 julho 2011
829 anos do nascimento de “São” Francisco de Assis (1182)
[...] São Francisco de Assis: o abominável fundador de uma seita abominável.
(Ricardo Reis, Prosa, 39, p. 146)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Cristianismo,
Heterónimos e afins,
Mal,
Nascimento,
Religião,
Santos
01 julho 2011
29 junho 2011
Heteronimia
Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.
O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 26, p. 63)
O desdobramento do eu é um fenómeno em grande número de casos de masturbação.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 421, p. 477)

«Fernando Pessoa — Heterónimo»
Pintura de Costa Pinheiro (1978)
Pintura de Costa Pinheiro (1978)
26 junho 2011
Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror —
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa — o interrogar
[Dos] que me cercam...
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror —
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa — o interrogar
[Dos] que me cercam...
(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, 26)
24 junho 2011
23 junho 2011
1648 anos da morte de Juliano, último imperador pagão do Império Romano (363)
Ó Juliano Apóstata, que laço
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na minha vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e [] e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em prisões de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, []
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
É esse que me prende a quem tu foste,
Imperador sombrio e calmo, quem
É que em nós ambos é o mesmo alguém?
Porque sinto eu teu gesto no meu braço
Na minha vida tua morte.
Quem foste tu, que hoje me sabes tanto
A eu ter sido tu. Porque é que lembro
Teu vulto sério, o mando teu augusto,
Teu peito de alma, calmo e [] e justo,
Como o por Maio a Junho estéril pranto
Quando é Dezembro?
Imperador aceite pelas gentes
Do teu império em prisões de te querer,
Sóbrio, vergado sobre os livros, []
Agora, renascido,
Quero outra vez erguer os deuses mortos.
(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), pp. 353–354)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Cristianismo,
Império,
Império Romano,
Religião
22 junho 2011
22 Jun 1491 AC: Deus entrega os Dez Mandamentos a Moisés, segundo James Ussher (1581–1656)
1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões.
2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.
3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...
4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.
6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.
7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.
2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.
3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...
4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.
6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.
7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.
(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 73, p. 93)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Bíblia,
Deus,
Ética
20 junho 2011
17 junho 2011
Dia Mundial de Luta contra a Seca e a Desertificação
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Salvo erro, naturalmente.
(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 429)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Ambiente/Natureza,
Heterónimos e afins
15 junho 2011
Heteronimia?
Em resumo, o homem de escol tem por mister o dissociar-se, o viver várias vidas paralelas — uma com a inteligência, outra com a emoção, a terceira com a vontade. O sinal do homem superior é não haver unidade nele. A sua inteligência pode despir-se de todos os preconceitos, inclusive os que julgam que o não são; e, no mesmo tempo, a sua emoção seguir recta e justa o caminho da moral mais humana, a sua vontade empregar-se humildemente no mister menos intelectual ou emotivo.
[...]
Para viver esta tripla vida da alma é preciso poder vivê-la. Para ser independente das próprias emoções é preciso poder sê-lo. Se o homem vulgar, ou meio-vulgar, quiser viver a vida de um homem superior, é um imbecil e um imoral, porque não está nele o viver tal vida. A um poeta de segundo plano exige-se, naturalmente, certo grau moral, certa elegância social. Mas um Shakespeare pode ser, como foi, agiota; um Milton pode ser, como foi, mestre-escola. Quem não pode ser dois que seja um, pois, se quiser ser dois, ficará partido.
[...]
Para viver esta tripla vida da alma é preciso poder vivê-la. Para ser independente das próprias emoções é preciso poder sê-lo. Se o homem vulgar, ou meio-vulgar, quiser viver a vida de um homem superior, é um imbecil e um imoral, porque não está nele o viver tal vida. A um poeta de segundo plano exige-se, naturalmente, certo grau moral, certa elegância social. Mas um Shakespeare pode ser, como foi, agiota; um Milton pode ser, como foi, mestre-escola. Quem não pode ser dois que seja um, pois, se quiser ser dois, ficará partido.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 259)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Elite,
Heterónimos e afins
13 junho 2011
123 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)
Sê plural como o universo!

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 94)

Desenho de H. Mourato
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Heterónimos e afins,
Iconografia,
Nascimento
10 junho 2011
Dia de Portugal...
O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, I, p. 77)
... de Camões...
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção; que importa se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificam que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção da morte da citada alma como emoção sinceramente sua, ele teria encontrado uma forma nova, palavras novas, tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em verso, como usaria luto na vida.
(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 405, p. 467)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Camões,
Heterónimos e afins,
Poesia,
Sinceridade
... e das Comunidades Portuguesas
Como um vapor largando do cais para longa viagem,
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, [...]
Com a banda de bordo a tocar o hino nacional da Alma
Eu largado para X, perturbado pela partida
Mas cheio da vaga esperança ignorante dos emigrantes,
Cheio de fé no Novo, [...]
(Álvaro de Campos, “A Partida”, Poesia, 27c, p. 220)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Emigração,
Heterónimos e afins,
Portugal
08 junho 2011
Dia Mundial dos Oceanos

«Mar Portugués III»*
Pintura de Juan Soler
Pintura de Juan Soler
* (Fernando Pessoa, “Mar Português”, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)
Etiquetas:
“Mensagem”,
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Descobertas,
Iconografia,
Mar
06 junho 2011
163 anos do nascimento de Gomes Leal (1848)
Sr. Gomes Leal é um grande poeta. Mas é o pior grande poeta que conhecemos.
(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, X, 3, p. 330)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Nascimento,
Poesia
04 junho 2011
Véspera de eleições
[...] Esta opressão, que todos nós sentimos, esta vergonha de estarmos sendo governados por bacalhoeiros da política, [...]
(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 82, p. 195)
70 anos da morte de Guilherme II da Alemanha (1941)
Aí! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Alemanha,
Deficiência,
Falecimento,
Fama,
Heterónimos e afins
31 maio 2011
109 anos do fim da Segunda Guerra Boer (1902)
Ill scorn beseems us, men of war and trick,
Whose groaning nation poured her fullest might
To take the freedom of a farmer race.
[ O desdém fica-nos mal, homens da guerra e do embuste,
Cuja queixosa nação pôs todo o seu poder
Para tirar a liberdade de uma raça de agricultores. ]
Whose groaning nation poured her fullest might
To take the freedom of a farmer race.
(Alexander Search, “To England, II”, Poesia, 24, p. 54; em inglês no original)
[ O desdém fica-nos mal, homens da guerra e do embuste,
Cuja queixosa nação pôs todo o seu poder
Para tirar a liberdade de uma raça de agricultores. ]
(“À Inglaterra, II”; tradução nossa)
28 maio 2011
85 anos da Revolução de 28 de Maio e instauração da Ditadura Nacional (1926)
O argumento essencial contra uma ditadura é que ela é ditadura, isto é, que é ilegal. [...]
(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 227, p. 372)
25 maio 2011
49 anos da morte de Júlio Dantas (1962)
Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta critica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? [...] (Júlio Dantas nada: não é um grande poeta).
(Fernando Pessoa, “Estética”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 6, p. 122)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Arte,
Falecimento,
Literatura
23 maio 2011
475 anos da instauração da Inquisição em Portugal (1536)
[...] decaído o arabismo, ficou a parte inferior dele — o fanatismo religioso. Esse, que tinha facilidade demais para entrar para o cristianismo, deu uma das formas crististas mais desoladoramente antipáticas que tem havido — este catolicismo de selvagens da nossa península, esta fé que havia de produzir a Inquisição, esses circenses do povo ibérico. Na parte inarabizada da Península, o Norte, o cristismo fanático dos inquisidores nunca pegou.
(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 256)
22 maio 2011
Início da campanha eleitoral
[...] A política partidária é a arte de dizer a mesma coisa de duas maneiras diferentes. [...]
(Fernando Pessoa, “O Burro e as Duas Margens”, Pessoa Inédito, 270, p. 427)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Eleições,
Política,
Portugal
20 maio 2011
17 maio 2011
Dia Internacional contra a Homofobia
Eu nunca fui dos que a um sexo o outro
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza eu apeteço
Seja onde for, beleza.
No amor ou na amizade preferiram.
Por igual a beleza eu apeteço
Seja onde for, beleza.
(Ricardo Reis, Poesia, II, 156, p. 143)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
Amizade,
Amor,
Beleza,
Heterónimos e afins,
Homossexualidade,
Sexo
16 maio 2011
15 maio 2011
Dia Internacional das Famílias
A doçura de não ter família nem companhia, esse suave gosto como o do exílio, em que sentimos o orgulho do desterro esbater-nos em volúpia incerta a vaga inquietação de estar longe — tudo isto eu gozo a meu modo, indiferentemente. [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 199, p. 205)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Estado de espírito,
Família,
Heterónimos e afins,
Solidão
13 maio 2011
94 anos da primeira “aparição” de Fátima (1917)
O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 52, p. 177)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Fátima,
Misticismo,
Portugal
11 maio 2011
09 maio 2011
15 anos do «Affaire Sokal» (Maio de 1996)
Sociology is wholesale muddle; who can stand this Scholasticism in the Byzantium of today?
[ A sociologia é uma trapalhada geral; quem pode suportar tal escolástica na Bizâncio de hoje? ]
(Fernando Pessoa, “Personal Notes”,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 138;
em inglês no original)
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 138;
em inglês no original)
[ A sociologia é uma trapalhada geral; quem pode suportar tal escolástica na Bizâncio de hoje? ]
(“Notas Pessoais”, p. 139; trad. Manuela Rocha)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ciência,
Sociologia
06 maio 2011
03 maio 2011
556 anos do nascimento de D. João II (1455)
UMA ASA DO GRIFO:
D. JOÃO, O SEGUNDO
Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidável vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 119)
01 maio 2011
Dia da Mãe
À Minha Querida Mamã
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.*
* Provavelmente, o primeiro poema de Fernando Pessoa: está datado de 26/07/1895, quando o poeta tinha apenas 7 anos.
Eis-me aqui em Portugal
Nas terras onde eu nasci
Por muito que goste delas
Ainda gosto mais de ti.*
(Fernando Pessoa, O Melhor do Mundo São as Crianças, p. 16)
* Provavelmente, o primeiro poema de Fernando Pessoa: está datado de 26/07/1895, quando o poeta tinha apenas 7 anos.
125 anos do Massacre de Haymarket (Chicago) e da luta pelo dia de trabalho de 8 horas (1886)
Henry Ford acaba de criar em suas fábricas a semana de cinco dias. E acaba de propor à consideração do mundo, como exemplo a seguir, esta redução filantrópica do trabalho dos seus operários. Sucede, porém, que já se sabe que os fabricantes de outros carros baratos americanos estão entrando pelas vendas dos automóveis Ford; que, ao passo que durante anos Ford produzia mais de metade dos automóveis fabricados nos Estados Unidos, produz agora [1926] apenas cerca de trinta e cinco por cento do total; que as fábricas Ford se vêem portanto confrontadas com o problema da sobre-produção, forçadas a produzir apenas sessenta e cinco por cento da sua capacidade, e obrigadas pois a trabalhar só quarenta horas por semana.
De sorte que, ao proclamar ao mundo como novo lema económico e moral a semana dos cinco dias, Henry Ford, sem ter que inventar para si um novo preceito prático, se limitou a seguir aquele, que é admirável, do mestre Macchiavelli: O que fazemos por necessidade, devemos fazer parecer que foi por vontade nossa que o fizemos.
De sorte que, ao proclamar ao mundo como novo lema económico e moral a semana dos cinco dias, Henry Ford, sem ter que inventar para si um novo preceito prático, se limitou a seguir aquele, que é admirável, do mestre Macchiavelli: O que fazemos por necessidade, devemos fazer parecer que foi por vontade nossa que o fizemos.
(Fernando Pessoa, “Os preceitos práticos em geral e os de Henry Ford em particular”,
Crítica, pp. 341–342)
Crítica, pp. 341–342)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Comunismo,
Economia/Finanças,
EUA,
Moral,
Revolução/Revolta,
Trabalho
30 abril 2011
66 anos do suicídio de Adolf Hitler (1945)
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1926), Poesia, 65, p. 300)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Alemanha,
Falecimento,
Guerra,
Heterónimos e afins,
Hitler,
Nazismo,
Suicídio
A função social da dúvida
A função do escol não é orientar, porque é duvidar, e com a dúvida não se orienta. A sua função é criar uma atmosfera de inteligência, de cultura livre, por meio da qual os fanáticos sintam o seu fanatismo mais atenuado, os seguros de si hesitem de vez em quando, os que trazem a verdade na algibeira vão de vez em quando verificar se ela está lá.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Cultura,
Elite,
Fanatismo,
Inteligência/Intelecto,
Verdade
28 abril 2011
66 anos da execução de Benito Mussolini pelos Partigiani (1945)
[...] se, por exemplo, um italiano [...] algures atacar [...] Mussolini como tirano da Itália, nada faz de ilícito, em nada ataca a sua pátria, antes, a seu modo, a defende; [...]
(Fernando Pessoa, “O nacionalismo liberal”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 83, p. 348)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ditadura,
Falecimento,
Fascismo,
Guerra,
Itália,
Revolução/Revolta,
Tirania
26 abril 2011
25 abril 2011
Dia da Liberdade
[...] O amor cobarde que todos temos à liberdade — que, se a tivéssemos, estranharíamos, por nova, repudiando-a — é o verdadeiro sinal do peso da nossa escravidão. [...]
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 167, p. 180)
Etiquetas:
Ditadura,
História de Portugal,
Liberdade,
Revolução/Revolta
23 abril 2011
395 anos da morte de William Shakespeare (1616) e, talvez, 447 anos do seu nascimento (1564)*
O homem está acima do cidadão. Não há Estado que valha Shakespeare.
* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor inglês morreu 10 dias depois do espanhol (a 3 de Maio, segundo o calendário gregoriano).
A coincidência (aparente) das datas foi um forte incentivo (entre outros) para que o dia 23 de Abril fosse declarado Dia Mundial do Livro.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 64)
* A data de nascimento de Shakespeare não é conhecida com exactidão, mas sabe-se que foi baptizado a 26 de Abril, sendo nessa altura habitual o baptismo ocorrer ao segundo ou terceiro dia de vida da criança; a tradição mantém que o escritor morreu no dia do seu 52.º aniversário.
Miguel de Cervantes morreu também a 23 de Abril de 1616, mas note-se que não no mesmo dia de Shakespeare: nessa altura a Inglaterra seguia ainda o calendário juliano, e não o gregoriano (adoptado no mundo católico em 1582), pelo que o autor inglês morreu 10 dias depois do espanhol (a 3 de Maio, segundo o calendário gregoriano).
A coincidência (aparente) das datas foi um forte incentivo (entre outros) para que o dia 23 de Abril fosse declarado Dia Mundial do Livro.
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Estado,
Falecimento,
Indivíduo,
Livros,
Nascimento
20 abril 2011
18 abril 2011
154 anos da publicação de O Livro dos Espíritos por Allan Kardec, fundador do Espiritismo (1857)
Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos (delirantes sistematizados) justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.
(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 430, p. 382)
Etiquetas:
* Bernardo Soares,
Heterónimos e afins,
Loucura,
Misticismo,
Religião
16 abril 2011
122 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)
Não pretendo ser mais que o maior poeta do mundo. [...]
[...] No fundo sou o mesmo que Deus.
Nota: Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)
(Alberto Caeiro entrevistado por Alexander Search, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 214)
[...] No fundo sou o mesmo que Deus.
(Alberto Caeiro, “Anarquismo”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 325, p. 360)
Nota: Como muitas datas na cronologia do universos pessoano, também a data de “nascimento” de Alberto Caeiro não é consensual: Abril de 1889 surge mais frequentemente, mas Thomas Crosse, o ficcionado inglês divulgador da obra de Caeiro, aponta-lhe o nascimento para Agosto de 1887 e a morte para Junho de 1915. (Thomas Crosse, Pessoa por Conhecer, vol. II, 388, pp. 439–440)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
* Alexander Search,
* Thomas Crosse,
Deus,
Heterónimos e afins,
Nascimento,
Poesia
13 abril 2011
Iconografia pessoana

«Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!»*
Pintura de Carlos Calvet (1987)
Pintura de Carlos Calvet (1987)
* (Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 108)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Iconografia
11 abril 2011
78 anos da entrada em vigor da Constituição de 1933 (Estado Novo)
POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO
Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!
A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!
E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —
Abandona o padrão-ouro,
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!
Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!
Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.
Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!
Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe-ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!
Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!
União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.
Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões —
Finanças em mise-en-plis!
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!
Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!
Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mos todos.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 434–436)
08 abril 2011
Iconografia pessoana
05 abril 2011
A elite e os ideais políticos ou religiosos
Desde que um homem capaz de fazer obra de escol, isto é, de ciência ou de arte, põe a sua capacidade ao serviço de um ideal religioso ou de um ideal político, trai a sua missão. Um católico não pode examinar o texto do Novo Testamento, pois fatalmente o não poderá examinar com isenção. O estudo de um regime monárquico não pode decentemente ser feito por um republicano — nem por um monárquico.
(Fernando Pessoa, Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, p. 258)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Arte,
Bíblia,
Ciência,
Cristianismo,
Elite,
Ideologias,
Igreja Católica,
Monarquia,
Política,
República
03 abril 2011
149 anos da publicação de Os Miseráveis (1862)
[...] obra intolerável do infeliz chamado Victor Hugo [...]
(Ricardo Reis, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 353)
Etiquetas:
* Ricardo Reis,
França,
Heterónimos e afins,
Livros
01 abril 2011
Dia das Mentiras
Não se preocupem comigo: também tenho a verdade.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
Tenho-a a sair da algibeira como um prestidigitador.
(Álvaro de Campos, Poesia, 110, p. 379)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Mentira,
Verdade
31 março 2011
284 anos da morte de Isaac Newton (1727)
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
(Álvaro de Campos, Poesia, 243, p. 587)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Arte,
Ciência,
Estética,
Falecimento,
Heterónimos e afins,
Matemática
29 março 2011
Hábitos de leitura
I have outgrown the habit of reading. I no longer read anything except occasional newspapers, light literature and casual books technical to any matter I may be studying and in which simple reasoning may be insufficient.
The definite type of literature I have almost dropped. I could read it for learning or for pleasure. But I have nothing to learn, and the pleasure to be drawn from books is of a type that can with profit be substituted by that which the contact with nature and the observation of life can directly give me.
[ Deixei para trás o hábito da leitura. Já não leio nada excepto um ou outro jornal, literatura ligeira e, ocasionalmente, livros técnicos relativos a qualquer matéria que esteja a estudar e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
A literatura propriamente dita quase abandonei. Podia lê-la por aprendizagem ou por prazer. Mas não tenho nada a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é de um género que pode ser substituído com proveito pelo que o contacto com a natureza e a observação da vida me podem proporcionar directamente. ]
The definite type of literature I have almost dropped. I could read it for learning or for pleasure. But I have nothing to learn, and the pleasure to be drawn from books is of a type that can with profit be substituted by that which the contact with nature and the observation of life can directly give me.
(Fernando Pessoa, “Personal Notes”,
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 136;
em inglês no original)
Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 136;
em inglês no original)
[ Deixei para trás o hábito da leitura. Já não leio nada excepto um ou outro jornal, literatura ligeira e, ocasionalmente, livros técnicos relativos a qualquer matéria que esteja a estudar e em que o simples raciocínio possa ser insuficiente.
A literatura propriamente dita quase abandonei. Podia lê-la por aprendizagem ou por prazer. Mas não tenho nada a aprender, e o prazer que se obtém dos livros é de um género que pode ser substituído com proveito pelo que o contacto com a natureza e a observação da vida me podem proporcionar directamente. ]
(“Notas Pessoais”, p. 137; trad. Manuela Rocha)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Ambiente/Natureza,
Literatura,
Livros
27 março 2011
Dia Mundial do Teatro
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?

(Álvaro de Campos, “Paragem. Zona”, Poesia, 125, p. 402)

Fotografia de cena do monólogo/performance
Encontro com Fernando Pessoa
Teatro Municipal Café Pequeno
(Leblon, Rio de Janeiro, Brasil), Nov/Dez 2009
Interpretação: Paulo César Oliveira
Direcção: Jacqueline Laurence
Encontro com Fernando Pessoa
Teatro Municipal Café Pequeno
(Leblon, Rio de Janeiro, Brasil), Nov/Dez 2009
Interpretação: Paulo César Oliveira
Direcção: Jacqueline Laurence
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Heterónimos e afins,
Iconografia,
Teatro
24 março 2011
Dia Mundial da Tuberculose
Estupores de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos,
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com a alma como uma galinha presa por uma perna!
(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 127)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Cobardia,
Heterónimos e afins,
Saúde
21 março 2011
Dia Mundial da Árvore
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, V”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 48)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
Ambiente/Natureza,
Filosofia,
Heterónimos e afins
Dia Mundial da Poesia
O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir.
[...]
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.
[...]
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.
(Álvaro de Campos, “Notas para a Recordação do Meu Mestre Caeiro”, 31,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 176–177)
Poemas Completos de Alberto Caeiro, pp. 176–177)
Etiquetas:
* Alberto Caeiro,
* Álvaro de Campos,
Fingimento,
Heterónimos e afins,
Poesia,
Sinceridade
19 março 2011
17 março 2011
150 anos da proclamação do Reino de Itália (1861)
[...] o tipo moderno do italiano, de Garibaldi a Fiume, é uma ficção e um arremedo, imitado do francês e sem graça nem personalidade. [...]
(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 9, p. 87)
15 março 2011
Dia Mundial dos Direitos do Consumidor
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
[...]
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
[...]
(Álvaro de Campos, “Dobrada à moda do Porto”, Poesia, 198, p. 510)
12 março 2011
6 anos de governos de José Sócrates
[...] Sócrates foi, na verdade, o chefe dos sofistas; na verdade foi inimigo da Pátria.
(António Mora, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, I, 16, p. 22)
Etiquetas:
* António Mora,
Filosofia,
Governo,
Heterónimos e afins,
Pátria
10 março 2011
08 março 2011
Dia Internacional da Mulher
[...] trazendo consigo a doutrina repugnante e ímpia da igualdade dos sexos [...]
(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 32, p. 213)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Direitos Humanos,
Feminismo,
Machismo
Carnaval
Aquela falsa e triste semelhança
Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,
Isto não é o Carnaval, nem eu.

Entre quem julgo ser e quem eu sou.
Sou a máscara que volve a ser criança,
Mas reconheço, adulto, aonde estou,
Isto não é o Carnaval, nem eu.
(Álvaro de Campos, “Carnaval”, Poesia, 6d, p. 73)

«Heterónimos de Fernando Pessoa»
Pintura de Lívio de Morais
Pintura de Lívio de Morais
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Carnaval,
Fingimento,
Heterónimos e afins,
Iconografia
05 março 2011
86 anos do nascimento de Lindley Cintra (1925)
A sorte de um povo depende do estado da sua gramática. Não há grande nação sem propriedade de linguagem.
A gramática é mais perfeita que a vida. A ortografia é mais importante que a política. A pontuação dispensa a humanidade.
¤
A gramática é mais perfeita que a vida. A ortografia é mais importante que a política. A pontuação dispensa a humanidade.
(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 63)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
Humanidade,
Língua Portuguesa,
Línguas,
Nascimento,
Política,
Povo
04 março 2011
Dia Mundial da Matemática
[...] Tanto os puros matemáticos como os leigos em matemática tendem a atribuir a esta ciência um carácter de «certeza» que não é necessariamente exacto. A matemática é uma linguagem perfeita, mais nada. [...]
(Álvaro de Campos, “O que é a Metafísica?”, Crítica, p. 232)
Etiquetas:
* Álvaro de Campos,
Certeza/Incerteza,
Heterónimos e afins,
Matemática,
Perfeição
01 março 2011
27 fevereiro 2011
501 anos da conquista de Goa por Afonso de Albuquerque (1510)
A OUTRA ASA DO GRIFO:
AFONSO DE ALBUQUERQUE
De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte,
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.
(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, V, p. 121)
Etiquetas:
* Fernando Pessoa (ortónimo),
História de Portugal,
Império
Subscrever:
Mensagens (Atom)

























