11 novembro 2012

Dia de “São” Martinho

Boa é a vida, mas melhor é o vinho.

(Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930–1935), 53)

151 anos da morte de D. Pedro V (1861)

D. PEDRO V


Quando Deus viu que o rei D. Pedro Quinto
Longe de má pessoa, com acinto
Ao bem e à verdade se cingia
Assobiou e resmungou «errei
Lá vai este destoar, por ser bom rei,
Daquela estuporada dinastia
Que eu destinara a exemplificar
Perante o mundo o mal da monarquia
Nada, volva a infâmia ao seu lugar
Se não com este era a obra desfeita
Da infâmia completa de governar
Que nos Bragança ia tão perfeita.»
Matou-o novo pois para não destoar.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 203, p. 341)

10 novembro 2012

121 anos da morte de Arthur Rimbaud (1891)

Invejo a tua vida arremessada,
Atirada p’ra longe, p’ra perder-se...
Vida que abre as velas, e ei-la a encher-se
De si sem pensar em ter uma chegada,
E de estar longe sem pensar em ver-se.

Invejo a tua vida e tenho dela
Que não foi minha, como que saudades,
Descem em mim obscuras ansiedades
Um mar em mim tormentas em capela
Feitas das minhas ocas saciedades.

Possuidor do Longe que sonhaste,
Torturado por tua imperfeição...
Não sei porque tu não viveste são
Flor que tanto soube ser alta na haste
Que em vício e sombra... mas desabrochaste
E a tua vida foi o teu perdão.

(Fernando Pessoa, “A Vida de Arthur Rimbaud”, Poesia (1902–1917), pp. 141–142)

09 novembro 2012

74 anos da Kristallnacht, noite de violência antijudaica por toda a Alemanha Nazi (1938)

Abram todas as portas!
Partam os vidros das janelas!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24p, p. 182)

23 anos da queda do Muro de Berlim (1989)

Grande libertador
Que arrasaste os muros da cadeia velha

(Álvaro de Campos, “A Partida”, Poesia, 27o, p. 233)

08 novembro 2012

Iconografia pessoana

«Pessoa Revisited»
Banda-desenhada de Rafa Infantes

(Álvaro de Campos, “Lisbon Revisited” (1923), Poesia, 47, pp. 271–272;
“Lisbon Revisited” (1926), Poesia, 65, pp. 300–302)

07 novembro 2012

95 anos da Revolução Bolchevique (1917)*

Não há correntes proletárias, não há bolchevismo (nem na Rússia), não há radicalismo em parte nenhuma. [...] Os operários são todos uns idiotas, e os seus chefes, ou idiotas também, ou loucos; [...]

(Álvaro de Campos, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 415)


* 25 de Outubro, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.

06 novembro 2012

Eleições americanas

[...] As próprias eleições, dada a complexidade e o custo do maquinismo eleitoral, nunca podem ser vencidas senão por partidos eleitoralmente organizados. O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão, o que é diferente. Tudo é oligárquico na vida das sociedades. [...]

(Álvaro de Campos, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 415)

04 novembro 2012

Clássicos e românticos

A classic is a man who expresses himself; a romantic a man who has a lot of self to express and expresses that but no more. [...]

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 31, p. 203;
em inglês no original)



[ Um clássico é um homem que se exprime; um romântico, um homem que tem muito de si para exprimir e que o exprime, mas daí não passa. [...] ]

(idem, p. 252; trad. Jorge Rosa, com alterações)

02 novembro 2012

1 ano do atentado contra a redacção do semanário satírico francês Charlie Hebdo (2011)

Torturador obscuro, tomo ódio
A esta ridente humanidade toda,
Folgo de lhes pensar torturas na alma,
Com que perdessem esse riso e até
As lágrimas na dor e no pavor.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, 17)

01 novembro 2012

Pessoa, sempre — todos os dias: Novembro de 2012

Calendário pessoano: Novembro de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
1 de Novembro: um feriado marcado para morrer...

31 outubro 2012

217 anos do nascimento de John Keats (1795)

I cannot think badly of the man who wrote the Ode to a Nightingale, nor of him who, in that «to the Grecian Urn», expresses so human an idea as the heart-rending untimeness of beauty. We all have felt that tearful sensation. [...]

(Fernando Pessoa, “Keats”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, IX, 10, p. 312;
em inglês no original)



[ Não posso pensar mal do homem que escreveu Ode a um Rouxinol nem daquele que, em «a uma Urna Grega», exprime uma ideia tão humana como a dilacerante intemporalidade da beleza. Todos nós tivemos já essa lacrimosa sensação. [...] ]

(idem, p. 313; trad. Jorge Rosa, com alterações)

30 outubro 2012

28 outubro 2012

156 anos da inauguração da primeira linha férrea em Portugal (1856)

No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada —
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela —
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não —
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...

(Fernando Pessoa, “Canções para acordar crianças, III”, O Melhor do Mundo São as Crianças, p. 13)

25 outubro 2012

Tipografia pessoana

Tristes das almas humanas, que põem tudo em ordem, / Que traçam linhas de coisa a coisa, / Que põem letreiros com nomes nas árvores absolutamente reais, / E desenham paralelos de latitude e longitude / Sobre a própria terra inocente e mais verde e florida do que isso!
(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XLV”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 95)

22 outubro 2012

67 anos da criação da PIDE, sucedendo à PVDE (1945)

Ah, a opressão de tudo isto!

(Álvaro de Campos, “Vilegiatura”, Poesia, 199, p. 511)

21 outubro 2012

207 anos da Batalha de Trafalgar (1805)

[...] Também no terceiro período a Inglaterra nada criou de civilizacional; criou a sua própria grandeza e nada mais — visto que a hegemonia europeia tem sido mais sua do que de outra nação no século XIX, conforme o vincaram para a história Nelson, em Trafalgar, e Wellington, em Waterloo.

(Fernando Pessoa, “A Nova Poesia Portuguesa sociologicamente considerada”, Crítica, p. 11)

18 outubro 2012

Escrita: supérfluo vs. necessário

Quem escreve para obter o supérfluo como se escrevesse para obter o necessário, escreve ainda pior do que se para obter apenas o necessário escrevesse.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 8, p. 126)

15 outubro 2012

122 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890) — take 2*

[...] pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. [...]

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, p. 340)


* Um horóscopo de Álvaro de Campos, manuscrito pelo próprio Fernando Pessoa, coloca o “nascimento” do heterónimo à 1h17 da tarde de 13 de Outubro de 1890. Em carta a Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, Fernando Pessoa apresenta uma cronologia ligeiramente diferente: Álvaro de Campos teria nascido à 1h30 da tarde do dia 15 de Outubro. (Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, pp. 344–345)

13 outubro 2012

Dia Internacional dos Cuidados Paliativos

Dói-me quem sou. [...]

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 357)

122 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890)

«Álvaro de Campos»
Pintura de Juan Soler

12 outubro 2012

520 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas (1492)

It is idle, though perhaps interesting, to discuss what Columbus was, historically; sociologically, he is Portuguese.

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 38, p. 211;
em inglês no original)



[ É ocioso, embora talvez interessante, discutir quem foi Colombo historicamente; sociologicamente era português. ]

(idem, p. 260; trad. Jorge Rosa)

11 outubro 2012

Prémio Nobel da Literatura

I must write my book. I dread what the truth may be. Yet, be it bad, I have to write it. God get the truth be not bad!

I should like to have written this in better style, but my power of writing is gone.


(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 49, p. 77; em inglês no original)




[ Tenho de escrever o meu livro. Tremo de pensar qual possa ser a verdade. Mas, por má que seja, tenho que escrevê-lo. Queira Deus que a verdade não seja má!

Gostaria de ter escrito isto num melhor estilo, mas a minha capacidade para escrever foi-se. ]


(idem; tradução com alterações)

10 outubro 2012

Dia Mundial da Saúde Mental

[...] Partiu-se a corda do automóvel velho que trago na cabeça, e o meu juízo, que já não existia, fez tr-tr-r-r-...

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 86, p. 172)




And Madness like my breath is within me.

(Alexander Search, “Soul-Symbols”, Poesia, 36, p. 88; em inglês no original)


[ E a Loucura, como o sopro, está em mim. ]

(“A Alma em Símbolos”, p. 89; trad. Luísa Freire)

07 outubro 2012

Iconografia pessoana

«Heterónimos»
Pintura de Bartolomeu Cid dos Santos

05 outubro 2012

102 anos da Implantação da República (1910)

O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!

Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos — porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida), gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos — de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regime a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 47, p. 149)


O nosso Presidente é que deve saber:
Cavaco Silva hasteia a bandeira nacional invertida durante as comemorações do 5 de Outubro
Fotografia de de Natacha Cardoso (Global Imagens)
Por isso, refazemos aqui o calendário de Outubro:
Calendário pessoano: Outubro de 2012 (agora com feriado de pernas para o ar)
5 de Outubro: um feriado marcado para morrer... (agora de pernas para o ar)

04 outubro 2012

182 anos da Declaração de Independência da Bélgica (1830)

[...] uma pseudonação como, por exemplo, a Bélgica [...], a que falta, logo de princípio, a base linguística para mostrar ao mundo que tem personalidade. [...]

(Fernando Pessoa, “Catalunha”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 19, p. 184)

03 outubro 2012

786 anos da morte de “São” Francisco de Assis (1226)

[...] S. Francisco de Assis, um dos mais venenosos e traiçoeiros inimigos da mentalidade ocidental.

(Fernando Pessoa, “Nós os de Orpheu”, Crítica, p. 523)

01 outubro 2012

Dia Mundial da Música

A música é apenas a forma subtilizada das artes de comunicação social. A música é a forma abstracta de entreter.

(Ricardo Reis, Prosa, 61, p. 211)

Pessoa, sempre — todos os dias: Outubro de 2012

Calendário pessoano: Outubro de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
5 de Outubro: um feriado marcado para morrer...

30 setembro 2012

Dia Internacional do Direito à Blasfémia*

De que maneira, por que processo reconheceremos o esteta, propriamente tal, na sua obra? Quais são os sinais necessários da aplicação do ideal estético? [...] Como distinguiremos o esteta do [...] revoltado, que procura o pecado só porque é pecado, e blasfema [...] só para ter a consciência da blasfémia? [...]

(Fernando Pessoa, “António Botto e o Ideal Estético em Portugal”, Crítica, p. 179)



* Dia que, desde 2009, celebra o direito à liberdade de expressão, incluindo à crítica e sátira religiosas. A data foi escolhida para coincidir com o aniversário da publicação, em 2005, de uma série de cartoons sobre Maomé num jornal dinamarquês, evento que, meses mais tarde, desencadearia forte polémica no mundo islâmico.

Dia Internacional da Tradução

[...] uma tradução é perfeita quando parece não ser uma tradução) [...]

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 177)

29 setembro 2012

29 anos da morte de Mário Botas (1983)

«Retrato de Fernando Pessoa»
Pintura de Mário Botas (1982)

27 setembro 2012

Dia Mundial do Turismo

A vida é uma viagem que uns fazem em caixeiros-viajantes, outros em navios em lua de mel, e outros, como eu, em tourists. Eu atravesso a vida para olhar para ela. Tudo é paisagem para mim, como para o bom tourist — campos, cidades, casas, fábricas, luzes, bares, mulheres, dores, alegrias, dúvidas, guerras []. Quero, para aproveitar a minha viagem, sentir o maior número de coisas no mais pequeno espaço de tempo possível. Sentir tudo de todas as maneiras, amar tudo de todas as formas, tocar e ver coisas e não lhes pegar, passar por elas e não olhar para trás — parece-me o único destino digno dum poeta.

(Álvaro de Campos, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 232)

26 setembro 2012

Dia Europeu das Línguas

A real man cannot be, with pleasure and profit, anything more than bilingual. One language, even if carefully codified in its rules and precisions, is difficult enough to hold and spread out; two are the human limit for any man who is not born to suicide as a philologist of the useless.

(Fernando Pessoa, “Babel — Or the Future of Speech”, Pessoa Inédito, 43, p. 154; em inglês no original)



[ Um verdadeiro homem só pode ser, com prazer e proveito, bilingue. Uma língua, ainda que minuciosamente codificada nas suas regras e normas, é bastante difícil de dominar e difundir; duas são o limite humano de qualquer homem que não nasceu para se suicidar como filólogo da inutilidade. ]

(idem, p. 155)

23 setembro 2012

73 anos da morte de Sigmund Freud (1939)

Ora, a meu ver (é sempre «a meu ver»), o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo. É imperfeito se julgamos que nos vai dar a chave, que nenhum sistema nos pode dar, da complexidade indefinida da alma humana. É estreito se julgamos, por ele, que tudo se reduz à sexualidade, pois nada se re­duz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica. É utilíssimo porque chamou a atenção dos psicólogos para três elementos importantíssimos na vida da alma, e portanto na interpretação dela: (1) o subconsciente e a nossa consequente qualidade de animais irracionais; (2) a sexualidade, cuja importância havia sido, por diversos motivos, diminuída ou desconhecida anteriormente; (3) o que poderei chamar, em linguagem minha, a translação, ou seja a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente irrelacionados com elas ou eles.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 124, p. 251)

Iconografia pessoana

«Ai que prazer»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

22 setembro 2012

115 anos da morte de Antônio Vicente Mendes Maciel, vulgo Antônio Conselheiro, líder espiritual da revolta sertaneja de Canudos (1897)

À memória de Antônio Conselheiro, bandido, louco e santo, que, no sertão do Brasil, morreu, como um exemplo, com seus companheiros, sem se render, batendo-se todos, últimos Portugueses, pela esperança do Quinto Império e da vinda quando Deus quisesse, de El-Rei D. Sebastião, nosso Senhor, Imperador do Mundo.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 107, p. 235)

Dia Europeu sem Carros

Quando surgiu a indústria automobilista, foi preciso criar a classe dos chauffeurs; ninguém, a não ser um ou outro atropelado mais plebeu, se revoltaria decerto contra a imperícia inicial dos guiadores dos carros. Estavam aprendendo o ofício — o que é natural; e ganhando a sua vida — o que é respeitável. Depois ficaram sabendo da sua arte, e, embora a maioria continue guiando mal, o facto é que são chauffeurs definitivamente.

(Fernando Pessoa, “Crónica da Vida que Passa... VI”, Crítica, p. 120)

21 setembro 2012

Dia Mundial da Doença de Alzheimer

Tudo que temos é esquecimento.

(Fernando Pessoa, “Primeiro Fausto”, Primeiro Tema — “O Mistério do Mundo”, VI, Ficção e Teatro, p. 170)



Nem eu mesmo me conheço,
E, se me conheço, esqueço,

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 165)

19 setembro 2012

125 anos do “nascimento” de Ricardo Reis (1887)

[...] pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, [...]

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, p. 340)

17 setembro 2012

74 anos da inauguração do Porto de Leixões (1938)

«Ode Marítima no Porto de Matosinhos»
Fotografia de Adelaide Almeida


(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 119 e 107)

14 setembro 2012

691 anos da morte de Dante Alighieri (1321)

Epics fundamentally dealing with religion can attain a full splendour only when that religion ceases to be of importance (loses its own importance). We delight in Athene because we are (perhaps precipitately) convinced that she did not exist. Paradise Lost is different. No one believes in Adam and Eve, but there are matters of controversy about the Trinity.

Dante has stood greatness better, for in the Protestant countries he is mere fable, and in the Catholic countries there is no religion.


(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 38, p. 211;
em inglês no original)



[ As epopeias que se prendem fundamentalmente com a religião só podem atingir pleno esplendor quando essa religião deixa de ser importante (perde a sua própria importância). Deleitamo-nos em Atena por (talvez precipitadamente) estarmos convencidos de que ela não existiu. O Paraíso Perdido é diferente. Ninguém acredita em Adão e Eva, mas existem pontos controversos acerca da Trindade.

Dante resistiu melhor à grandeza, pois nos países protestantes é mera fábula, e nos países católicos não há religião. ]


(idem, p. 260; trad. Jorge Rosa)

11 setembro 2012

Dia Nacional da Catalunha

Dos problemas que hoje agitam e perturbam a indisciplinada vida da Europa, o problema do separatismo catalão é talvez o que mais flagrantemente foca o conflito fundamental que se trava hoje no mundo, e, portanto, aquele que mais curiosos ensinamentos contém.

No pleito, que o Destino faz que se digladie entre a Espanha e a Catalunha, há o facto essencial de todos os dramas. Como em todos os dramas, um momento criado pelo Destino, mas segundo inevitáveis resultados de um passado surdamente se acumulou, faz entrar em conflito forças e ideias que é absurdo que entrem em conflito, que é doloroso que se encontrem em guerra Como em todos os dramas, não há solução satisfatória para problema, porque a única arbitragem certa, e por isso injusta, é a do Destino. E como em todos os dramas, ambas as partes têm igual razão.


O conflito entre a Catalunha e a Espanha é o conflito entre o conceito nacional de país, e o conceito civilizacional de país. Um conceito é geográfico, supõe-se ser étnico, e afirma-se como linguístico. O outro conceito é histórico, supõe-se ser imperialista e afirma-se como cultural.

Do ponto de vista nacional, e exclusivamente nacional, a Catalunha é uma nação, um país, com índole própria, tendências especiais, com um idioma à parte, que as define, e uma aspiração, que as deseja.

(Fernando Pessoa, “Catalunha”, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 19, pp. 183–184)

121 anos do suicídio de Antero de Quental (1891)

Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta crítica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? [...] Os sonetos de Antero têm sempre pensamento, às vezes imaginação, paixão nunca [...].

(Fernando Pessoa, “Estética”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 6, p. 122)

09 setembro 2012

Iconografia pessoana

«Heteronímias»
Pintura de Victor Alexandre

08 setembro 2012

O «cidadão e pai» Pedro Passos Coelho diz aos «amigos» contribuintes o quanto lhe custou anunciar mais medidas de austeridade

Cuidado com as lágrimas, quando são estadistas os que as choram.

(Fernando Pessoa, “O Segredo de Roma”, Pessoa Inédito, 266, p. 422)

06 setembro 2012

51 anos da concessão da plena cidadania portuguesa a todos os habitantes das colónias, com a abolição do Estatuto dos Indígenas Portugueses (1961)

Há três imperialismos: de domínio, de expansão e de cultura.
[...]

IMPERIALISMO DE CULTURA
[...]
(3) O que procura dominar ou colonizar para civilizar ou modificar as raças indígenas, sejam inferiores, decadentes ou apenas menos civilizadas.
[...]

(Fernando Pessoa, “Império”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 74, pp. 221–222)

05 setembro 2012

157 anos da morte de Auguste Comte (1857)

[...] o infeliz chamado Augusto Comte, toda a vida sofreu de alienação mental.

(Fernando Pessoa, “O Preconceito da Ordem”, Da República (1910–1935), 89, p. 220)

03 setembro 2012

253 anos da ordem de expulsão dos Jesuítas de Portugal (1759)

Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)

01 setembro 2012

Pessoa, sempre — todos os dias: Setembro de 2012

Calendário pessoano: Setembro de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

31 agosto 2012

145 anos da morte de Charles Baudelaire (1867)

[...] Quem não pode fazer versos como Baudelaire pode, porém, tingir os cabelos de verde. [...]

(Fernando Pessoa, “A Imoralidade das Biografias”,
Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 12, p. 132)

28 agosto 2012

263 anos do nascimento de Johann Wolfgang von Goethe (1749)

Há três tipos de cultura — a que resulta da erudição, a que resulta da experiência translata, e a que resulta da multiplicidade de interesses intelectuais. A primeira é produzida pelo estudo paciente e aturado, pela assimilação sistematizada dos resultados desse estudo. A segunda é produzida pela rapidez e profundeza naturais do aproveitamento do que se lê ou vê e ouve. A terceira é produzida, como se disse, pela multiplicidade de interesses intelectuais: nenhum será profundo, nenhum será dominante, mas a variedade alargará o espírito. [...] Vemos a terceira em Goethe, que nem tinha a erudição de Milton nem a ultra-assimilação de Shakespeare, mas cuja variedade de interesses, abrangendo todas as artes e quase todas as ciências, compensava na universalidade o que perdia em profundeza ou absorção.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 9, p. 128)

26 agosto 2012

Final da Volta a Portugal em Bicicleta 2012

Fernando Pessoa a andar de triciclo
Fernando Pessoa aos 6 anos


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 28)

23 agosto 2012

Dia Internacional de Recordação do Tráfico de Escravos e sua Abolição

[...] A escravatura é lógica e legítima; um zulu ou um landim não representa coisa alguma de útil neste mundo. Civilizá-lo, quer religiosamente, quer de outra forma qualquer, é querer-lhe dar aquilo que ele não pode ter. O legítimo é obrigá-lo, visto que não é gente, a servir os fins da civilização. Escravizá-lo é que é lógico, o degenerado conceito igualitário, com que o cristianismo envenenou os nossos conceitos sociais, prejudicou, porém, esta lógica atitude. [...]

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 72, p. 217)

21 agosto 2012

72 anos do assassinato de Leon Trotsky por agentes de Estaline (1940)

Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

(Álvaro de Campos, “Gazetilha”, Poesia, 77, p. 328)

20 agosto 2012

20 Ago. 1905: Fernando Pessoa regressava definitivamente de Durban

«Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 16, p. 57)

19 agosto 2012

Dia Mundial da Fotografia

Painting will sink. Photography has deprived it of many of its attractions. Futility of silliness has deprived it of almost all the rest. [...]

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 37, p. 210;
em inglês no original)




[ A pintura afundar-se-á. A fotografia tirou-lhe muitos dos seus atractivos. A futilidade da idiotice tirou-lhe quase tudo o mais. [...] ]

(idem, p. 259; trad. Jorge Rosa)

16 agosto 2012

145 anos do nascimento de António Nobre (1867)

Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos — órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.

(Fernando Pessoa, “Para a memória de António Nobre”, Crítica, p. 101)

14 agosto 2012

Iconografia pessoana

Pintura de Bottelho

13 agosto 2012

51 anos do início da construção do Muro de Berlim (1961)

O olhar não atravessa os muros da sombra,

(Álvaro de Campos, Poesia, 25, p. 190)

12 agosto 2012

2041 anos da morte de Cleópatra (30 AC)

Na sombra Cleópatra jaz morta
Chove.

Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.

Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.

E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto —
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.

O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?

(Fernando Pessoa, “Episódios: A Múmia, II”, Poesia (1902–1917), p. 436)

Último dia dos Jogos Olímpicos Londres 2012

OLIMPÍADAS


O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport — ludo, jogo, brincadeira — o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há-de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim...

Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajectos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto — um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura.

(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 308, pp. 347–348)

09 agosto 2012

67 anos do lançamento da segunda bomba atómica, sobre Nagasaki (1945)

A fúria minuciosa [...] dos átomos
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,

(Álvaro de Campos, Poesia, 34, p. 254)

06 agosto 2012

67 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)

O vento levantou-se... Primeiro era como a voz de um vácuo... um soprar no espaço para dentro de um buraco, uma falta no silêncio do ar. Depois ergueu-se um soluço, um soluço do fundo do mundo, e sentiu-se que tremiam vidraças e que era realmente vento. Depois soou mais alto, urro surdo, um urrar sem ser entre um nocturno ranger de coisas, um cair de bocados, um átomo de fim do mundo.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 52, p. 85)

04 agosto 2012

434 anos Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

«Pessoa e o Quinto Império»
Desenho de H. Mourato


O DESEJADO


Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo,
Mas já no auge da suprema prova,
A alma penitente do teu povo
À Eucaristia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Graal!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Terceira Parte, I, p. 165)

01 agosto 2012

Pessoa, sempre — todos os dias: Agosto de 2012

Calendário pessoano: Agosto de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 julho 2012

149 anos do nascimento de Henry Ford (1863)

The distance between Henry Ford and John Milton is always longer on the return train.

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 33, p. 204;
em inglês no original)



[ A distância entre Henry Ford e John Milton é sempre maior no comboio de regresso. ]

(idem, p. 253; trad. Jorge Rosa)

26 julho 2012

156 anos do nascimento de George Bernard Shaw (1856)

Shaw’s capital fault — the capital fault of any man who may want to be considered an artist — is that he has no poetry in him. This means that he has no humanity in him.
Shaw is more like the founder of a religion than like a creator of literature, which, at any rate, he is not. He is not a [John Millington] Synge, nor even a Wilde. He has not the unopinions for that. [...]


(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 24, p. 196;
em inglês no original)



[ O defeito capital de Shaw — o defeito capital de qualquer homem que pretenda ser considerado artista — é não ter poesia, o que significa que não há nele humanidade.
Shaw parece mais o fundador de uma religião do que um criador de literatura, o que, aliás, não é. Não é um [John Millington] Synge, nem sequer um Wilde. Não tem as não-opiniões para tanto. [...] ]


(idem, p. 245; trad. Jorge Rosa, com alterações)

24 julho 2012

Iconografia pessoana

Gravura de Valhô (1985)

22 julho 2012

Utilidade e eternidade da Arte

— Só a Arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes — tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte vê-se, porque dura.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, I, 1, p. 3)

20 julho 2012

Terceiro dia do incêndio que consumiu 1/3 do concelho de Tavira e 1/4 do de S. Brás de Alportel

Comandante, envio junto
Para os Bombeiros de Faro,
Um carro, à falta de assunto,
Que um assunto é sempre caro.
(Pronto-socorro não é,
Mas pronto está, como vê.)

É leve e longo, e o pessoal
É firme e disciplinado,
Nem há pane ou susto tal
Que o tire de estar sentado.
(P’ra andar, meta-o na algibeira
E ande com ele: é a maneira.)

Convém advertir também,
E faço-o sem mais demora,
A vantagem que ele tem
P’ra tempos como os de agora:
Não tem consumo ou dispêndio.

(Não o use em casos de incêndio.)

O BOMBEIRO X

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 121)

19 julho 2012

126 anos da morte de Cesário Verde (1886)

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, III”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 45)

17 julho 2012

Inauguração do troço de metro entre a Estação do Oriente e o Aeroporto de Lisboa

Caricaturista António junto a duas das suas caricaturas
na nova estação de metro do Aeroporto:
Amadeo de Souza Cardoso e Fernando Pessoa.
(Fotografia de Carla Rosado/Público)

14 julho 2012

223 anos da Tomada da Bastilha (1789)

As revoluções, como vimos, baseiam-se num sentimento forte de injustiça, sentimento que se torna geral. Ora um sentimento geral e forte de injustiça gera por força ideias absurdas. Em 1.º lugar, um sentimento forte é uma condição negativa para a lucidez; quem estuda apaixonadamente (salvo no sentido de entusiasmo intelectual) um problema, estuda-o sempre mal. Em 2.º lugar, um sentimento de injustiça envolve sempre um ódio ou rancor a quem a pratica; e a teoria nascida, ou adaptada, por esse sentimento tenderá fatalmente a ser excessiva no sentido contrário — não só a desfazer a injustiça, como a castigá-la, isto é, a ferir e vingar-se nos que a praticam, ou se supõe que a praticam. Resultará uma teoria tão injusta como a prática a que essa teoria se contrapõe. Em 3.º lugar, os problemas que uma revolução busca resolver são sempre problemas sociais, todos, por natureza, de uma grande complexidade. Ora, uma teoria de contra-injustiça, para ser geralmente sentida, tem que ser simples; porque o geral da humanidade não pode compreender ideias complexas. A teoria tem portanto que ser inadaptável à complexidade do problema.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, pp. 258–259)

13 julho 2012

À atenção do Dr. Relvas

As qualidades mentais e morais necessárias para a conquista do poder político, ou tendentes a essa conquista, são inteiramente diferentes daquelas necessárias para governar o Estado. [...]
(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 112)

11 julho 2012

Dia Mundial da População

O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...
A multiplicidade da humanidade misturada

(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 460)

08 julho 2012

515 anos da partida de Vasco da Gama para a Índia (1497)

cidade-barco
Ilustração de Pedro Sousa Pereira
para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)

05 julho 2012

05 de Julho de 1932: Salazar, o “Ditador da Finanças”, assume a chefia do Governo

O prestígio de Salazar não se deriva da sua obra financeira, tanto porque, sendo essa obra uma obra de especialidade, o público não tem competência, nem pretende ter competência, para a compreender, como porque o acolhimento calorosamente favorável, que essa obra teve, denotava já um prestígio anterior. O prestígio de Salazar nasceu vagamente da sugestão do seu prestígio universitário e particular, mas firmou-se junto do público, logo desde as suas primeiras frases como ministro, e as suas primeiras acções como administrador, por um fenómeno psíquico simples de compreender.

Todo prestígio consiste na posse, pelo prestigiado, de qualidades que o prestigiador não tem e se sente incapaz de ter. O povo português é essencialmente descontínuo na vontade e retórico na expressão: não há coisa portuguesa que seja levada avante com firmeza e persistência; não há texto genuinamente português que não diga em vinte palavras o que se pode dizer em cinco, nem deixe de incoerir e romantizar a frase. Logo desde o princípio, Salazar marcou, e depois acentuou, uma firmeza de propósito e uma continuidade de execução de um plano; logo desde o princípio falou claro, sóbrio, rígido, sem retórica nem vago. O seu prestígio reside nessa formidável impressão de diferença do vulgo português.

No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, de maledicentes por impotência e espirituosos por falta de assunto intelectual, o lente de Coimbra (Santo Deus!, de Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral. Depois dos Afonsos Costas, dos Cunhas Leais, de toda a eloquência parlamentar sem ontem nem amanhã na inteligência nem na vontade, a sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de brônzeo e de fundamental. Se o é deveras, e se a obra completa o que a intenção formou, são já assuntos de especialidade, e sobre os quais nem o público, que deles nada sabe, nem eu, que sei tanto como o público, poderemos falar com razão ou proveito.

De este prestígio resulta o contraste com Afonso Costa. Quando este apresentou, em 1912 (?), o seu superavit, foi recebido à gargalhada pelo público, e os seus próprios partidários tiveram de fazer esforços sobre si mesmos para ter fé na obra, como a tinham no homem. Quando Salazar apresentou o superavit, todo o grande público imediatamente o aceitou. Não foi pois o superavit, comum aos dois que provocou o prestígio: o prestígio de um, o não prestígio de outro, eram anteriores ao espectáculo financeiro.

(Fernando Pessoa, “Interregno”, Da República (1910–1935), 129, pp. 384–385)

04 julho 2012

236 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776)

[...] Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando — toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. [...]

(Fernando Pessoa, “O Provincianismo Português”, Crítica, p. 372)

01 julho 2012

Pessoa, sempre — todos os dias: Julho de 2012

Calendário pessoano: Julho de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

29 junho 2012

Realistas e românticos

Realists do small things, romantics great ones. A man must be a realist to be manager of a tin-tackfactory. He must be a romantic to be manager of the world.
It needs a realist to find reality; it needs a romantic to create it. Napoleon is only a poet, Cromwell an enthusiast, Caesar a rhetorician.


(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 33, p. 204; em inglês no original)



[ Os realistas fazem as pequenas coisas, e os românticos as grandes. Para se ser gerente de uma fábrica de tachas, tem de se ser realista. Para se gerir o mundo, tem de se ser romântico.
Só um realista pode encontrar a realidade; só um romântico a pode criar. Napoleão é apenas poeta, Cromwell um entusiasta, César um retórico. ]


(idem, p. 252; trad. Jorge Rosa)

27 junho 2012

Iconografia pessoana

«Fernando Pessoa»
Pintura de Juan Soler

24 junho 2012

Dia de “São” João

Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 59)

22 junho 2012

379 anos da condenação de Galileu Galilei pelo Tribunal do Santo Ofício (1633)

[...] a crítica da atmosfera religiosa produz maiores espíritos que aquela que se exerce no vácuo. Kant assim surgiu.

A desastrada argumentação que citaria para o caso as circunstâncias que oprimiram Galileu e Servet, esqueceria sem dúvida que estava confundindo o predomínio religioso com a falta de civilização. São dois factos que importa não confundir. Se nós víssemos que nesses tempos as penalidades criminais eram de uma suavidade enorme, que eram de uma leniência acentuada as sentenças dos juízes, e que ao mesmo tempo esses hereges aparecessem queimados, enforcados, mortos, seria então o caso de atribuir à religião uma culpa que ela efectivamente teria. Mas a religião defendia-se, como é natural, e defendia-se com as armas do tempo; com as mesmas armas com que se defendia qualquer estado. [...]

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 235 , p. 282)

20 junho 2012

Dia Mundial do Refugiado

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

17 junho 2012

Certezas

Distinguirei, no fenómeno chamado certeza, a parte subjectiva e a objectiva — a certeza em si, e aquilo de que há certeza. Considerada em si, a certeza nada vale. Nenhum de nós tem mais certeza de ter diante de si esta página que tem um perseguido de estar sendo perseguido por numerosos «inimigos», ou um megalómano de ser Jesus Cristo, ou Deus, ou Imperador do Mundo. O lugar das certezas absolutas, inteiras, que não sentem dúvida nem hesitação, é o manicómio.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. II, p. 246)

15 junho 2012

42 anos da morte de Almada Negreiros (1970)

Pintura de José de Almada Negreiros

14 junho 2012

46 anos da abolição do Index Librorum Prohibitorum (Índice dos Livros Proibidos) pelo Vaticano (1966)

[...] Hoje a um livro herético responde, pela brandura dos costumes do tempo, uma proibição dum bispo de que os seus diocesanos leiam; [...]

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 235 , p. 282)

13 junho 2012

124 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)

Desenho de H. Mourato

10 junho 2012

Dia de Portugal ...

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?
Nós, Portugal, o poder ser.
Que inquietação do fundo nos soergue?
O desejar poder querer.

(Fernando Pessoa, “Tormenta”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 185)

... de Camões ...

Um grande artista (literário) nota-se aplicando-lhe a seguinte pergunta critica: tem paixão ou imaginação ou pensamento? Por ex. os Lusíadas de Camões têm paixão (o patriotismo), imaginação (o Adamastor, a Ilha dos Amores), mas são falhos de pensamento. [...]

(Fernando Pessoa, “Estética”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 6, p. 122)


Luís de Camões e Fernando Pessoa
Capa de Filipa Canhestro
para a antologia Poetas de hoje e de ontem da Escrit'orio Editora (2007)

... e das Comunidades Portuguesas

E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.

(Álvaro de Campos, “Nuvens”, Poesia, 88, p. 346)

09 junho 2012

143 anos da morte de Charles Dickens (1870)

To read Dickens is to obtain a mystic vision — but, though he claims so often to be Christian, it has nothing to do with the Christian vision of the world. [...]

(Fernando Pessoa, “Charles Dickens”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
IX, 8, p. 308; em inglês no original)



[ Ler Dickens é ter uma visão mística — mas, embora ele se intitule tão frequentemente cristão, essa visão nada tem que ver com a visão cristã do mundo. [...] ]

(idem, p. 310; trad. Jorge Rosa)

08 junho 2012

Fernando(s) Pessoa(s) e Deus

Cartoon de Ricardo Campos


(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 22, p. 60
Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 12
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 21, p. 59)

07 junho 2012

Procissão do Corpo de Deus

Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado [...]

(Álvaro de Campos, Poesia, 88, pp. 346–347)

05 junho 2012

569 anos da morte do “Infante Santo” (1443)

D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL


Deu-me Deus o seu gládio, por que eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.

Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são Seu nome
Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois, venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, III, p. 103)

03 junho 2012

Deuses

Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 375, p. 340)

01 junho 2012

Dia Internacional da Criança

[...] Ser adulto é esquecer-se de que se foi criança. [...]

(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 379, p. 428)

Pessoa, sempre — todos os dias: Junho de 2012

Calendário pessoano: Junho de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
Corpo de Deus: um feriado marcado para morrer...