02 dezembro 2012

89 anos do nascimento de Maria Kalogeropoulou, dita Maria Callas (1923)

Que anjo, ao ergueres
A tua voz
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
Do ignoto lar?

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 253)

68 anos da morte de Filippo Tommaso Marinetti (1944)

[...] incrível idiotia de Marinetti, cuja banalidade mental lhe não permitia inserir qualquer ideia no ritmo irregular, porque lhe não permitia inseri-la em coisa nenhuma e lhe chamou «futurismo», como se a expressão «futurismo» contivesse qualquer sentido compreensível. «Futurista» é só toda a obra que dura; e por isso os disparates de Marinetti são o que há de menos futurista.

(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 273)

01 dezembro 2012

1 dia (mais 77 anos) sem Fernando Pessoa

Diz o jornal que ontem morreste.
Sobre os joelhos o deponho
E numa náusea de eu estar triste
Entristeço, relembro, sonho.

[...]

Custa a crer que não hajas. Vai
Pôr-se entre nós o grande muro
Que com a porta onde se sai
Existe a fazer tudo escuro.

E estes versos são o disfarce
Do egoísmo que me humano faz.
Rimo a dor de que tudo passe,
Sorrio. Já te esqueci, rapaz.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 19–20)

Pessoa, sempre — todos os dias: Dezembro de 2012

Calendário pessoano: Dezembro de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
1 de Dezembro: um feriado marcado para morrer...

30 novembro 2012

112 anos da morte de Oscar Wilde (1900)

[...] A prática da pederastia, embora nem sempre fácil [...], é contudo mais fácil que a produção de uma segunda Salomé.

(Fernando Pessoa, “A Imoralidade das Biografias”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 12, p. 132)

77 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)

Túmulo de Fernando Pessoa no Mosteiro dos Jerónimos

28 novembro 2012

Sr. (primeiro-)ministro Vítor Gaspar: aqui tem a sua desculpa, para quando (inevitavelmente) precisar dela!

[...] o mais honesto e desinteressado dos políticos e dos governantes nunca pode saber com certeza se não está arruinando um país ou uma sociedade com os princípios e leis, que julga sãos, com que se propõe salvá-la ou conservá-la.

(Fernando Pessoa, “Régie, Monopólio, Liberdade”, Crítica, p. 281)

27 novembro 2012

Votação final global do Orçamento de Estado 2013

É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre.
[...]
É nosso dever [...] untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam.

(Álvaro de Campos, “Mensagem ao Diabo”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 305, pp. 345–346)

26 novembro 2012

103 anos do nascimento de Eugène Ionesco (1909)

APOTEOSE DO ABSURDO


Falo a sério e tristemente; este assunto não é para alegria, porque as alegrias do sonho são contraditórias e entristecidas e por isso aprazíveis de uma misteriosa maneira especial.

Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas [] — o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar do tédio àquele estado de alma em que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.

E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos — não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 371, p. 337)

25 novembro 2012

167 anos do nascimento de Eça de Queirós (1845)

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queiroz. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, A Relíquia, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queiroz, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

(Fernando Pessoa, “O Provincianismo Português”, Crítica, p. 373)

24 novembro 2012

Iconografia pessoana

Cartoon de Claudio Gurgone

22 novembro 2012

49 anos da morte de Aldous Huxley (1963)

[...] There is perhaps more wisdom, or worldly wisdom, as such, in a book by Aldous Huxley than in all [Edmund] Spenser. But Spenser will be remembered, though unread, a thousand years from now; and for Aldous Huxley there will be neither reading nor remembering.

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 6, p. 173; em inglês no original)



[ [...] Há, talvez, mais sabedoria, ou sabedoria do mundo como tal, num livro de Aldous Huxley do que em toda a obra de [Edmund] Spenser. Mas Spenser será lembrado, embora ninguém o leia, daqui a mil anos; enquanto que Aldous Huxley, esse ninguém o lerá nem se lembrará dele. ]

(idem, pp. 220–221; trad. Jorge Rosa)

20 novembro 2012

102 anos da morte de Lev Tolstoi (1910)

[...] De resto — admito — [...], quanto ao Tolstoi, basta ser russo para eu ter dificuldade em dar por ele.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 123, p. 247)



* 7 de novembro, segundo o calendário juliano, então em uso na Rússia.

19 novembro 2012

166 anos da fundação do Banco de Portugal (1846)

O Banqueiro Anarquista
Banda-desenhada de Ana Filomena Pacheco
Revista CAIS n.º 131 (Junho 2008)

(Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 9), 1999)

18 novembro 2012

Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada

If we hesitate in pitying the drug fool who saturates cocaine with himself, why should we pity the sillier doper who takes speed instead of cocaine?

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 35, p. 207; em inglês no original)



[ Se hesitamos em ter piedade do toxicómano idiota que satura a cocaína de si próprio, por que razão haveríamos de ter pena desses toxicómanos ainda mais idiotas que tomam velocidade em vez de cocaína? ]

(idem, p. 256; trad. Jorge Rosa, com alterações)

17 novembro 2012

143 anos da inauguração do Canal de Suez (1869)

Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, ânfora na aurora.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 60)

14 novembro 2012

164 anos da inauguração do Hospital de Rilhafoles, actual Hospital Miguel Bombarda (1848)

FRAGMENT OF DELIRIUM


I know not whether my mind is broken
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
In a chaos of will.

My thoughts are such as the mad must have
And dead things know my soul
Grotesque and odd are the shapes that roll
In my brain as worm in a grave...


(Alexander Search, Poesia, 38, p. 90; em inglês no original)


[ FRAGMENTO DE DELÍRIO
Não sei se em mim a mente se quebrou
Nem se a razão me foi adoecer;
Não sei se o amor é só o último sinal
De Deus em mim, ou a voz que se calou
No caos do querer.

Meu pensar deve ser o da loucura
E minha alma é por fantasmas habitada —
Formas grotescas e estranhas a rolar
E minha mente, quais vermes em sepultura... ]


(p. 91; trad. Luísa Freire)

13 novembro 2012

Iconografia pessoana

Desenho de Ulisses

12 novembro 2012

Visita-relâmpago de Angela Merkel a Portugal

Essa elefantíase da civilização que é a Alemanha, [...]

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 88, p. 238)

11 novembro 2012

Dia de “São” Martinho

Boa é a vida, mas melhor é o vinho.

(Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930–1935), 53)