14 dezembro 2012

94 anos do assassinato de Sidónio Pais (1918)

Quem ele foi sabe-o a Sorte,
Sabe-o o Mistério e a sua lei
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!

Não é com fé que nós não cremos
Que ele não morra inteiramente.
Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.

[...]

Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir.

Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!

Não era extinta a antiga chama
Se tu e o amor puderam ser.
Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!

E, porque foste, confiando
Em QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,

Até que Deus o laço solte
Que prende à terra a asa que somos,
E a curva novamente volte
Ao que já fomos,

E no ar de bruma que estremece
(Clarim longínquo matinal!)
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!

(Fernando Pessoa, “À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, Poesia (1918–1930), pp. 117 e 123–124)

13 dezembro 2012

435 anos do início da Circum-navegação de Francis Drake (1577)

Travels by sea like those of Drake, Frobisher, Cook and (as the Patent Office says) «the like» are so insignificant in the sociology of discovery that it were a wiser patriotism with Englishmen to omit all reference to them except as national incidents of a foreign impulse. Politics and not navigation is the English contribution to the substance of civilization. England found the sea only after it was told where it was.

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 33, pp. 204–205; em inglês no original)



[ Viagens marítimas como as de Drake, Frobisher, Cook e (como diz a Repartição de Patentes) «afins», são tão insignificantes na sociologia das descobertas que seria um patriotismo mais sensato os ingleses omitirem todas as referências a eles excepto como incidentes nacionais de um impulso estrangeiro. O contributo inglês para a substância da civilização foi a política, não a navegação. A Inglaterra só encontrou o mar depois de lhe terem dito onde ficava. ]

(idem, p. 253; trad. Jorge Rosa, com alterações)

12 dezembro 2012

Iconografia (quase) pessoana

Luís Miguel e João Maria (meios-irmãos de Pessoa)

11 dezembro 2012

Dia Internacional das Montanhas

A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 352)

09 dezembro 2012

404 anos do nascimento de John Milton (1608)

Milton is the example of the union of great genius and great talent. He has the intuition of genius and the formative power of talent. He had no wit; he was, in fact, a pedant. But he had the pedant’s firm, though heavy, will.

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias,
VIII, 4, p. 171; em inglês no original)



[ Milton é o exemplo da união de grande génio e grande talento. Tem a intuição do génio e o poder formativo do talento. Não tinha qualquer espírito; era, até, pedante. Mas tinha a vontade firme, embora pesada, do pedante. ]

(idem, p. 218; trad. Jorge Rosa, com alterações)

08 dezembro 2012

148 anos da publicação do “Syllabus Errorum” do Papa Pio IX, condenando o naturalismo, o racionalismo, a liberdade religiosa, as críticas à Igreja, etc. (1864)

EXCOMMUNICATION


I, Charles Robert Anon,
being, animal, mammal, tetrapod, primate, placental, ape, catarrhina, [] man; eighteen years of age, not married (except at odd moments), megalomaniac, with touches of dipsomania,
dégénéré supérieur, poet, with pretensions to written humour, citizen of the world, idealistic philosopher, etc. etc. (to spare the reader further pains),
In the name of TRUTH, SCIENCE and
PHILOSOPHIA, not with bell, book and candle, but with pen, ink and paper, Pass sentence of excommunication on all priests and all sectarians of all religions in the world.

Excommunicabo vos.
Be damned to you all.
Ainsi-soit-il.
Reason, Truth, Virtue per C.R.A.

(Charles Robert Anon, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 58 e 60;
em inglês no original)



[ EXCOMUNHÃO
Eu, Charles Robert Anon, ser, animal, mamífero, tetrápode, primata, placentário, macaco, catarríneo, [] homem; dezoito anos de idade, não casado (excepto de vez em quando), megalómano, com traços de dipsomania, dégénéré supérieur, poeta, com pretensões a humor escrito; cidadão do mundo, filósofo idealista, etc., etc. (para poupar ao leitor mais esforços),
Em nome da VERDADE, da CIÊNCIA e da PHILOSOPHIA, não com campainha, livro e vela, mas com caneta, tinta e papel,
Profiro sentença de excomunhão para todos os padres e todos os sectários de todas as religiões do mundo.
Excommunicabo vos.
Que sejais todos malditos.
Ainsi-soit-il.
Razão, Verdade, Virtude por C.R.A. ]


(idem, pp. 59 e 61; tradução com alterações)

06 dezembro 2012

244 anos da publicação da primeira edição da Enciclopédia Britânica (1768)

Estante com livros
«Livros são papéis pintados com tinta...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

05 dezembro 2012

Morte de Oscar Niemeyer

Realizo Deus numa arquitectura triunfal
De arco de Triunfo posto sobre o universo,

(Álvaro de Campos, Poesia, 28, p. 236)

04 dezembro 2012

32 anos da morte de Francisco Sá Carneiro (1980)

Morreu pela Pátria, sem saber como nem porquê. [...]
[...]
[...] Não pensou que ia morrer pela Pátria; morreu por ela. [...]
O seu lugar não é ao pé dos criadores de Portugal, cuja estatura é outra, e outra a consciência. [...]

(Bernardo Soares, “Cenotáfio”, Livro do Desassossego, pp. 424–425)

37 anos da morte de Hannah Arendt (1975)

Raiava, já antes da guerra, no horizonte o triste sinal da plebeização das elites. [...] É preciso reagir contra esta corrente.

(Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VII, 10, p. 158)

02 dezembro 2012

89 anos do nascimento de Maria Kalogeropoulou, dita Maria Callas (1923)

Que anjo, ao ergueres
A tua voz
Sem o saberes
Veio baixar
Sobre esta terra
Onde a alma erra
E com as asas
Soprou as brasas
Do ignoto lar?

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 253)

68 anos da morte de Filippo Tommaso Marinetti (1944)

[...] incrível idiotia de Marinetti, cuja banalidade mental lhe não permitia inserir qualquer ideia no ritmo irregular, porque lhe não permitia inseri-la em coisa nenhuma e lhe chamou «futurismo», como se a expressão «futurismo» contivesse qualquer sentido compreensível. «Futurista» é só toda a obra que dura; e por isso os disparates de Marinetti são o que há de menos futurista.

(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 273)

01 dezembro 2012

1 dia (mais 77 anos) sem Fernando Pessoa

Diz o jornal que ontem morreste.
Sobre os joelhos o deponho
E numa náusea de eu estar triste
Entristeço, relembro, sonho.

[...]

Custa a crer que não hajas. Vai
Pôr-se entre nós o grande muro
Que com a porta onde se sai
Existe a fazer tudo escuro.

E estes versos são o disfarce
Do egoísmo que me humano faz.
Rimo a dor de que tudo passe,
Sorrio. Já te esqueci, rapaz.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 19–20)

Pessoa, sempre — todos os dias: Dezembro de 2012

Calendário pessoano: Dezembro de 2012

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.
1 de Dezembro: um feriado marcado para morrer...

30 novembro 2012

112 anos da morte de Oscar Wilde (1900)

[...] A prática da pederastia, embora nem sempre fácil [...], é contudo mais fácil que a produção de uma segunda Salomé.

(Fernando Pessoa, “A Imoralidade das Biografias”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VI, 12, p. 132)

77 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)

Túmulo de Fernando Pessoa no Mosteiro dos Jerónimos

28 novembro 2012

Sr. (primeiro-)ministro Vítor Gaspar: aqui tem a sua desculpa, para quando (inevitavelmente) precisar dela!

[...] o mais honesto e desinteressado dos políticos e dos governantes nunca pode saber com certeza se não está arruinando um país ou uma sociedade com os princípios e leis, que julga sãos, com que se propõe salvá-la ou conservá-la.

(Fernando Pessoa, “Régie, Monopólio, Liberdade”, Crítica, p. 281)

27 novembro 2012

Votação final global do Orçamento de Estado 2013

É preciso criar abismos, para a humanidade que os não sabe saltar se engolfar neles para sempre.
[...]
É nosso dever [...] untar o chão, ainda que seja com lágrimas, para que escorreguem nele os que dançam.

(Álvaro de Campos, “Mensagem ao Diabo”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 305, pp. 345–346)

26 novembro 2012

103 anos do nascimento de Eugène Ionesco (1909)

APOTEOSE DO ABSURDO


Falo a sério e tristemente; este assunto não é para alegria, porque as alegrias do sonho são contraditórias e entristecidas e por isso aprazíveis de uma misteriosa maneira especial.

Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas [] — o absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e desejos de acção útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar do tédio àquele estado de alma em que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.

E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos — não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 371, p. 337)

25 novembro 2012

167 anos do nascimento de Eça de Queirós (1845)

O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queiroz. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, A Relíquia, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queiroz, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.

(Fernando Pessoa, “O Provincianismo Português”, Crítica, p. 373)