30 dezembro 2009

144 anos do nascimento de Rudyard Kipling (1865)

Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

25 dezembro 2009

Natal

Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.

(Fernando Pessoa, “Natal”, Poesia (1918–1930), p. 184)

24 dezembro 2009

485 anos da morte de Vasco da Gama (1524)

ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA


Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra
Suspendem de repente o ódio da sua guerra
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus,
Primeiro um movimento e depois um assombro.
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro,
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões,
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, IX, p. 145)

20 dezembro 2009

10 anos do regresso de Macau à soberania chinesa (1999)

Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

18 dezembro 2009

15 dezembro 2009

“Second Life”? Como assim, “second”?

Avatar de Fernando Pessoa no Second Life
Avatar de Fernando Pessoa no Second Life
Criado por Clara Ferreira a.k.a. Latynina

13 dezembro 2009

464 anos do início do Concílio de Trento (1545)

Deus é um conceito económico. À sua sombra fazem a sua burocracia metafísica os padres das religiões todas.

(Álvaro de Campos, Aforismos e afins, p. 29)

12 dezembro 2009

101 anos do nascimento de Manoel de Oliveira (1908)

Terá Manoel de Oliveira filmado Fernando Pessoa?

Citando o blogue Um Fernando Pessoa:
São apenas cerca de 20 segundos, mas estas são, supostamente, as únicas imagens em filme de Fernando Pessoa, filmadas circa 1926 pelo cineasta Manoel de Oliveira, no Porto. Pessoa estaria em companhia de José Régio.

Aqui no Pessoa para todas as ocasiões somos da opinião de que o sujeito em causa não é Fernando Pessoa.


É um heterónimo.

11 dezembro 2009

Votação do Orçamento de Estado Rectificativo

Eh-lá-hô [...]
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 85)

09 dezembro 2009

Sexo?

O tamanho, a duração não têm importância nenhuma...
São apenas tamanho e duração...

(Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”, 25, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 128)

06 dezembro 2009

824 anos da morte do primeiro Rei de Portugal (1185)

D. AFONSO HENRIQUES


Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como bênção!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, II, p. 91)

05 dezembro 2009

513 anos do decreto de expulsão dos “hereges” de Portugal (1496)

Que abjecção esta regularidade!

(Álvaro de Campos, “Dactilografia”, Poesia, 181, p. 485)

03 dezembro 2009

Eugenia

Eugenics is the great enemy of will-power.

[ A eugenia é o grande inimigo da força de vontade. ]

(Fernando Pessoa, Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 415; em inglês no original)

01 dezembro 2009

369 anos da Restauração da Independência (1640)

A restauração de 1640 fez-se por uma revolução aristocrática, que o povo apoiou, mas em que não colaborou activamente.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 11, p. 112)

30 novembro 2009

74 anos da morte de Fernando Pessoa (1935)

Em mim acaba
Mudo, profundo
Como ruína que desaba
Tudo o que vive e sente o mundo.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 163)


foto
Última foto de Fernando Pessoa (1935)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 171)

29 novembro 2009

Astrologia

Placa evocativa das últimas palavras de Fernando Pessoa
I know not what tomorrow will bring.

[ Não sei o que o amanhã trará. ]

(últimas palavras escritas por Fernando Pessoa, na véspera da sua morte,
Fernando Pessoa – Fotobiografia, p. 161; em inglês no original)

26 novembro 2009

Bom Povo

O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir.

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”,
Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

24 novembro 2009

Dia Nacional da Cultura Científica*

Quantas gerações não serão precisas para a libertação, pela ciência, de um povo! Se ainda não foi possível a libertação, pela ciência, dos homens da ciência, e da gente culta!

(Ricardo Reis, Prosa, 81, p. 253)



* Nascimento de Rómulo de Carvalho (1906).

21 novembro 2009

Dia Mundial da Televisão

Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 42)

19 novembro 2009

Dia Mundial da Filosofia

Contra a maioria das doutrinas filosóficas tenho a queixa de que são simples; o facto de quererem explicar é prova bastante de tal, pois explicar é simplificar.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 33)



Para cada filósofo, Deus é da sua opinião.

(Bernardo Soares, Aforismos e afins, p. 67)

16 novembro 2009

Dia Internacional para a Tolerância

Toda a sinceridade é uma intolerância.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 276, p. 267)

14 novembro 2009

Dia Mundial da Diabetes

Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
[...]
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 323)

11 novembro 2009

91 anos do fim da I Guerra Mundial (1918)

Por aqueles, minha mãe, que morreram, que caíram na batalha...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles, minha mãe, que ficaram mutilados no combate
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Por aqueles cuja noiva esperará sempre em vão...
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
Sete vezes sete vezes murcharão as flores no jardim
Dlôn — ôn — ôn — ôn...
E os seus cadáveres serão do pó universal e anónimo
Dlôn — ôn — on — on...
E eles, quem sabe, minha mãe, sempre vivos [.], com esperança...
Loucos, minha mãe, loucos, porque os corpos morrem e a dor não morre...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Que é feito daquele que foi a criança que tiveste ao peito?
Dlôn...
Quem sabe qual dos desconhecidos mortos aí é o teu filho
Dlôn...
Ainda tens na gaveta da cómoda os seus bibes de criança...
Ainda há nos caixotes da dispensa os seus brinquedos velhos...
Ele hoje pertence a uma podridão órfã somewhere in France.
Ele que foi tanto para ti, tudo, tudo, tudo...
Olha, ele não é nada no geral holocausto da história
Dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...
Dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn — dlôn...

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23i, pp. 158–159)

Dia de “São” Martinho

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

09 novembro 2009

09 Nov 1989: O Comunismo caía de podre

Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 306, p. 289)

07 novembro 2009

92 anos da Revolução Bolchevique

Visando a liberdade, a libertação dos operários e dos fracos, o bolchevismo oprimiu outros fracos e não aos que disse servir desoprimiu.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)

07 Nov 1917*: Nascia a Ditadura do Proletariado

Não me capem com ideais!

(Álvaro de Campos, Poesia, 138, p. 423)



* 25 de Outubro, segundo o calendário juliano.

«Nas terras altas o vento soprará forte a muito forte (45 a 60 km/h), de noroeste com rajadas da ordem dos 90 km/h» (Instituto de Meteorologia)

Pessoa levado pelo vento
Desenho de Jorge Colombo

04 novembro 2009

Bondade

Não somos bondosos nem caritativos — não porque sejamos o contrário, mas porque não somos nem uma coisa, nem a outra. A bondade é a delicadeza das almas grosseiras.

(Bernardo Soares, “Declaração de Diferença”, Livro do Desassossego, p. 428)

01 novembro 2009

Dia de Todos os “Santos”

O cristismo apresenta-se-nos composto de três elementos — o sentimento cristista propriamente tal, o elemento pagão contido na presença daqueles santos que todos hoje sabemos serem apenas sucessores deformados dos deuses, e aquele elemento propriamente religioso que todas as religiões contêm.

(António Mora, Obra em Prosa, p. 181)



Uma diferença idêntica separa o politeísmo grego do politeísmo da Igreja Católica, representado por os seus santos, que, para a maioria das populações nas nações católicas, têm, na devoção e no culto, um lugar acima de Deus.

(Ricardo Reis, Prosa, 15, pp. 83–84)

31 outubro 2009

Dia Mundial da Poupança

O dinheiro é belo, porque é uma libertação.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 295, p. 281)

29 outubro 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa no “Martinho da Arcada”, com Costa Brochado


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, pp. 6–7)

28 outubro 2009

87 anos da “Marcha sobre Roma” do Partido Nacional Fascista de Benito Mussolini (1922)

O problema apresentado pelo fascismo é muito simples, e, na sua essência, não nos é, a nós portugueses, desconhecido. O povo italiano — que é de supor que o seja, e não fascista nem comunista — recebeu há anos, do lado direito da cara, a bofetada do comunismo. O fascismo, para o endireitar, deu-lhe uma bofetada, um pouco mais forte, do lado esquerdo. Não sabemos, nem temos meio de saber, se o povo italiano aprecia mais o ter ficado direito, ou neo-torto, ou as desvantagens faciais do processo empregado. E resta sempre saber, nesta matéria — como cada nova bofetada é sempre mais forte que a anterior, para poder endireitar —, em que altura é que pára a terapêutica equilibradora, e em que estado fica o equilibrado quando o Destino, por fim, se cansa do tratamento.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 114, pp. 357–358)

26 outubro 2009

Governo

A encenação dos incompetentes é a mais cruel das ironias dos deuses.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 50, p. 263)

23 outubro 2009

23 Out 4004 AC, 9 da manhã em ponto: instante preciso da criação do Mundo por Deus, segundo James Ussher (1581–1656)

Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é ele que as criou, do que duvido» —.

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, VIII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 55)

20 outubro 2009

Razão e Fé

Os místicos, os esotéricos, e outra gente assim, têm sido sempre, notavelmente, falhos de lucidez, de grandeza intelectual e de espírito compreensivo e claro. [...]
O Raciocínio é anti-divino por natureza. Por isso devemos amar e cultivar o Raciocínio.

(Alberto Caeiro, Pessoa por Conhecer, vol. II, 326, p. 363)

19 outubro 2009

Iconografia pessoana

Estátua de Fernando Pessoa no Parque dos Poetas (Oeiras)
Fotografia de Paulo Azevedo

18 outubro 2009

Movimento Perpétuo Associativo

Tantos nobres ideais caídos entre o estrume, tantas ânsias verdadeiras extraviadas entre o enxurro!

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 273, p. 265)

15 outubro 2009

Assembleia da República

[...] estalagem onde riem os parvos felizes [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 200, p. 206)

13 outubro 2009

“Milagre do Sol”

Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 256, p. 252)

Fátima ou Lenine, tanto dá

O ódio à ciência, às leis naturais, é o que caracteriza a mentalidade popular. O milagre é o que o povo quer, é o que o povo compreende. Que o faça Nossa Senhora de Lourdes ou de Fátima, ou que o faça Lenine — nisso só está a diferença.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

119 anos do “nascimento” de Álvaro de Campos (1890)

foto
Álvaro de Campos (Faculdade de Letras
da Universidade de Lisboa; pormenor)
Painel gravado de José de Almada Negreiros (1961)

12 outubro 2009

517 anos da chegada de Cristóvão Colombo às Américas (1492)

Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 286)



OS COLOMBOS


Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VI, p. 139)

10 outubro 2009

Dia Mundial da Saúde Mental

O pensamento é enterrado vivo
No mundo e ali sufoca.

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, p. 21)

09 outubro 2009

Iconografia pessoana

Papel timbrado da “Empresa Íbis”, de Fernando Pessoa

08 outubro 2009

Prémio Nobel da Literatura

O triunfo supremo de um artista é quando ao ler suas obras o leitor prefere tê-las e não as ler.

(Bernardo Soares, “Máximas”, Livro do Desassossego, p. 450)

07 outubro 2009

60 anos da fundação da República Democrática Alemã (1949)

As cortinas das janelas impediam ver para fora, uma porém [] dum lado mostrava ao longe o azul muito azul do céu, muito azul, muito longe, muito azul, muito de um azul liso, puro e perfeito.

(Marco Alves, Pessoa por Conhecer, vol. II, 25h, p. 43)

438 anos da Batalha de Lepanto (1571)

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Homens do mar actual! homens do mar passado!
Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, p. 118)

05 outubro 2009

99 anos da implantação da República (1910)

Propriamente falando, eu não combato a monarquia; combato a monarquia portuguesa. [...] A monarquia portuguesa aí está! Basta olhar para ela. Não há melhor argumento.

(Pantaleão, Pessoa por Conhecer, vol. II, 160, p. 211)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

03 outubro 2009

Ironia: modo de usar

Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verdade com um invólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo.

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 419)

01 outubro 2009

60 anos da fundação da República Popular da China (1949)

Quedar-nos-emos indiferentes à verdade ou mentira de todas as religiões, de todas as filosofias, de todas as hipóteses inutilmente verificáveis a que chamamos ciências. Tão-pouco nos preocupará o destino da chamada humanidade, ou o que sofra ou não sofra em seu conjunto. Caridade, sim, para com o «próximo» como no Evangelho se diz, e não com o homem, de que nele se não fala. E todos, até certo ponto assim somos: que nos pesa, ao melhor de nós, um massacre na China? Mais nos dói, ao que de nós mais imagine, a bofetada injusta que vimos dar na rua a uma criança.

¤

[...] senti sempre os movimentos humanos — as grandes tragédias colectivas da história ou do que dela fazem — como frisos coloridos, vazios da alma dos que passam neles. Nunca me pesou o que de trágico se passasse na China. É decoração longínqua, ainda que a sangue e peste.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 447, p. 394 & 165, p. 178)

Dia Mundial da Música

A música, sim, a música...
Piano banal do outro andar...
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor...
A música... Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal...
Mas é música...

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música...
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música...
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música...!

(Álvaro de Campos, Poesia, 192, p. 501)

30 setembro 2009

73 anos da criação da Legião Portuguesa (1936)

Plagiamos o fascismo e o hitlerismo, plagiamos claramente, com a desvergonha da inconsciência, como a criança imita sem hesitar. Não reparamos que fascismo e hitlerismo, em sua essência, nada têm de novo, porventura nada de aproveitável, como ideias;

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)

28 setembro 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa após regressar da África do Sul


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 76)

27 setembro 2009

Resultados eleitorais

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença[?]

(Ricardo Reis, Poesia, II, 32, p. 64)

Agora que campanha eleitoral passou...

Volta amanhã, realidade!

(Álvaro de Campos, Poesia, 140, p. 428)

26 setembro 2009

Dia de reflexão?

O voto popular não é uma manifestação de opinião; é uma expressão de sentimento.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 55, p. 269)

Para o meu irmão... :o)

É-se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.

(Álvaro de Campos, “Oxfordshire”, Poesia, 148, p. 440)

25 setembro 2009

Caça aos últimos indecisos...

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

24 setembro 2009

Para a classe política que temos, com amor

[...] Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
[...]
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, pp. 280/281)

22 setembro 2009

À atenção de todos os candidatos a cargos políticos

Espera o melhor e prepara-te para o pior.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 357)

20 setembro 2009

490 anos do início da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães (1519)

FERNÃO DE MAGALHÃES


No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto —
Cingi-lo, dos homens, o primeiro —,
Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, VIII, p. 143)

17 setembro 2009

159 anos do nascimento de Guerra Junqueiro (1850)

G. Junqueiro? Tenho uma grande indiferença pela obra dele. Já o vi... Nunca pude admirar um poeta que me foi possível ver.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, AP17, p. 499)

16 setembro 2009

Iconografia pessoana

Monumento ao Infante D. Henrique em Lagos (Algarve)


(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

15 setembro 2009

Dia Internacional da Democracia

O povo é fundamentalmente, radicalmente, irremediavelmente reaccionário. O liberalismo é um conceito aristocrático, e portanto inteiramente oposto à democracia.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

12 setembro 2009

Promessas eleitorais

Ficções do Interlúdio

(ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim,
col. Obras de Fernando Pessoa (n.º 5), 1999)

09 setembro 2009

36 anos da primeira reunião do Movimento dos Capitães (1973), embrião do Movimento das Forças Armadas e do 25 de Abril

Ataquemos pois o que sabemos velho, podre e decadente. A sociedade edificará depois o que haverá de lhe seguir. [...] Destruindo o velho, damos lugar ao novo, seja ele o que for.

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 66, p. 87)

07 setembro 2009

Multimédia pessoano

Dead Combo, Quando a alma não é pequena (2006)

04 setembro 2009

Festa do Avante!

Uma árvore não vai a comícios. [...]

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 373)

01 setembro 2009

70 anos da invasão nazi da Polónia e do início da II Guerra Mundial (1939)

A guerra actual é uma guerra entre dois princípios sociológicos, entre dois critérios de civilização. [...] Um desses princípios é representado pela Alemanha; [...]

O princípio representado pela Alemanha resume-se em poucas palavras. É este: A Pátria está acima da Civilização. [...] É claro que um país em que se sustente, acima de todas, esta teoria da civilização deve mostrar características especiais. [...] um estado que ponha a Pátria acima da civilização deve, ipso facto, colocar o Estado acima do Indivíduo, deve, em tudo quanto possa ser, subordinar o indivíduo ao Estado. Assim, sem que possa contestar-se, faz a Alemanha.

É evidente, em seguida, que um critério desta ordem deve ser nitidamente militarista.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 38, pp. 227–228)

29 agosto 2009

112 anos do Primeiro Congresso Sionista (1897)

[...] Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. [...]

(Ricardo Reis, Poesia, II, 127, p. 125)

27 agosto 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa aos 20 anos (1908)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 60)

26 agosto 2009

(I)moralidade e intelecto

Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 20)

23 agosto 2009

Dia Europeu de Recordação da Vítimas dos Regimes Totalitários e Autoritários

Saudação a todos quantos querem ser felizes:
Saúde e estupidez!

Isto de ter nervos
Ou de ter inteligência
Ou até de julgar que se tem uma coisa ou outra
Há-de acabar um dia...
Há-de acabar com certeza
Se os governos autoritários continuarem.

(Álvaro de Campos, Poesia, 234, p. 574)

19 agosto 2009

Iconografia pessoana

fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos
«Ode Marítima VI»
Fotogravura de Bartolomeu Cid dos Santos (1988)

Entre Hel e Gdańsk, o porto recortando-se no horizonte

Eh marinheiros, gajeiros! eh tripulantes, pilotos!
Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros!
Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros!
Homens que dormem em beliches rudes!
Homens que dormem co’o Perigo a espreitar plas vigias!
Homens que dormem co’a Morte por travesseiro!
Homens que têm tombadilhos, que têm pontes donde olhar
A imensidade imensa do mar imenso!
Eh manipuladores dos guindastes de carga!
Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo!
Homens que metem a carga nos porões!
Homens que enrolam cabos no convés!
Homens que limpam os metais das escotilhas!
Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros!
Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!
Gente de boné de pala! Gente de camisola de malha!
Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito!
Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada!
Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva,
Limpa de olhos de tanta imensidade diante deles,
Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 117–118)

18 agosto 2009

Atravessando a Mazóvia de comboio

Azuis os montes que estão longe param.
De eles a mim o vário campo ao vento, à brisa,
Ou verde ou amarelo ou variegado,
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Como os campos, e vário, e como eles,
Exterior a mim, me entrego, filho
Ignorado do Caos e da Noite
Às férias em que existo.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 126, p. 125)

16 agosto 2009

Iconografia pessoana

«Acordar na cidade de Lisboa...»*
Pintura de Norberto Nunes


* (Álvaro de Campos, Poesia, 10, p. 97)

15 agosto 2009

Amanhã parto para a terra do Rei Ubu*

Faz as malas para Parte Nenhuma!

(Álvaro de Campos, Poesia, 177, p. 479)




* «L’action se passe en Pologne, c’est-à-dire nulle part.» (Alfred Jarry, Ubu roi, 1896)

14 agosto 2009

624 anos da Batalha de Aljubarrota (1385)

NUN’ÁLVARES PEREIRA


Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.

Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

(Fernando Pessoa, Mensagem, Primeira Parte, IV, p. 113)

10 agosto 2009

Opinion makers portugueses

É interessante, embora doloroso, analisar os processos mentais dos argumentados escreventes portugueses. Podem resumir-se em um — a incapacidade de argumento. Tanta lei, tanta lei, e não haver uma lei que proíba o exercício ilegal do raciocínio!

(Fernando Pessoa, Da República (1910–1935), 150, p. 424)

06 agosto 2009

64 anos do lançamento da primeira bomba atómica, sobre Hiroshima (1945)

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

(Fernando Pessoa, “Tomámos a vila depois dum intenso bombardeamento”,
Poesia (1918–1930), p. 331)

04 agosto 2009

431 anos da Batalha de Alcácer-Quibir (1578)

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


«Fernando Pessoa encontra D. Sebastião num caixão sobre um burro ajaezado à andaluza»
Pintura de Júlio Pomar (1985)

03 agosto 2009

03 Ago 1968: Salazar caía (literalmente) da cadeira

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, pp. 65–66)

31 julho 2009

50 anos da fundação da organização terrorista ETA (1959)

Vou atirar uma bomba ao destino.

(Álvaro de Campos, Poesia, 42, p. 264)

30 julho 2009

Crítica literária

A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. [...]

[...] Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo — eis um passatempo deliciosamente de crítico, e ao qual juramos fidelidade.

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

Crítica literária “bulldozer”

Destina-se esta secção à crítica dos maus livros e especialmente à crítica daqueles maus livros que toda a gente considera bons. O livro, consagrado por qualidades que não tem, do homem consagrado por qualidades com que outros o pintaram; o livro daquele que, tendo criado fama, se deitou a fingir que dormia; o livro do que entrou no palácio das musas pela janela ou colheu a maçã da sabedoria com o auxílio dum escadote — tudo isto se pesará na Balança de Minerva.

[...] pretendemos dar a entender que o nosso uso da Balança de Minerva limitar-se-á, na maioria dos casos, a dar com ela — pesos e tudo — na cabeça do criticado. Isso, de resto, não deve preocupar ninguém. Quem tiver de ser imortal pode sê-lo mesmo com a cabeça partida. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, pp. 91–92)

29 julho 2009

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 julho 2009

95 anos do início da I Guerra Mundial (1914)

Ruído longínquo e próximo não sei porquê
Da guerra europeia... Ruído de universo de catástrofe...
Que vai morrer para além de onde ouvimos e vemos?
Em que fronteiras deu a morte rendez-vous
Ao destino das nações?

Ó Águia Imperial, cairás?
Rojar-te-ás, negra amorfa coisa em sangue,
Pela terra, onde sob o teu cair
Ainda tens marcado o sinal das tuas garras para antes formar o voo
Que deste sobre a Europa confusa?

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23b, pp. 148–149)

27 julho 2009

39 anos da morte de Salazar (1970)

Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...

(Álvaro de Campos, Poesia, 67, p. 305)

24 julho 2009

Superioridade da Arte e da Ciência sobre a Política

GAZETILHA

Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já passada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!

(Álvaro de Campos, Poesia, 77, p. 328)

22 julho 2009

Iconografia pessoana

«Alberto Caeiro»
Pintura de Lívio de Morais (1998)

21 julho 2009

2364 anos da destruição do Templo de Ártemis em Éfeso (356 AC)

Contudo, é admissível pensar que existe uma espécie de grandeza em Heróstrato — uma grandeza que ele não partilha com arrivistas menores que irromperam na fama inopinadamente. Sendo grego, pode conceber-se que possuía a percepção refinada e o calmo delírio da beleza que ainda distinguem a memória do seu clã de gigantes. É, pois, concebível que tenha incendiado o templo de Diana num êxtase de dor, queimando parte de si mesmo na fúria da sua malvada façanha. Podemos legitimamente conceber que tivesse superado os apertos de um remorso futuro, e enfrentado um horror íntimo para alcançar uma fama duradoura.

(Fernando Pessoa, “Heróstrato ou o futuro da celebridade”,
Prosa Íntima e de Autoconhecimento, p. 362; em inglês no original)

18 julho 2009

312 anos da morte de Padre António Vieira (1697)

Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro [...]

(Fernando Pessoa, “Ecolalia interior”, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 3, p. 79)

17 julho 2009

Dia Mundial para a Justiça Internacional

[...] A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. [...]

(Fernando Pessoa, “Balança de Minerva — Aferição”, Crítica, p. 91)

16 julho 2009

Iconografia pessoana

«O Poeta Fernando Pessoa e uma Janela»
Pintura de Costa Pinheiro (1985)

15 julho 2009

Início da época de saldos

É um universo barato.

(Álvaro de Campos, Poesia, 143, p. 433)

14 julho 2009

220 anos da tomada da Bastilha (1789)

Visando o estabelecimento da liberdade, a Revolução Francesa suprimiu-a toda; inverteu os termos da opressão, nada mais.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 48, p. 258)




A Revolução Francesa foi um renascimento do Cristianismo. O seu célebre triplo lema é o lema substancial da sensibilidade cristã. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — outros não são os ensinamentos essenciais do Evangelho jesuísta.

(Ricardo Reis, Prosa, 5, p. 61)

11 julho 2009

11 Jul 1947: o Exodus zarpava para a Terra Santa

Estou liberto e decidido

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 18)

10 julho 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Alberto Cutileiro (Jan 1935)

09 julho 2009

Criacionismo

[...] saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

07 julho 2009

Reunião dos Ministros da Economia e das Finanças (Ecofin) da União Europeia

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 279)

04 julho 2009

233 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776)

Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 281)

02 julho 2009

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa aos 10 anos, em Durban (1898)


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 34)

01 julho 2009

As incertezas dos tempos que correm

Que lindo dia o que vemos!
Mas, como estes tempos vão,
É bom que não confiemos...
É melhor dizer que temos,
Não um dia de verão,
Mas um dia de veremos.

(Fernando Pessoa, “Diferença de Pessoa”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 486)

28 junho 2009

95 anos do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo (1914)

Todo começo é involuntário.

(Fernando Pessoa, “O Conde D. Henrique”, Mensagem, Primeira Parte, II, Terceiro, p. 87)

26 junho 2009

Dia Internacional de Apoio às Vítimas de Tortura

We torture our brother men with hate, spite, evil, and then say “the world is bad”.

[ Torturamos os nossos irmãos homens com o ódio, o rancor, a maldade e depois dizemos «o mundo é mau». ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 20; em inglês no original)

25 junho 2009

Irmã Lúcia, 25 de Junho de 2000

Tenho um segredo que nem eu própri[a] conheço...

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 350)

Iconografia pessoana

Stencil em Exmouth Market (Londres)
Foto de Duncan Cumming

24 junho 2009

Dia de “São” João

No dia de S. João
Há fogueiras e folias.
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.

(Fernando Pessoa, Quadras, II, 200, p. 104)

22 junho 2009

68 anos do início da Operação Barbarossa (1941)

[...] onde se mostrou, mais uma inútil vez, que a coragem física não é, em geral, acompanhada duma grande lucidez intelectual.

(Fernando Pessoa, “Carta a um Herói Estúpido”, Da República (1910–1935), 83, pp. 195–196)

21 junho 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Liberati

20 junho 2009

Dia Mundial do Refugiado

Como que nu me sinto e exilado
Entre coisas estranhas, [...]

(Fernando Pessoa, Fausto — Tragédia Subjectiva, Quadro X, p. 84)

19 junho 2009

386 anos do nascimento de Blaise Pascal (1623)

Pascal era um teólogo em verso, que escreveu em prosa.

(Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, vol. I, IV, 46, p. 135)

18 junho 2009

194 anos da Batalha de Waterloo (1815)

Napoleão disse que não conhecia a palavra impossível, mas deve tê-la encontrado em Moscovo e Waterloo, se a não tinha visto antes.

(Álvaro de Campos, “Ritmo Paragráfico”, Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 272)

16 junho 2009

Iconografia pessoana

Painel de azulejos no “Martinho da Arcada”
(fotografia: Emma’s House in Portugal)

15 junho 2009

311 DC: Licínio ordena o fim da perseguição aos cristãos no Império Romano do Oriente

Sabe-se hoje que grande parte das perseguições feitas aos cristãos [...] são puramente míticas, sendo das variadíssimas invenções dos propagandistas primitivos do Cristianismo.

(Fernando Pessoa, Ultimatum e Páginas de Sociologia Política, 49, pp. 260–261)

13 junho 2009

121 anos do nascimento de Fernando Pessoa (1888)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.

(Álvaro de Campos, “Aniversário”, Poesia, 126, p. 403)

Heteronímia

Sou um evadido,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 47)

Iconografia pessoana

foto
Fernando Pessoa, com poucas semanas de idade, ao colo da mãe.


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 26)

Pessoa: grande demais para o país onde viveu

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 322)

12 junho 2009

24 anos do Tratado de Adesão de Portugal à CEE (1985)

Temos vivido por empréstimo a vida europeia. Salvo quando fizemos as descobertas, fomos sempre atrás dos últimos.

(Fernando Pessoa, Pessoa Inédito, 178, p. 311)

11 junho 2009

Iconografia pessoana

«Ilustração sobre Tabacaria»
de Nádia

10 junho 2009

Dia de Portugal...

Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!

(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)

... de Camões...

Resta dizer, de Camões, que não chegou para o que foi. Grande como é, não passou do esboço de si próprio. [...] A epopeia que Camões escreveu pede que aguardemos a epopeia que ele não pôde escrever. A maior coisa nele é o não ser grande bastante para os semideuses que celebrou.

(Fernando Pessoa, Crítica, p. 216)

... e das Comunidades Portuguesas

Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa,
Mutilados da relação com os outros,
Que depois contarão na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.

(Álvaro de Campos, “Os Emigrados”, Poesia, 35, p. 256)

Iconografia pessoana

Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

08 junho 2009

Dia Mundial dos Oceanos

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina
E eu cismo indeterminadamente as viagens.
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas como certos momentos no Pacífico
Em que não sei por que sugestão aprendida na escola
Se sente pesar sobre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos
E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!
O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos!
O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater
De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas!
Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos,
Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!

(Álvaro de Campos, “Ode Marítima”, Poesia, 18, pp. 112–113)

06 junho 2009

65 anos do início do Desembarque na Normandia (Dia D, Operação Overlord)

Tudo é incerto e derradeiro.
[...]
É a Hora!

Valete, Fratres.

(Fernando Pessoa, “Nevoeiro”, Mensagem, Terceira Parte, III, p. 191)

04 junho 2009

20 anos do massacre de manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen (1989)

Sê lanterna, dá luz com vidro à roda.
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 103, pp. 113–114)

01 junho 2009

Dia Internacional da Criança

Pintura de João Luiz Roth


Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)

31 maio 2009

Dia Mundial sem Tabaco

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Álvaro de Campos, Poesia, 75, p. 326)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

28 maio 2009

83 anos da Revolução de 28 de Maio de 1926

Se a República Portuguesa falhou, não é como República, é como portuguesa.

(Fernando Pessoa, Prosa Publicada em Vida, p. 299)

24 maio 2009

672 anos do início da Guerra dos Cem Anos (1337)

Hela hoho, helahoho!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
Numa manhã triunfal,
Numa longa linha como que pintada em minha alma,
Sucessivamente, indeterminadamente,
Couraças, lanças, capacetes brilhando,
Escudos virados para mim,
Viseiras caídas, cotas de malha,
Os prélios, as justas, os combates, as emboscadas.
Archeiros de Crecy e de Azincourt!
Armas de Arras.

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23c, pp. 152–153)

22 maio 2009

196 anos do nascimento de Richard Wagner (1813)

É de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada,
É de cavalgada, de cavalgada, de cavalgada
O ruído, ruído, ruído agora já nítido.

Vejo-as no coração e no horror que há em mim:
Valquírias, bruxas, amazonas do assombro...

(Álvaro de Campos, “Ode Marcial”, Poesia, 23a, p. 147)

20 maio 2009

511 anos da chegada de Vasco da Gama à Índia (1498)

Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.

(Álvaro de Campos, “Opiário”, Poesia, 5, p. 63)


(autor nosso desconhecido; agradecemos qualquer informação)

Dia da Marinha

MAR PORTUGUÊS


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa, Mensagem, Segunda Parte, X, p. 147)

19 maio 2009

Dia Mundial da Hepatite

o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive [...]

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 258, p. 254)

18 maio 2009

Dia Internacional dos Museus

Atribuo a este estado de alma a minha repugnância pelos museus. O museu, para mim, é a vida inteira, em que a pintura é sempre exacta, e só pode haver inexactidão na imperfeição do contemplador.

(Bernardo Soares, “O Amante Visual”, Livro do Desassossego, p. 466)

17 maio 2009

Dia Internacional contra a Homofobia

Bolas para a gente ter que aturar isto! [...] Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

(Álvaro de Campos, “Aviso por Causa da Moral”, Crítica, p. 200)

16 maio 2009

Iconografia pessoana

Desenho de Fábio

15 maio 2009

Dia Internacional do Objector de Consciência

A violência, seja qual for, foi sempre para mim uma forma esbugalhada de estupidez humana.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 160, p. 174)

13 maio 2009

Fátima, Futebol e Fado

Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

(Álvaro de Campos, Poesia, 45, p.267)

Fé e virtudes dos reaccionários portugueses

Uma coisa, e uma só, me preocupa: que com este artigo eu contribua, em qualquer grau, para estorvar os reaccionários portugueses em um dos seus maiores e mais justos prazeres — o de dizer asneiras. Confio, porém, na solidez pétrea das suas cabeças e nas virtudes imanentes naquela fé firme e totalitária que dividem, em partes iguais, entre Nossa Senhora de Fátima e o senhor D. Duarte Nuno de Bragança.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, pp. 201–202)

Iconografia pessoana

Fernando Pessoa por Júlio Pomar
Pintura de Júlio Pomar (1985)

12 maio 2009

Dia Internacional dos Enfermeiros

A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

(Fernando Pessoa, Quadras, I, 159, p. 50)

10 maio 2009

Egocentrismo

Há qualquer coisa de vil, de degradante, nesta transposição das nossas mágoas para o universo inteiro;

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 31)

Astrologia

[...] o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros,

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 56)



Carta astral de Fernando Pessoa, feita pelo próprio

08 maio 2009

O Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (RVCC, “Novas Oportunidades”) explicado às criancinhas

[...] conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

(Álvaro de Campos, “Tabacaria”, Poesia, 75, p. 320)

06 maio 2009

Saiu hoje: relatório da Aliança Europeia de Segurança Infantil

Bem sei que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala, meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

Na casa da mãe do filho que foi atropelado,
Tudo ri, tudo brinca.
E há um grande ruído de buzinas sem conta a lembrar

Receberam a compensação:
Bebé igual a X,
Gozam o X neste momento,
Comem e bebem o bebé morto,
Bravo! São gente!
Bravo! São a humanidade!
Bravo: são todos os pais e todas as mães
Que têm filhos atropeláveis!
Como tudo esquece quando há dinheiro.
Bebé igual a X.

Com isso se forrou a papel uma casa.
Com isso se pagou a última prestação da mobília.
Coitadito do Bebé.
Mas, se não tivesse sido morto por atropelamento, que seria das contas?
Sim, era amado.
Sim, era querido
Mas morreu.
Paciência, morreu!
Que pena, morreu!
Mas deixou o com que pagar contas
E isso é qualquer coisa.
(É claro que foi uma desgraça)
Mas agora pagam-se as contas.
(É claro que aquele pobre corpinho
Ficou triturado)
Mas agora, ao menos, não se deve na mercearia.
(É pena sim, mas há sempre um alívio.)

O bebé morreu, mas o que existe são dez contos.
Isso, dez contos.
Pode fazer-se muito (pobre bebé) com dez contos.
Pagar muitas dívidas (bebézinho querido)
Com dez contos.
Pôr muita coisa em ordem
(Lindo bebé que morreste) com dez contos.
Bem se sabe é triste
(Dez contos)
Uma criancinha nossa atropelada
(Dez contos)
Mas a visão da casa remodelada
(Dez contos)
De um lar reconstituído
(Dez contos)
Faz esquecer muitas coisas (como o choramos!)
Dez contos!
Parece que foi por Deus que os recebeu
(Esses dez contos).
Pobre bebé trucidado!
Dez contos.

(Álvaro de Campos, Poesia, 114, pp. 385–387)

Iconografia pessoana

Caricatura de Vasco Gargalo

Acordo Ortográfico (I)

O argumento da uniformização é uma coisa, a base em que uniformizar é outra. Sobre as vantagens da uniformização ortográfica estamos, creio, todos de acordo; não o estamos sobre a ortografia que haja de ser a uniforme.
Também não o estaremos, suponho, sobre a imposição da ortografia. Que, tomada certa ortografia por oficial, dela use o Estado nas suas publicações, não é mais que inevitável e justo. Sobre o que sejam, para este efeito, «publicações do Estado» haverá um pouco mais de dúvida. Os documentos oficiais, «Diários do Governo», etc. por certo que são publicações do Estado. Os livros de estudo primário — isto é, os por onde se aprenda a ler — usados nas escolas do Estado, também o serão. Que tem, porém, o Estado com os livros que se empregam nas escolas particulares? Que tem com os livros que servem, não para ensinar a ler, mas para ensinar coisas que neles se lêem?
A ortografia é um fenómeno da cultura, e portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito. O Estado não tem direito a compelir-me, em matéria estranha ao Estado, a escrever numa ortografia que repugno, como não tem direito a impor-me uma religião que não aceito.

No Brasil a chamada reforma ortográfica não foi aceite, nem ainda hoje, depois de assente em acordo entre os governos português e brasileiro, é aceite. Quis-se impor uma coisa com que o Estado nada tem a um povo que a repugna.

(Fernando Pessoa, “Ortografia”, Pessoa Inédito, 119, p. 248)

Acordo Ortográfico (II)

Depois de trabalho vário
Ando triste como vê.
Não entendo o dicionário,
Não conheço o abecedário,
Caturra! O que fez você!

[...]

Escreve lá à tua moda
Na minha eu hei-de ficar;
Não m’importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!

(Dr. Pancrácio, “Falar e Escrever”, Pessoa por Conhecer, vol. II, 110, pp. 152–153)

04 maio 2009

Dia Internacional dos Bombeiros

Vou tanger lira como Nero.
Mas o incêndio não é preciso.

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 342)


Arte digital de Celito Medeiros

03 maio 2009

Dia Mundial da Liberdade de Imprensa

Sucede, porém, uma coisa — sucedeu há cinco minutos — que me confirma em uma decisão que estava incerta, e que me inibe de dar colaboração para a Presença, ou para qualquer outra publicação aqui do país, ou de publicar qualquer livro.
Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste ano, na distribuição de prémios no Secretariado da Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que estava substituída a regra restritiva da Censura, «não se pode dizer isto ou aquilo», pela regra soviética do Poder, «tem que se dizer aquilo ou isto». Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos orientadores do citado Estado Novo. Isto quer dizer, suponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referência ao equilíbrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portuguesa e as outras engrenagens da mesma espécie.

(Fernando Pessoa, Correspondência (1923–1935), 168, p. 358)

02 maio 2009

41 anos do Maio de 68

Toda a revolução é essencialmente inútil. [...] Uma revolução pode pois definir-se «um modo violento de deixar tudo na mesma».

(Fernando Pessoa, Pessoa por Conhecer, vol. II, 45, pp. 71–72)

É mais fácil assim...

First be free; then ask for freedom.

[ Primeiro sê livre; depois pede a liberdade. ]

(Fernando Pessoa, Aforismos e afins, p. 59; em inglês no original)

01 maio 2009

Dia do Trabalhador

Tudo, quanto penso ou sinto, inevitavelmente se me volve em modos de inércia.

(Barão de Teive, A Educação do Estóico, p. 36)

Iconografia pessoana

Cartoon de Rui Pimentel (1997)

30 abril 2009

64 anos da morte de Adolf Hitler (1945)

E tudo isto são coisas que nem o suicídio cura.

(Álvaro de Campos, Poesia, 119, p. 394)

28 abril 2009

120 anos do nascimento de Salazar (1889)

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.

Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu...

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), pp. 379–380)

Dia Mundial da Segurança no Trabalho

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

(Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, Poesia, 8, p. 86)

27 abril 2009

Mal sabes tu o que o dia de amanhã te reserva...

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!

(Álvaro de Campos, “Saudação a Walt Whitman”, Poesia, 24a, p. 164)

25 abril 2009

25 Abr 1974: Dia da Liberdade

Tardava o dia como a felicidade e àquela hora parecia que também indefinidamente.

(Bernardo Soares, “Paisagem de Chuva”, Livro do Desassossego, 240, p. 237)


Aguarela de Hermenegildo Sábat
(Fonte: Público)

24 abril 2009

Movimento das Forças Armadas, 24 de Abril de 1974

Pelo jardim secreto
Na véspera do fim.

(Fernando Pessoa, “Presságio”, Poesia (1918–1930), p. 264)

23 abril 2009

Dia Internacional do Livro

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
[...]

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

(Fernando Pessoa, “Liberdade”, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 378)


Estátua na Praça do Teatro Nacional de São Carlos
Foto de André Garrido (blogue Dia a Dia por Fotografia)

“Literatura” light

Nunca faz mal o que escrevas
Desde que não escrevas nada

(Fernando Pessoa, Poesia (1931–1935 e não datada), p. 363)

22 abril 2009

Dia da Terra

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXI”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 71)

Gaia

Só a Natureza é divina, e ela não é divina...

(Alberto Caeiro, “O Guardador de Rebanhos, XXVII”,
Poemas Completos de Alberto Caeiro, p. 77)

Iconografia pessoana

Caricatura de Rodríguez Castañé (21 Set 1912)

21 abril 2009

Entrevista de José Sócrates à RTP

Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 275, p. 267)

20 abril 2009

120 anos do nascimento de Adolf Hitler (1889)

Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.

(Bernardo Soares, Livro do Desassossego, 237, p. 235)

19 abril 2009

Iconografia pessoana

Caricatura de J. Bosco

18 abril 2009

Ainda (infelizmente) o “eduquês”

Como todas as coisas com ar de certas, e que se espalham, isto é asneira; se o não fosse, não se teria espalhado.

(Álvaro de Campos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 372, p. 415)

Os problemas da Educação (entre outros) também passam por aqui...

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias. E assim as ideias que adoptamos, sem alteração nem crítica, são ou velhas ou superficiais.

(Fernando Pessoa, Sobre Portugal — Introdução ao Problema Nacional, 8, p. 85)

Povo

O povo não é educável, porque é povo. Se fosse possível convertê-lo em indivíduos, seria educável, seria educado, porém já não seria povo.

(Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, p. 375)

16 abril 2009

Iconografia pessoana

«Fernando Pessoa, telhados de Lisboa»
Pintura de João Beja

120 anos do “nascimento” de Alberto Caeiro (1889)

À LA MANIÈRE DE A. CAEIRO


A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.

(Ricardo Reis, Poesia, II, 47, p. 79;
Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), p. 149)


Nota: Este poema foi publicado duas vezes na colecção Obras de Fernando Pessoa, da Assírio & Alvim, com diferente atribuição de autoria. Ao contrário de vários outros exemplos, onde a divergência na atribuição é assumida pelos especialistas na obra de Fernando Pessoa, neste caso as notas são omissas, pelo que cremos que a repetição não foi detectada pelas organizadoras. De facto, na nota que acompanha a publicação (em 2005) deste poema no segundo volume da poesia de Pessoa ortónimo há a indicação de «Inédito», quando o volume da poesia de Ricardo Reis, onde ele também aparece, é de 2000 — situação duplamente estranha, tendo em consideração que a responsável pela edição deste último (Manuela Parreira da Silva) foi também corresponsável pela edição da poesia ortónima. Como “atenuante”, claro, e que certamente explica muito, há a vastidão da obra e o caos do espólio do poeta.

15 abril 2009

97 anos do naufrágio do Titanic (1912)

It's a nice and glorious thing to have been at a shipwreck or at a battle; the worst is that you must be there to have been there.

[ É algo belo e glorioso ter estado num naufrágio ou numa batalha; o pior é que tem de se lá estar para se ter lá estado. ]

(Dr. Gaudêncio Nabos, Pessoa por Conhecer, vol. II, 127, p. 172; em inglês no original)*



* Esta edição, e também Aforismos e afins, p. 53, apresentam traduções com que não concordo totalmente; a que aqui apresento é minha. FG

13 abril 2009

Violência: mediação televisiva

Nada nos faça dor,
Nada nos canse de olhar,
Vivemos no torpor
De observar e ignorar.

(Fernando Pessoa, Poesia (1902–1917), p. 359)

Crise do sistema financeiro, Ano I (take 2)

Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!

(Álvaro de Campos, “Ultimatum”, Prosa Publicada em Vida, p. 280)


Stencil de Jef Aerosol
Foto de Sofia (blogue Dias Assim)

12 abril 2009

Páscoa

Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas. Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A estéril dor da humanidade antiga
Sim, nova pulcritude
Trouxe ao antigo panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
Por filhos de Saturno
De mais perto da origem igual das coisas,

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.



Não a ti, mas aos teus, odeio, Cristo.
Tu não és mais que um deus a mais no eterno
Panteão que preside
À nossa vida incerta.

Nem maior nem menor que os novos deuses,
Tua sombria forma dolorida
Trouxe algo que faltava
Ao número dos divos.

Por isso reina a par de outros no Olimpo,
Ou pela triste terra se quiseres
Vai enxugar o pranto
Dos humanos que sofrem.

Não venham, porém, estultos teus cultores
Em teu nome vedar o eterno culto
Das presenças maiores
Ou parceiras da tua.

A esses, sim, do âmago eu odeio
Do crente peito, e a esses eu não sigo,
Supersticiosos leigos
Na ciência dos deuses.

Ah, aumentai, não combatendo nunca.
Enriquecei o Olimpo, aos deuses dando
Cada vez maior força
Pelo número maior.

Basta os males que o Fado as Parcas fez
Por seu intuito natural fazerem.
Nós homens nos façamos
Unidos pelos deuses.

(Ricardo Reis, Poesia, Anexo B, 37a & 37b, pp. 178–180)

11 abril 2009

Iconografia pessoana

Caricatura de Toni D'Agostinho

Sr.ª Ministra

Mas ah que um ente vil e tão mesquinho,
Estrangeiro à virtude e à inteligência,
Assim ponha em [...] desalinho
O edifício [] da nossa ciência!

(Fernando Pessoa, “Juliano em Antioquia”, Poesia (1918–1930), p. 35)

Construção selvagem

Deixem ver o Portugal que não deixam ver!

(Álvaro de Campos, Poesia, 21, p. 145)

09 abril 2009

91 anos da Batalha de La Lys (1918)

O MENINO DA SUA MÃE


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado —
Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

(Fernando Pessoa, Poesia (1918–1930), pp. 252–253)


Caricatura de João Abel Manta (1974)

08 abril 2009

Testemunhas de Jeová à porta

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
[...]
Merda! Sou lúcido.

(Álvaro de Campos, Poesia, 64, p. 299)

07 abril 2009

110 anos do ingresso de Fernando Pessoa na Durban High School (1899)

Fernando Pessoa vestido de cavaleiro
Fernando Pessoa com cerca de 12 anos, em Durban


(Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, p. 42)