22 julho 2012

Utilidade e eternidade da Arte

— Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes — tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, I, 1, p. 3)

20 julho 2012

Terceiro dia do incêndio que consumiu 1/3 do concelho de Tavira e 1/4 do de S. Brás de Alportel

Comandante, envio junto
Para os Bombeiros de Faro,
Um carro, à falta de assunto,
Que um assunto é sempre caro.
(Pronto-socorro não é,
Mas pronto está, como vê.)

É leve e longo, e o pessoal
É firme e disciplinado,
Nem há pane ou susto tal
Que o tire de estar sentado.
(P’ra andar, meta-o na algibeira
E ande com ele: é a maneira.)

Convém advertir também,
E faço-o sem mais demora,
A vantagem que ele tem
P’ra tempos como os de agora:
Não tem consumo ou dispêndio.

(Não o use em casos de incêndio.)

O BOMBEIRO X

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 121)

19 julho 2012

126 anos da morte de Cesário Verde (1886)

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, III”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 45)

17 julho 2012

Inauguração do troço de metro entre a Estação do Oriente e o Aeroporto de Lisboa

Caricaturista António junto a duas das suas caricaturas
na nova estação de metro do Aeroporto:
Amadeo de Souza Cardoso e Fernando Pessoa.
(Fotografia de Carla Rosado/Público)

14 julho 2012

223 anos da Tomada da Bastilha (1789)

As revoluções, como vimos, baseiam-se num sentimento forte de injustiça, sentimento que se torna geral. Ora um sentimento geral e forte de injustiça gera por força ideias absurdas. Em 1.º lugar, um sentimento forte é uma condição negativa para a lucidez; quem estuda apaixonadamente (salvo no sentido de entusiasmo intelectual) um problema, estuda-o sempre mal. Em 2.º lugar, um sentimento de injustiça envolve sempre um ódio ou rancor a quem a pratica; e a teoria nascida, ou adaptada, por esse sentimento tenderá fatalmente a ser excessiva no sentido contrário — não só a desfazer a injustiça, como a castigá-la, isto é, a ferir e vingar-se nos que a praticam, ou se supõe que a praticam. Resultará uma teoria tão injusta como a prática a que essa teoria se contrapõe. Em 3.º lugar, os problemas que uma revolução busca resolver são sempre problemas sociais, todos, por natureza, de uma grande complexidade. Ora, uma teoria de contra-injustiça, para ser geralmente sentida, tem que ser simples; porque o geral da humanidade não pode compreender ideias complexas. A teoria tem portanto que ser inadaptável à complexidade do problema.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, pp. 258–259)

13 julho 2012

À atenção do Dr. Relvas

As qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias para governar o Estado. [...]
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 112)

11 julho 2012

Dia Mundial da População

O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada

(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 460)

08 julho 2012

515 anos da partida de Vasco da Gama para a Índia (1497)

cidade-barco
Ilustração de Pedro Sousa Pereira
para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)

05 julho 2012

05 de Julho de 1932: Salazar, o “Ditador da Finanças”, assume a chefia do Governo

O prestígio de Salazar não se deriva da sua obra financeira, tanto porque, sendo essa obra uma obra de especialidade, o público não tem competência, nem pretende ter competência, para a compreender, como porque o acolhimento calorosamente favorável, que essa obra teve, denotava já um prestígio anterior. O prestígio de Salazar nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras frases como ministro, e as suas primeiras acções como administrador, por um fenómeno psíquico simples de compreender.

Todo prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se sente incapaz de ter. O povo português é essencialmente descontínuo na vontade e retórico na expressão: não há coisa portuguesa que seja levada avante com firmeza e persistência; não há texto genuinamente português que não diga em vinte palavras o que se pode dizer em cinco, nem deixe de incoerir e romantizar a frase. Logo desde o princípio, Salazar marcou, e depois acentuou, uma firmeza de propósito e uma continuidade de execução de um plano; logo desde o princípio falou claro, sóbrio, rígido, sem retórica nem vago. O seu prestígio reside nessa formidável impressão de diferença do vulgo português.

No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, de maledicentes por impotência e espirituosos por falta de assunto intelectual, o lente de Coimbra (Santo Deus!, de Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral. Depois dos Afonsos Costas, dos Cunhas Leais, de toda a eloquência parlamentar sem ontem nem amanhã na inteligência nem na vontade, a sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de brônzeo e de fundamental. Se o é deveras, e se a obra completa o que a intenção formou, são já assuntos de especialidade, e sobre os quais nem o público, que deles nada sabe, nem eu, que sei tanto como o público, poderemos falar com razão ou proveito.

De este prestígio resulta o contraste com Afonso Costa. Quando este apresentou, em 1912 (?), o seu superavit, foi recebido à gargalhada pelo público, e os seus próprios partidários tiveram de fazer esforços sobre si mesmos para ter fé na obra, como a tinham no homem. Quando Salazar apresentou o superavit, todo o grande público imediatamente o aceitou. Não foi pois o superavit, comum aos dois que provocou o prestígio: o prestígio de um, o não prestígio de outro, eram anteriores ao espectáculo financeiro.

(Fernando Pessoa, “Interregno”, Da República (1910–1935), 129, pp. 384–385)

04 julho 2012

236 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776)

[...] Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. [...]

(Fernando Pessoa, “O Provincianismo Português”, Crítica, p. 372)

01 julho 2012

Pessoa, sempre — todos os dias: Julho de 2012

Calendário pessoano: Julho de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 junho 2012

Realistas e românticos

Realists do small things, romantics great ones. A man must be a realist to be manager of a tin-tackfactory. He must be a romantic to be manager of the world.
It needs a realist to find reality; it needs a romantic to create it. Napoleon is only a poet, Cromwell an enthusiast, Caesar a rhetorician.


(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 33, p. 204; em inglês no original)



[ Os realistas fazem as pequenas coisas, e os românticos as grandes. Para se ser gerente de uma fábrica de tachas, tem de se ser realista. Para se gerir o mundo, tem de se ser romântico.
Só um realista pode encontrar a realidade; só um romântico a pode criar. Napoleão é apenas poeta, Cromwell um entusiasta, César um retórico. ]


(idem, p. 252; trad. Jorge Rosa)

27 junho 2012

Iconografia pessoana

«Fernando Pessoa»
Pintura de Juan Soler

24 junho 2012

Dia de “São” João

Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 59)

22 junho 2012

379 anos da condenação de Galileu Galilei pelo Tribunal do Santo Ofício (1633)

[...] a crítica da atmosfera religiosa produz maiores espíritos que aquela que se exerce no vácuo. Kant assim surgiu.

A desastrada argumentação que citaria para o caso as circunstâncias que oprimiram Galileu e Servet, esqueceria sem dúvida que estava confundindo o predomínio religioso com a falta de civilização. São dois factos que importa não confundir. Se nós víssemos que nesses tempos as penalidades criminais eram de uma suavidade enorme, que eram de uma leniência acentuada as sentenças dos juízes, e que ao mesmo tempo esses hereges aparecessem queimados, enforcados, mortos, seria então o caso de atribuir à religião uma culpa que ela efectivamente teria. Mas a religião defendia-se, como é natural, e defendia-se com as armas do tempo; com as mesmas armas com que se defendia qualquer estado. [...]

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 235 , p. 282)

20 junho 2012

Dia Mundial do Refugiado

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

17 junho 2012

Certezas

Distinguirei, no fenómeno chamado certeza, a parte subjectiva e a objectiva — a certeza em si, e aquilo de que há certeza. Considerada em si, a certeza nada vale. Nenhum de nós tem mais certeza de ter diante de si esta página que tem um perseguido de estar sendo perseguido por numerosos «inimigos», ou um megalómano de ser Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo. O lugar das certezas absolutas, inteiras, que não sentem dúvida nem hesitação, é o manicómio.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. II, p. 246)

15 junho 2012

42 anos da morte de Almada Negreiros (1970)

Pintura de José de Almada Negreiros

14 junho 2012

46 anos da abolição do Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos) pelo Vaticano (1966)

[...] Hoje a um livro herético responde, pela brandura dos costumes do tempo, uma proibição dum bispo de que os seus diocesanos leiam; [...]

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 235 , p. 282)

13 junho 2012

124 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)

Desenho de H. Mourato