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01 fevereiro 2012

104 anos do Regicídio de D. Carlos (1908)

[...] Abre-se um jornal monárquico, colhe-se uma referência à triste figura nacional que foi El-Rei D. Carlos, cujo reinado denotou o báratro da decadência, do desleixo, e da dessídia; e em que termos se referem esses jornais ao Senhor D. Carlos? Em termos que quem não visse o nome por certo julgaria destinados a referir-se a El-Rei D. João II. [...]

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 9, p. 90)

31 janeiro 2012

30 janeiro 2012

67 anos da publicação do primeiro número do jornal desportivo A Bola (1945)

[...] Se a maioria caiu em usar estrangeirismos ou outras irregularidades verbais, assim temos que fazer: «match de football» diremos, e não «partida de bolapé». Os termos ou expressões que na linguagem escrita são justos, e até obrigatórios, tornam-se em estupidez e pedantaria, se deles fazemos uso no trato verbal. Tornam-se até em má-criação, pois o preceito fundamental da civilidade é que nos conformemos o mais possível com as maneiras, os hábitos, e a educação da pessoa com quem falamos, ainda que nisso faltemos às boas-maneiras ou a etiqueta, que são a cultura.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 113, pp. 242–243)

05 setembro 2011

106 anos do fim da Guerra Russo-Japonesa de 1904–1905

(When English journalists joked at Russian’s disasters)

Our enemies are fallen; other hands
Than ours have struck them, and our joy is great
To know that now at length our fears abate
From hint and menace on great Eastern lands.

Bardling, scribbler and artist, servile bands,
From covert sneer outsigh their trembling hate,
Laughing at misery, and woe, and fallen state,
Armies of men whole-crushed on desolate strands.

The fallen lion every ass can kick,
That in his life, shamed to unmotioned fright,
His every move with eyes askance did trace.


(Alexander Search, “To England, II”, Poesia, 24, pp. 52/54; em inglês no original)




[ (Quando jornalistas ingleses troçaram dos desastres russos)

Os nossos inimigos estão caídos; outras mãos
Que não as nossas os atingiram, e a nossa alegria é grande
Por saber que agora, finalmente, sossegaram os nossos medos
Das ameaças nas grandes terras do Oriente.

Poetelhos, escrevinhadores e artistas, bandos servis,
Exprimem o ódio intenso antes contido,
Rindo da miséria, da angústia, do estado caído,
Exércitos inteiros esmagados em costas desoladas.

Qualquer burro consegue escoucear o leão caído
Que, em vida, o paralisava vergonhosamente de medo,
Todos os seus movimentos seguidos de soslaio. ]


(“À Inglaterra, II”; tradução nossa)

27 junho 2010

105 anos da Revolta do Couraçado Potemkin (1905)*

Every reverse and disaster of the Russian army or navy is in such a way made the subject of a jest among us, that we seem to have nothing more amusing. Some of the Russian admirals, even after their death or their capture, have caused us outbursts of sniggering. The Czar himself, when dismayed by revolution and by war, and when in distress and in grief over his armies, appears to be taken by the British people as an animate joke of great value.

To us, Englishmen, of all men the most egotistic, the thought has never occurred that misery and grief ennoble, despicable and self-caused though they be. A drunken woman reeling through the streets is a pitiable sight. The same woman falling awkwardly in her drunkenness is, mayhap, an amusing spectacle. But this very same woman, drunken and awkward though she be, when weeping the death of her child is no contemptible nor ridiculous creature, but a tragic figure as great as your Hamlets and your King Lears.


(Charles Robert Anon, Carta ao “Natal Mercury”, 07–07–1905,
Correspondência (1905–1922), 1, pp. 13–14; em inglês no original)


[ Cada revés e cada desastre do exército ou da armada russos foram de tal modo objecto de chacota entre nós, que parece que não achamos nada mais divertido. Alguns almirantes russos, mesmo depois da sua morte ou captura, fizeram-nos explodir em apupos. O próprio Czar, quando desencorajado pela revolução e pela guerra, e quando em grande sofrimento e dor por causa dos seus exércitos, parece ser tomado pelo povo britânico como uma piada muito divertida.

A nós, ingleses, os mais egocêntricos de todos os homens, nunca ocorreu a ideia de que a infelicidade e a dor enobrecem, por mais desprezíveis e auto-infligidas que sejam. Uma mulher embriagada cambaleando pelas ruas é um espectáculo digno de pena. A mesma mulher, se cair desajeitadamente no seu estado de embriaguez, talvez seja um espectáculo divertido. Mas esta mesma mulher, por mais desajeitada e embriagada que esteja, quando chora a morte de um filho, não é uma criatura desprezível e ridícula, mas sim uma figura trágica, tão grande como os vossos Hamlets e os vossos Reis Lears. ]


(p. 15; trad. Manuela Parreira da Silva, com alterações)


* 14 de Junho, no Calendário Juliano, então em uso na Rússia.

07 março 2009

E Pessoa não viveu para conhecer a televisão...

Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
de beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 22, p. 146)