19 fevereiro 2013

Ranço

O ancien régime intelectual ainda hoje pesa sobre nós.

(Ricardo Reis, Prosa, 74, p. 243)

17 fevereiro 2013

16 fevereiro 2013

Ecletismo

[...] Se eu gostasse só da minha arte, nem da minha arte gostava, porque vario.

(Álvaro de Campos, “De Newcastle-on-Tyne Álvaro de Campos Escreve à Contemporânea”, Crítica, p. 187)

14 fevereiro 2013

Dia dos Namorados

Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.


(Ricardo Reis, Poesia, II, 112, pp. 118–119)



Fotografia de Ofélia Queirós (1900–1991)

13 fevereiro 2013

68 anos do início do bombardeamento de Dresden (1945)

A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), pp. 213–214)

94 anos do fim da “Monarquia do Norte”, com a entrada das forças republicanas no Porto (1919)

[...] [Ricardo Reis] vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. [...]

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 162, p. 345)

11 fevereiro 2013

155 anos da primeira “aparição” de Lourdes (1858)

Quais milagres de Lourdes, meu amigo!
Milagres de Rússia.
Curar paralisias!

Curar egoísmos, isso é que é milagre.
Ah Lourdes, Lourdes, quantas Lourdes há!

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 198)

09 fevereiro 2013

Fevereiro, “mês dos gatos”

Stencil: «Gato que brincas na rua — Fernando Pessoa. O Gato»
Stencil e fotografia de autores não identificados


Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes,

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 14–15)

06 fevereiro 2013

405 anos do nascimento de Padre António Vieira (1608)

Na palavra falada temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. [...]

A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se subordina a quem a escolhe.

Na palavra escrita tem tudo que estar explicado, pois o leitor nos não pode interromper com o pedido de que nos expliquemos melhor.

(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 114, pp. 243–244)

04 fevereiro 2013

214 anos do nascimento de Almeida Garrett (1799)

[...] the sum and whole of Portuguese literature is hardly literature and scarcely ever Portuguese. It is Provençal, Italian, Spanish and French, occasionally English, in some people, like Garrett, who knew enough French to read bad French translations of inferior English poems and go right when they go wrong on that. [...]

(Fernando Pessoa, Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, 140; em inglês no original)



[ [...] o conjunto da literatura portuguesa dificilmente é literatura e quase nunca é portuguesa. É provençal, italiana, espanhola e francesa, ocasionalmente inglesa, em alguns, como Garrett, que sabia o francês bastante para ler más traduções francesas de poemas ingleses inferiores e acertar quando eles erram. [...] ]

(idem, 148)

03 fevereiro 2013

525 anos do desembarque de Bartolomeu Dias na Aguada de São Brás (Mossel Bay) após dobrar o Cabo das Tormentas, ou da Boa Esperança (1488)

Ilustração de Pedro Sousa Pereira
para a edição de Mensagem pela Oficina do Livro (2006)


02 fevereiro 2013

Dia Mundial das Zonas Húmidas

PAUIS


Pauis que roçarem ânsias pela minh’alma em ouro...
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh’alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Baloiçar de cimos de palma...
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecido em estagnado...
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se...
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta — a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Pra que é tudo isto?... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns!
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através das árvores... tão de ferro!...

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), pp. 213–214)

01 fevereiro 2013

Pessoa, sempre — todos os dias: Fevereiro de 2013

Calendário pessoano: Fevereiro de 2013

Os ícones de cada dia foram adaptados dos do Labirinto do site MultiPessoa.

30 janeiro 2013

Raciocínio

Continua o Fernando Pessoa com aquela mania, que tantas vezes lhe censurei, de julgar que as coisas se provam. Nada se prova senão para ter a hipocrisia de não afirmar. O raciocínio é uma timidez — duas timidezes talvez, sendo a segunda a de ter vergonha de estar calado.

(Álvaro de Campos, “De Newcastle-on-Tyne Álvaro de Campos Escreve à Contemporânea”,
Crítica, pp. 186–187)

28 janeiro 2013

99 anos da criação de Ricardo Reis (1914)*

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 149, pp. 137–138)


«Ricardo Reis»
Pintura de Juan Soler


* Fernando Pessoa hesita entre 28 e 29

25 janeiro 2013

10 anos da abertura da loja maçónica do Grande Oriente Lusitano à comunicação social (2003)

O segundo erro dos anti-maçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias — as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.

Resulta de tudo isto que todas as campanhas anti-maçónicas — baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente — estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério — o de avaliar uma instituição pelos seus actos ocasionais porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais — que haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.

Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito — quando expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa — pelo maçon Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellington e Blucher eram ambos maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados — a Entente Cordiale, obra do maçon Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna — o Fausto, do maçon Goethe.


(Fernando Pessoa, “Associações Secretas”, Da República (1910–1935), 132, pp. 403–404)

23 janeiro 2013

Iconografia pessoana

Desenho de Osvalter

21 janeiro 2013

Produtividade nacional

[...] We do not work enough and we pretend to work too much. [...]

(Fernando Pessoa, “Erostratus”, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, VIII, 35, p. 207;
em inglês no original)



[ [...] Não trabalhamos bastante e fingimos que trabalhamos demasiado. [...] ]

(idem, p. 256; trad. Jorge Rosa)

20 janeiro 2013

71 anos da adopção da “Solução Final para o Problema Judaico” (1942)

Germany, properly speaking, is not civilized also. It has gone the wrong way, but it has gone organisedly on that wrong way.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 168, p. 298; em inglês no original)



[ A Alemanha, propriamente falando, também não é civilizada. Tomou o caminho errado, mas caminhou organizadamente nesse caminho errado. ]

(idem, p. 299)

116 anos da partida de Fernando Pessoa com a mãe para a África do Sul (1896)

«Durban»
Pintura de Juan Soler