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11 janeiro 2013

127 anos do início do primeiro campeonato mundial de xadrez (1886)

XADREZ


Peões, saem na noite sossegada,
Cansados, cheios de emoções postiças,
Vão para casa, conversando em nada,
Sob peles, e casacos, e peliças.

Peões a que o destino não concede
Mais que uma casa por avanço e sorte,
Salvo se a diagonal lhes outra cede,
Ganhando o novo, com a alheia morte.

Súbditos sempre da maior mudança
Das nobres peças que ou o Bispo ou a Torre
Subitamente a sorte lhes alcança
E no isolado avanço o peão morre.

Um ou outro, chegando ao fim, consegue
O resgate do que é outro do que ele;
E o jogo, alheio a cada peça, segue,
E a inexorável mão por junto impele.

Depois, coitados, sob peliça ou renda,
Mate! Se finda o jogo e a mão delgada
Guarda as peças sem nexo da contenda,
Que, como tudo é jogo, o fim é nada.

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 279–280)

26 agosto 2012

Final da Volta a Portugal em Bicicleta 2012

Fernando Pessoa a andar de triciclo
Fernando Pessoa aos 6 anos


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 28)

12 agosto 2012

Último dia dos Jogos Olímpicos Londres 2012

OLIMPÍADAS


O sport é a inteligência inútil manifestada nos movimentos do corpo. O que o paradoxo alegra no contágio das almas, o sport aligeira na demonstração dos bonecos delas. A beleza existe, verdadeiramente, só nos altos pensamentos, nas grandes emoções, nas vontades conseguidas. No sport — ludo, jogo, brincadeira — o que existe é supérfluo, como o que o gato faz antes de comer o rato que lhe há-de escapar. Ninguém pensa a sério no resultado, e, enquanto dura o que desaparece, existe o que não dura. Há uma certa beleza nisso, como no dominó, e, quando o acaso proporciona o jogo acertado, a maravilha entesoura o corpo encostado do vencedor. Fica, no fim, e sempre virado para o inútil, o inconseguido do jogo. Pueri ludunt, como no primário do latim...

Ao sol brilham, no seu breve movimento de glória espúria, os corpos juvenis que envelhecerão, os trajectos que, com o existirem, deixaram já de existir. Entardece no que vemos, como no que vimos. A Grécia antiga não nos afaga senão intelectualmente. Ditosos os que naufragam no sacrifício da posse. São comuns e verdadeiros. O sol das arenas faz suar os gestos dos outros. Os poetas cantam-nos antes que desça todo o sol. São todos peixes num aquário cuidado de além do vidro pela inteligência que lhes não toca. E a beleza deles, como a de tudo, é isto — um movimento por detrás de um vidro, um brilho de corpo dogmatizado por uma clausura.

(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 308, pp. 347–348)

30 janeiro 2012

67 anos da publicação do primeiro número do jornal desportivo A Bola (1945)

[...] Se a maioria caiu em usar estrangeirismos ou outras irregularidades verbais, assim temos que fazer: «match de football» diremos, e não «partida de bolapé». Os termos ou expressões que na linguagem escrita são justos, e até obrigatórios, tornam-se em estupidez e pedantaria, se deles fazemos uso no trato verbal. Tornam-se até em má-criação, pois o preceito fundamental da civilidade é que nos conformemos o mais possível com as maneiras, os hábitos, e a educação da pessoa com quem falamos, ainda que nisso faltemos às boas-maneiras ou a etiqueta, que são a cultura.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 113, pp. 242–243)

17 janeiro 2012

70 anos do nascimento de Cassius Clay, futuro Muhammad Ali (1942)

Ah, parte a cara à vida!

(Álvaro de Campos, Poesia, 162, p. 460)

14 janeiro 2012

O eterno retorno da polémica anti-Maçonaria

Estreou-se a Assembleia Nacional, do ponto de vista legislativo, com a apresentação, por um deputado, de um projecto de lei sobre «associações secretas». De tal ordem é o projecto, tanto em natureza como em conteúdo, que não há que felicitar o actual Parlamento por lhe ter sido dada essa estreia. Antes que dizer-lhe Absit omen!, ou seja, em português, Longe vá o agouro!

Apresentou o projecto o Sr. José Cabral, que, se não é dominicano, deveria sê-lo, de tal modo o seu trabalho se integra, em natureza, como em conteúdo, nas melhores tradições dos Inquisidores. O projecto, que todos terão lido nos jornais, estabelece várias e fortes sanções (com excepção da pena de morte) para todos quantos pertençam ao que o seu autor chama «associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização».

Dada a latitude desta definição, e considerando que por «associação» se entende um agrupamento de homens, ligados por um fim comum, e que por «secreto» se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar ao Sr. José Cabral uma associação secreta — o Conselho de ministros. De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente. Se não reúnem em público os Conselhos de ministros, também não o fazem as direcções dos partidos políticos, as tenebrosas figuras que orientam os clubes desportivos ou os sinistros comunistas que tornam os conselhos de administração das companhias comerciais e industriais.

(Fernando Pessoa, “Associações Secretas”, Da República (1910–1935), 132, pp. 391–392)

11 janeiro 2011

125 anos do início do primeiro campeonato mundial de xadrez (1886)

Dois jogadores de xadrez jogavam
O seu jogo contínuo.

(Ricardo Reis, “Os jogadores de xadrez”, Poesia, II, 31, p. 59)


Fernando Pessoa jogando xadrez com o místico inglês
Aleister Crowley (Lisboa, Setembro de 1930)